quarta-feira, outubro 01, 2008
sábado, setembro 27, 2008
The whisper
Finalmente, em Londres, vi Lost In Translation. E, claro, nao descansei enquanto nao ouvi o whisper. E, claro, nao foi nada de extraordinario...
segunda-feira, setembro 22, 2008
sem título
É no silêncio de uma tarde morta
que acendes os ponteiros que batem
cá dentro,
dentro deste aparelho avariado
que é o meu coração.
Nadas na água morna das tardes de domingo
quando os pensamentos tiram férias,
e os sentimentos regressam ao trabalho.
Agitas as notas musicais de uma melancolia
que cresce em dó maior: a melancolia de um corpo vazio riscado numa pauta abandonada.
É no silêncio de uma tarde morta
que regressas a este sangue quente em todo o teu vigor.
És uma fotografia a preto e branco,
que adormece lentamente debaixo do cobertor que é a minha pálpebra.
É aqui que transpiramos os dois: debaixo da minha pálpebra, onde os sonhos têm carteiro, onde a pele se chama paixão, e o prazer tem o teu nome.
que acendes os ponteiros que batem
cá dentro,
dentro deste aparelho avariado
que é o meu coração.
Nadas na água morna das tardes de domingo
quando os pensamentos tiram férias,
e os sentimentos regressam ao trabalho.
Agitas as notas musicais de uma melancolia
que cresce em dó maior: a melancolia de um corpo vazio riscado numa pauta abandonada.
É no silêncio de uma tarde morta
que regressas a este sangue quente em todo o teu vigor.
És uma fotografia a preto e branco,
que adormece lentamente debaixo do cobertor que é a minha pálpebra.
É aqui que transpiramos os dois: debaixo da minha pálpebra, onde os sonhos têm carteiro, onde a pele se chama paixão, e o prazer tem o teu nome.
sexta-feira, setembro 19, 2008
quinta-feira, setembro 18, 2008
Obrigada Anthero por relembrares os cantos de um passado que estragou o futuro, quando na rouquidão da minha noite púcara gritaste o que aqui escrevi.
quarta-feira, setembro 17, 2008
Indisposições literárias|oblíquas. Não sei se vos acontece: imagens que gemem. Deficiência minha, pela certa! Andar pela rua e se uns clicam na máquina, a mim, uma certa imagem, pára à minha frente, e geme. Diz-me estórias sorrateiras. Conta-me aventuras. Outras vezes, as palavras vêm ao meu encontro, acomodando-se na berma do ouvido "a fazer barulho". Relevem estas indisposições, que são apenas isso. Não têm verdade, nem mentira. É a minha cusquice pelo mundo invisível Apenas.
[Eco de 13 de Junho.]
[Eco de 13 de Junho.]
segunda-feira, setembro 15, 2008
vómitos literários
Se pudesse, T. cuspia-te a cara toda até sangrares de raiva. Mesmo sabendo que não irias sangrar. Não tens o talento de ser humano. É difícil ser-se humano, no cerne podre de uma pele sem carne.
T. pensa: que se foda. E que se foda mesmo. Tantas caras para cuspir e por cuspir.
T. pensa: que se foda. E que se foda mesmo. Tantas caras para cuspir e por cuspir.
sexta-feira, setembro 12, 2008
Nunca encontrei...
nos painéis das estações,
nas listas de horários,
nos rótulos das malas
ou impresso nos bilhetes...
um destino que me servisse.
anthero monteiro
Foi há um ano.
nas listas de horários,
nos rótulos das malas
ou impresso nos bilhetes...
um destino que me servisse.
anthero monteiro
Foi há um ano.
quinta-feira, setembro 11, 2008
domingo, agosto 31, 2008
morreu joaquim castro caldas
crítico literário. era o o rótulo que lhe colocavam. eu cá preferia outro: traquinas da poesia e de tertúlias. tantas no pinguim café, no porto. não estive presente na última, 'unfortunately'. creio que "da morte volta sempre em vida", diria o sérgio godinho, tal como o amor. morreu e eternizou-se.
só depois de te beijar
uma criança te pede um beijo
para distinguir a inocência do desejo
joaquim castro caldas
só depois de te beijar
uma criança te pede um beijo
para distinguir a inocência do desejo
joaquim castro caldas
quarta-feira, agosto 20, 2008
segunda-feira, agosto 18, 2008
Destruimos sempre aquilo que mais amamos, seja em céu aberto ou no meio de uma emboscada (...) os cobardes destroem com um beijo, os valentes destroem com a espada.
Impressiona-me (também) a letargia do indivíduo, em particular, e da sociedade, em geral. O - mudo - Primeiro de Janeiro deixou de respirar e não se passa nada. 32 jornalistas foram ilegalmente despedidos, e escrevem-se crónicas. As crónicas ajudam, lançam palavras bonitas, relembram as pessoas - mas não passa disso: de floreados bonitos, numa fotografia bonita, mas sem resultados. Mas será que este País morreu? Será que o mundo enferrujou e já não circula na sua órbita? E o que aconteceu aos contos: não é suposto os maus serem presos, e os bons retomarem os seus lugares de honra?
Impressiona-me (também) a letargia do indivíduo, em particular, e da sociedade, em geral. O - mudo - Primeiro de Janeiro deixou de respirar e não se passa nada. 32 jornalistas foram ilegalmente despedidos, e escrevem-se crónicas. As crónicas ajudam, lançam palavras bonitas, relembram as pessoas - mas não passa disso: de floreados bonitos, numa fotografia bonita, mas sem resultados. Mas será que este País morreu? Será que o mundo enferrujou e já não circula na sua órbita? E o que aconteceu aos contos: não é suposto os maus serem presos, e os bons retomarem os seus lugares de honra?
sexta-feira, agosto 15, 2008
Nunca consegui misturar-me nos outros corpos, estão demasiado vivos, doem-me quando lhes toco. Observo-os, uso-os, e no entanto mantêm-se tão distantes. Se calhar envelheci mais depressa ao tocá-los. A dor vai sulcando o rosto e comprimindo o coração, não sei... talvez seja apenas o receio da noite com os seus desmedidos poços de cinza. (...) No fundo estou-me nas tintas para isto tudo. Tornei-me ladrão. Roubo-lhes um beijo, uma erecção, um gemido de esperma, uma carícia... roubou-lhes tudo o que posso e estou-me nas tintas... é isso mesmo, estou-me nas tintas para o que pensam. Nada tenho a perder, a sedução é uma das artes do ladrão, raramento me deixo roubar. Mas que te importa tudo isto, Beno? Sossega, sossega porque o mundo está sujo de indiferença.
Al Berto, Lunário
Al Berto, Lunário
sexta-feira, agosto 08, 2008
Nada de novo. O céu no alto, o chão cá em baixo. O sol brilha, o vento bate, o ar poluído faz A. tossir. Nada de novo. 9h levantar. 01h deitar. E no meio espera-se a cada sopro do coração que o dia entre em erupção. Mas não. Permanece calado, a saborear segundos estéreis de fantasia, viscosos de vazio. Mas como diria Lanza del Vasto "uma revolução precisa de tempo para se instalar". E, assim, quando o tempo der tempo ao tempo pode ser que o céu desmaie até onde o esperam e o chão suba até onde a retina não o possa alcançar, o vento sossegue e o ar suavize.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Citado no blog "Esgravatar"
Às voltas na campa
Manuel Pinto de Azevedo Júnior deve estar às voltas na campa. Foi este homem que tornou o “O Primeiro de Janeiro” reconhecido em todo o país, de norte a sul de Portugal. Apoiou jornalistas, foi patrono das artes, lançou um suplemento cultural, o Das Artes Das Letras, foi o primeiro a imprimir jornais com cor e apostou numa secção de Internacional “a sério”, naquela época em que ainda havia “lápis azul”.
E agora o “Janeiro” volta a ser reconhecido em todo o país. Mas por outras razões. Um empresário de comunicação social, que até tem carteira de jornalista, mas com interesses em muitas outras áreas, resolve pegar numa redacção inteira e metê-la na rua. Sem explicações, sem indemnizações, com salários em atraso, com subsídios de férias por pagar. A directora de “O Primeiro de Janeiro”, que foi quem deu a cara pela administração, disse aos seus próprios jornalistas para irem para casa, que metessem os papéis para o fundo de desemprego e que depois, lá para Setembro, ia chamar todos aqueles que quisessem voltar a trabalhar com ela. Num “novo Janeiro”. Só que três dias depois, o jornal já estava cá fora, nas bancas, com um novo grafismo, com um novo director, a ser feito por dez jornalistas de um suplemento de desporto.
O empresário de comunicação social, que até tem carteira de jornalista, socorreu-se muito da figura de Manuel Pinto de Azevedo Júnior. Todos os anos, lá pelo Natal, entregava prémios em seu nome e do “O Primeiro de Janeiro”, a personalidades que se destacavam na política, na Imprensa, no mundo empresarial, nas artes. Todos os anos, alguns de nós lá iam jantar ao casino e assistir à entrega dos prémios, que até eram significativos. Entre os premiados figuram Marcelo Rebelo de Sousa, Pinto Balsemão, Belmiro de Azevedo, José Pacheco Pereira, Luís Silva, Agustina Bessa Luís, Manoel de Oliveira. Enaltecendo a “memória de Pinto de Azevedo”, o empresário apertava a mão aos premiados e posava para os flashes e holofotes. Era o grande momento anual de “O Primeiro de Janeiro” e do seu proprietário.
Nós, os 32 jornalistas, que fomos postos na rua sem explicações, voltamos agora às notícias, mas do outro lado. Somos “a notícia”. Vamos tendo o consolo das nossas fontes e dos nossos leitores, que nos têm mostrado solidariedade, e de outros camaradas de profissão, de antigos trabalhadores do jornal, de anónimos de todo o país que reconhecem o absurdo desta situação completamente ilegal. Não percebemos é o silêncio e a inoperância das autoridades do Estado. Descartáveis, é como nos sentimos. Usados e deitados fora. Pinto de Azevedo deve estar mesmo às voltas na campa.
Paulo Almeida
Jornalista descartável a 1 de Agosto de 2008
(Texto escrito para publicação hoje no jornal 24 horas)
Manuel Pinto de Azevedo Júnior deve estar às voltas na campa. Foi este homem que tornou o “O Primeiro de Janeiro” reconhecido em todo o país, de norte a sul de Portugal. Apoiou jornalistas, foi patrono das artes, lançou um suplemento cultural, o Das Artes Das Letras, foi o primeiro a imprimir jornais com cor e apostou numa secção de Internacional “a sério”, naquela época em que ainda havia “lápis azul”.
E agora o “Janeiro” volta a ser reconhecido em todo o país. Mas por outras razões. Um empresário de comunicação social, que até tem carteira de jornalista, mas com interesses em muitas outras áreas, resolve pegar numa redacção inteira e metê-la na rua. Sem explicações, sem indemnizações, com salários em atraso, com subsídios de férias por pagar. A directora de “O Primeiro de Janeiro”, que foi quem deu a cara pela administração, disse aos seus próprios jornalistas para irem para casa, que metessem os papéis para o fundo de desemprego e que depois, lá para Setembro, ia chamar todos aqueles que quisessem voltar a trabalhar com ela. Num “novo Janeiro”. Só que três dias depois, o jornal já estava cá fora, nas bancas, com um novo grafismo, com um novo director, a ser feito por dez jornalistas de um suplemento de desporto.
O empresário de comunicação social, que até tem carteira de jornalista, socorreu-se muito da figura de Manuel Pinto de Azevedo Júnior. Todos os anos, lá pelo Natal, entregava prémios em seu nome e do “O Primeiro de Janeiro”, a personalidades que se destacavam na política, na Imprensa, no mundo empresarial, nas artes. Todos os anos, alguns de nós lá iam jantar ao casino e assistir à entrega dos prémios, que até eram significativos. Entre os premiados figuram Marcelo Rebelo de Sousa, Pinto Balsemão, Belmiro de Azevedo, José Pacheco Pereira, Luís Silva, Agustina Bessa Luís, Manoel de Oliveira. Enaltecendo a “memória de Pinto de Azevedo”, o empresário apertava a mão aos premiados e posava para os flashes e holofotes. Era o grande momento anual de “O Primeiro de Janeiro” e do seu proprietário.
Nós, os 32 jornalistas, que fomos postos na rua sem explicações, voltamos agora às notícias, mas do outro lado. Somos “a notícia”. Vamos tendo o consolo das nossas fontes e dos nossos leitores, que nos têm mostrado solidariedade, e de outros camaradas de profissão, de antigos trabalhadores do jornal, de anónimos de todo o país que reconhecem o absurdo desta situação completamente ilegal. Não percebemos é o silêncio e a inoperância das autoridades do Estado. Descartáveis, é como nos sentimos. Usados e deitados fora. Pinto de Azevedo deve estar mesmo às voltas na campa.
Paulo Almeida
Jornalista descartável a 1 de Agosto de 2008
(Texto escrito para publicação hoje no jornal 24 horas)
quinta-feira, julho 31, 2008
O Janeiro
Há uma estante cheia de pó e migalhas de letras do século passado mesmo a incomodar o nariz de quem tecla ao seu ladinho. O corredor é estreito. A sala é pequena, mas já conheceu várias reformas. As secretárias tinham nações diferentes, e o mesmo se passava com os pc's. Estes eram muito peculiares. Mas como diz a minha avó, que poupa tudo, "dava para o gasto". Apertavamo-nos todos naqueles três corredores - como uma daquelas famílias, pobres no cofre, mas ricas no Amor. E o Amor é a dedicação de cada letra, de cada agenda, de cada hora fora do relógio de trabalho. Os cafés de segredos, as manias, e a luta entre o bem e o mal. O Janeiro é um mês assim: um nevoeiro à espera de dias melhores. Sempre foi assim. O Amor à letra, à agenda, a cada hora fora do relógio.
O Janeiro é um brinde ao cigarro na porta de trás, ao café torrado, à casa-de-banho com mais crítica do que papel. É o mês quente. Sim, o Janeiro é muito quente. Um mês exótico, lá na rua Coelho Neto, vizinho das prostitutas.
[Muitas vezes estendi a mão com o jornal a mulheres que o queriam ler para não morrerem de aborrecimento - sintoma de profissão] O Janeiro é um mês com uma estante cheia de pó e migalhas de letras do século passado. De há mais do que o século passado. Nesta cidade, algures, há uma estante com migalhas de letras que duram há 140 anos. Eu vivi no mês Janeiro. Aquele cheiro incomodava o nariz. As migalhas de letras sujaram-me casacos. Os pc's tornavam-me um verso de Bocage: negra como a noite. E mesmo assim, cada edição era uma pinga de suor e sangue pelo Amor à letra, à agenda, a cada hora fora do relógio. O Janeiro não é um mês de todos, é um mês de alguns. Daqueles que se sentiram incomodados com a estante de 140 anos, e mesmo assim, mesmo sujos de pó, com o nariz entupido, pingaram e pingaram e pingaram suor e sangue para que cada papel, cada edição fosse a Ode ao Jornalismo - ainda que remando contra alguma estupidez capitalista, e ao próprio verso da profissão.
O ano perdeu um mês: O Janeiro
O Janeiro é um brinde ao cigarro na porta de trás, ao café torrado, à casa-de-banho com mais crítica do que papel. É o mês quente. Sim, o Janeiro é muito quente. Um mês exótico, lá na rua Coelho Neto, vizinho das prostitutas.
[Muitas vezes estendi a mão com o jornal a mulheres que o queriam ler para não morrerem de aborrecimento - sintoma de profissão] O Janeiro é um mês com uma estante cheia de pó e migalhas de letras do século passado. De há mais do que o século passado. Nesta cidade, algures, há uma estante com migalhas de letras que duram há 140 anos. Eu vivi no mês Janeiro. Aquele cheiro incomodava o nariz. As migalhas de letras sujaram-me casacos. Os pc's tornavam-me um verso de Bocage: negra como a noite. E mesmo assim, cada edição era uma pinga de suor e sangue pelo Amor à letra, à agenda, a cada hora fora do relógio. O Janeiro não é um mês de todos, é um mês de alguns. Daqueles que se sentiram incomodados com a estante de 140 anos, e mesmo assim, mesmo sujos de pó, com o nariz entupido, pingaram e pingaram e pingaram suor e sangue para que cada papel, cada edição fosse a Ode ao Jornalismo - ainda que remando contra alguma estupidez capitalista, e ao próprio verso da profissão.
O ano perdeu um mês: O Janeiro
segunda-feira, julho 28, 2008
O Elias
O Elias é um rapaz especial. No primeiro dia em que o conheci, em Londres, no restaurante «The Real Greek», onde trabalhei, ele havia-o confirmado: "Sou um rapaz especial". Eu é que não o havia notado - assim à primeira vista. Nasceu na Grécia mas não é grego,é latino puro. Ele é um "Vlach": oriundo do império Romano. "Puro", explicava-me ele entre vassouradas no chão. "Nós temos a nossa própria economia, compramos os bens uns aos outros, e apenas restam umas cem famílias". O pior é que este tipo de regra também de aplica ao amor e às paixões. O Elias, especial e rebelde, apaixonou-se por uma chinesa e recusava-se a casar com a romana que lhe estava destinada. O pai enchutou-o de Atenas, e o «The Real Greek» adoptou-o. Ali passava os dias a lamuriar-se por estar longe da namorada: a miúda estava mesmo na China, ou melhor na conchichina, porque o rapaz não se recordava do nome da terra da amante. Ele tinha um plano: juntar dinheiro, ir buscá-la, casar-se e viver feliz para sempre. Assim projectado no papel, o plano parecia-me óptimo, mas o "they lived happily ever after" é coisa de cinema. Certa noite, no restaurante, perguntei-lhe como iam os astros, ele cabisbaixo, respondeu que não muito bem. O «fucker» do irmão havia bufado tudo ao pai, e por isso, o "they lived happily ever after" tinha sido riscado do seu percurso. Ele terminou tudo com a rapariga, e dias mais tarde chorava como uma criança no meu ombro. Ou era a rapariga, ou era a família. O restaurante chorava com ele. A estória de amor e desamor do Elias entranhava-se nos corações que por ali passavam: começamos a resmungar uns com os outros, e ponderávamos juntos: O que é mais importante, um homem largar a família devido a uma mulher, ou largar a mulher por causa da família. Ele ainda chorou duas semanas no meu ombro. Eu em silêncio porque não tinha a poção mágica para lhe oferecer, ele em silêncio, porque procurava uma resposta. Foi numa sexta à noite, numa dança de pratos e vassouras, e copos, e guardanapos mal dobrados, que Elias havia tomado a decisão: "Escolhi a família, assim poupo o meu pai a um enfarte, e a minha mãe a um desgosto". E, afinal, o "they lived happily ever after" aconteceu. Mas não ao Elias. Aos seus pais.
segunda-feira, julho 21, 2008
A preparação da minha tese tem sido um parto difícil. Eu bem grito «Vontade» e no ar escuto apenas o eco: von...tade.tade.tade! E assim vou indo de palavra em palavra. De página em página. Às vezes tiro bilhete até o weblog, mas nem este me salva. Isto parece um terreno inóspito, eu sei!Isto só pode ser reumatismo: reumatismo nos sentidos. A audição ainda me vai valendo: os Beirut, os Radiohead, os Depeche, os Sigur lá me vão segredando que deveria regar este jardim sob pena de se tornar num deserto...
sexta-feira, julho 11, 2008
[Londres, Junho de 2008]
O anjo flutua do avesso por uma estrada recta. É empurrado pelo vento. Não há vizinho que se intrometa. É ele e o céu. No chão toda a gente barafusta, ele de cima ri sempre: porque tem um carrossel só para ele. Nenhum olhar arrisca a sua brincadeira. E ele não arrisca a aterragem sobre a cegueira dos olhos presos aos sapatos. Ele bebeu um trago do vento, e é isso que o alimenta.
quinta-feira, julho 10, 2008
porque gosto de poesia...
"Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como esta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche esta estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque este sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los ultimos versos que yo le escribo."
Pablo Neruda
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como esta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche esta estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque este sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los ultimos versos que yo le escribo."
Pablo Neruda
sábado, junho 28, 2008
devaneios I
Dentro dos olhos o mundo naufraga. O mar agita-se em instrumentos de acordes incertos. Naufragar é viver - diria Pessoa.
C. encolhe-se na vergonha mentida do seu olhar. Não sei se é ele quem não é igual ao mundo, ou se é o mundo que não é igual a ele. Não sei se é ele quem não se adapta ao mundo ou se é o mundo que não se adapta a ele. Não sei se é ele quem não tem sensibilidade para o mundo ou se é este que lhe não oferece sensibilidade. Não sei se é C. quem deriva nas margens do mundo, ou se é o mundo a marinar nas margens de C. Não sei se é ele zangado com o mundo, ou este zangado com o outro. Não sei se é C. quem não dança com o mundo, ou o mundo que não dança com ele.
Não sei se sou quem lê errado nos olhos, ou se são os olhos que mentem.
terça-feira, junho 24, 2008
Voltei...
[Brick Lane, Junho de 2008]
Nesta cidade tem de se entrar devagar, para que ela também vá entrando em nós devagar. O Porto tem uma alma, muito sua e muito especial. E as cidades que têm uma alma não são lugares de passagem: são navios naufragados, à espera de um caçador de tesouros.
Miguel de Sousa Tavares
[consultando agora o relógio até passou rápido=)]
quarta-feira, abril 02, 2008
sexta-feira, março 21, 2008
quinta-feira, março 20, 2008
...quem dera...
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Pessoa
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Pessoa
segunda-feira, março 17, 2008
quinta-feira, março 13, 2008
fotografia antecipada
O sol escorrega pela rua como um tapete na madeira da sala ampla, onde uma televisão faz barulho. Uma criança corre pela infância dos carros, esboça o corpo pela felicidade. Um homem ergue um jornal com estórias tristes, outras assim-assim, e outras menos tristes. Uma mulher leva a roupa molhada num estendal muito além da sua altura.
Os vizinhos gritam. Os carros são os mesmos. O café continua no sítio. O cheiro do mar sobe ao nariz, e o arroz de polvo espalha-se pela mesa.
Depois, no teatro, ainda cabe o café com aquele biscoito. Alguém sacode as migalhas para o bem dos pássaros. O carro lança-se pela mesma rua, onde o sol escorrega até encontrar dois pares de vidas, sentados onde se sentam as flores. Aí nascem beijos e abraços e palavras proferidas a lápis de cor.
Quando o sol enrola-se rua fora, e desaparece por fim, e quando a noite ganha vez, o cobertor embala várias vidas numa só: são 4-4.
Os vizinhos gritam. Os carros são os mesmos. O café continua no sítio. O cheiro do mar sobe ao nariz, e o arroz de polvo espalha-se pela mesa.
Depois, no teatro, ainda cabe o café com aquele biscoito. Alguém sacode as migalhas para o bem dos pássaros. O carro lança-se pela mesma rua, onde o sol escorrega até encontrar dois pares de vidas, sentados onde se sentam as flores. Aí nascem beijos e abraços e palavras proferidas a lápis de cor.
Quando o sol enrola-se rua fora, e desaparece por fim, e quando a noite ganha vez, o cobertor embala várias vidas numa só: são 4-4.
sábado, outubro 13, 2007
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
não sei bem se preciso de um «ethernal sunshine» ou de um «spotless mind».
quinta-feira, outubro 11, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
homesick
someone who needs somewhere
london-calling-joana
[eu vou estar ali a pintar fotografias que os meus olhos dançarinos gravam. volto sempre que o meu planeta chamar]
london-calling-joana
[eu vou estar ali a pintar fotografias que os meus olhos dançarinos gravam. volto sempre que o meu planeta chamar]
quinta-feira, setembro 13, 2007
terça-feira, setembro 11, 2007
quinta-feira, setembro 06, 2007
terça-feira, setembro 04, 2007
segunda-feira, setembro 03, 2007
sábado, setembro 01, 2007
quinta-feira, agosto 30, 2007
Eu hei-de amar uma pedra
Foi com o dia a terminar no horizonte que me lembrei de ti. Do grito que esvoaça a cada novo morrer. Da probabilidade. Do medo. Da perda.
Estás velho. Já caminhas pela vida, porque ela ainda não acabou contigo como acabou comigo. Foi com o som estridente de um piano gasto, em dó maior, que me ensinaste, a sair fora de mim, para entrar de novo em mim - do lado inverso.
De facto, as tuas rugas assustam-me: antecipam-me a morte. E só de te olhar sinto-te a falta. De ti e das tuas coisas e palavras e sentidos.
Incomoda saber que te percorro os passos. Os que te levarão ao cemitério, onde repousarás, debaixo de uma pedra. As flores serão saudade. E essa pedra uma vertigem.
"Eu hei-de amar uma pedra"
Estás velho. Já caminhas pela vida, porque ela ainda não acabou contigo como acabou comigo. Foi com o som estridente de um piano gasto, em dó maior, que me ensinaste, a sair fora de mim, para entrar de novo em mim - do lado inverso.
De facto, as tuas rugas assustam-me: antecipam-me a morte. E só de te olhar sinto-te a falta. De ti e das tuas coisas e palavras e sentidos.
Incomoda saber que te percorro os passos. Os que te levarão ao cemitério, onde repousarás, debaixo de uma pedra. As flores serão saudade. E essa pedra uma vertigem.
"Eu hei-de amar uma pedra"
segunda-feira, agosto 13, 2007
Fui para os bosques viver deliberadamente. Queria viver profundamente e sugar o tutano da vida. E, não, quando morrer, descobrir que não vivi.
in Clube dos Poetas Mortos
Nem sempre a cadeira é o lugar mais privilegiado para se ver o mundo. Para vê-lo é preciso ousar subir mesas, telhados, descer a caves, condutas. E nem sempre a cadeira é o lugar mais seguro.
in Clube dos Poetas Mortos
Nem sempre a cadeira é o lugar mais privilegiado para se ver o mundo. Para vê-lo é preciso ousar subir mesas, telhados, descer a caves, condutas. E nem sempre a cadeira é o lugar mais seguro.
domingo, agosto 12, 2007
Miguel de Cervantes. Torga de planta. Miguel Torga de telúrico desde há cem anos.
Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel
Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel
sábado, agosto 11, 2007
O blog a baixa do porto dá nota do documentário Miguel Torga, o meu Portugal a rodar amanhã (dia 12) pelas 21h15. A não perder, mesmo!...ainda se vai produzindo televisão a norte...
Eu chamo a atenção para o seguinte: (o estimado) professor de Produção Audiovisual da U.M. e realizador Ângelo Peres.
Eu chamo a atenção para o seguinte: (o estimado) professor de Produção Audiovisual da U.M. e realizador Ângelo Peres.
quarta-feira, agosto 08, 2007
[do ALA, este é o preferido V., adivinhas-me]
Porque motivo apenas te aproximas de mim quando queres fazer amor? No resto do tempo chegas do banco e és só jornal e calças no sofá, se tento falar-te o jornal treme de zanga, sobe mais um pouco, as pernas cruzam-se, impacientes, em sentido contrário, o sapato fica a dar e dar no vazio, toco-te e encolhes-te, faço-te uma festa no cabelo e a cabeça diminui de tamanho, arrepiada, um protesto ronca das notícias
- O que foi agora?- Já nem se pode ler em paz?- Fazes o favor de não me despentear?
jantas calado a rolar bolinhas de pão entre suspiros, desapareces antes que eu acabe de comer, nem uma palavra para a minha saia nova, uma pergunta sobre como me correu o dia nas finanças, um beijo, ficas de mãos nos bolsos a olhar o prédio em frente, atiras o canal para o desporto quando começa a novela, aborreces-te do desporto, carregas no botão e reaparece a novela
- Olha essa porcaria à tua vontade
tudo te enjoa, te aborrece, te cansa e uma vez por semana, quando já estou meia a dormir, o teu braço a arrepelar-me, o ombro que me aleija, uma vertigem rápida, um camião a abanar o prédio na rua, eu a fixar os números luminosos do despertador ao lado das tuas costas indiferentes, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto
(- Não mudei nada, que mania)
ao conhecermo-nos, há dez, minto, há onze anos, chegavas-te a mim embrulhado em vénias de timidez, a ensaboar as mãos, com o sorriso borboleteando em volta da boca sem se atrever a poisar
- Um dia destes convido-a para um café, menina Clara
tão atencioso, tão terno, tão preocupado comigo, a notar quando eu mudava de brincos, de penteado, de anel
- Que bem lhe fica a franja, menina Clara
o meu pai simpatizou logo contigo por te levantares, com o tal sorriso a adejar, mal eu entrava na sala, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto
(- E ela a dar-lhe, que gaita)
descíamos para a muralha do rio, em Novembro, com as gaivotas todas na praia, corríamos de mão dada a assustar os pássaros, achavas-me graça, achavas-me bonita, dizias que eu ficava linda a correr
- Parece mesmo uma gaivota, sabia?
que qualquer dia me escapava de ti, a bater as asas no rasto de um cargueiro turco, perguntavas-me ao ouvido, aflitissimo, ansioso
- Nunca me deixa, pois não?
(- As fantasias que tu vais buscar, meu Deus)
apertavas-me tanto pela cintura que quase não conseguia respirar, por favor explica-me o que fiz de mal para mudares assim tanto, ainda sou capaz de correr da mesma maneira se voltarmos à praia em Novembro, que é feito do teu sorriso e do ensaboar das mãos, ponho um baton diferente, a blusa decotada, os sapatos que nunca me atrevi a usar para os homens não se meterem comigo na avenida
- Ainda há quem me ache engraçada, sabias?
(- Pois que lhes faça muito bom proveito)
desço lá abaixo à muralha e fico no meio das gaivotas à espera que chegues
(- Agora deste em maluca ou quê?)
sem jornal, sem caretas, sem bolinhas de pão, a convidares-me, nervoso, para um café na esplanada, soprando pelo meio do sorriso que não pare, que não pare
- Apetece-me tanto dar-lhe um beijo, Clarinha
(- As parvoíces que a gente diz em novo, senhores)
e nisto, não sei se deste conta, as gaivotas sumiram-se todas e ficamos sozinhos, amor, só a praia e as ondas e eu tão contente, tão com a certeza
- ainda tenho a certeza
(- Cada qual tem as certezas que quer)
de sermos felizes para sempre, de podermos ser felizes se um dia me deixares; deixas não deixas, aposto que deixas,
(- Que teimosia, que insistência, já é cisma, caramba)
abraçar-te.
Porque motivo apenas te aproximas de mim quando queres fazer amor? No resto do tempo chegas do banco e és só jornal e calças no sofá, se tento falar-te o jornal treme de zanga, sobe mais um pouco, as pernas cruzam-se, impacientes, em sentido contrário, o sapato fica a dar e dar no vazio, toco-te e encolhes-te, faço-te uma festa no cabelo e a cabeça diminui de tamanho, arrepiada, um protesto ronca das notícias
- O que foi agora?- Já nem se pode ler em paz?- Fazes o favor de não me despentear?
jantas calado a rolar bolinhas de pão entre suspiros, desapareces antes que eu acabe de comer, nem uma palavra para a minha saia nova, uma pergunta sobre como me correu o dia nas finanças, um beijo, ficas de mãos nos bolsos a olhar o prédio em frente, atiras o canal para o desporto quando começa a novela, aborreces-te do desporto, carregas no botão e reaparece a novela
- Olha essa porcaria à tua vontade
tudo te enjoa, te aborrece, te cansa e uma vez por semana, quando já estou meia a dormir, o teu braço a arrepelar-me, o ombro que me aleija, uma vertigem rápida, um camião a abanar o prédio na rua, eu a fixar os números luminosos do despertador ao lado das tuas costas indiferentes, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto
(- Não mudei nada, que mania)
ao conhecermo-nos, há dez, minto, há onze anos, chegavas-te a mim embrulhado em vénias de timidez, a ensaboar as mãos, com o sorriso borboleteando em volta da boca sem se atrever a poisar
- Um dia destes convido-a para um café, menina Clara
tão atencioso, tão terno, tão preocupado comigo, a notar quando eu mudava de brincos, de penteado, de anel
- Que bem lhe fica a franja, menina Clara
o meu pai simpatizou logo contigo por te levantares, com o tal sorriso a adejar, mal eu entrava na sala, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto
(- E ela a dar-lhe, que gaita)
descíamos para a muralha do rio, em Novembro, com as gaivotas todas na praia, corríamos de mão dada a assustar os pássaros, achavas-me graça, achavas-me bonita, dizias que eu ficava linda a correr
- Parece mesmo uma gaivota, sabia?
que qualquer dia me escapava de ti, a bater as asas no rasto de um cargueiro turco, perguntavas-me ao ouvido, aflitissimo, ansioso
- Nunca me deixa, pois não?
(- As fantasias que tu vais buscar, meu Deus)
apertavas-me tanto pela cintura que quase não conseguia respirar, por favor explica-me o que fiz de mal para mudares assim tanto, ainda sou capaz de correr da mesma maneira se voltarmos à praia em Novembro, que é feito do teu sorriso e do ensaboar das mãos, ponho um baton diferente, a blusa decotada, os sapatos que nunca me atrevi a usar para os homens não se meterem comigo na avenida
- Ainda há quem me ache engraçada, sabias?
(- Pois que lhes faça muito bom proveito)
desço lá abaixo à muralha e fico no meio das gaivotas à espera que chegues
(- Agora deste em maluca ou quê?)
sem jornal, sem caretas, sem bolinhas de pão, a convidares-me, nervoso, para um café na esplanada, soprando pelo meio do sorriso que não pare, que não pare
- Apetece-me tanto dar-lhe um beijo, Clarinha
(- As parvoíces que a gente diz em novo, senhores)
e nisto, não sei se deste conta, as gaivotas sumiram-se todas e ficamos sozinhos, amor, só a praia e as ondas e eu tão contente, tão com a certeza
- ainda tenho a certeza
(- Cada qual tem as certezas que quer)
de sermos felizes para sempre, de podermos ser felizes se um dia me deixares; deixas não deixas, aposto que deixas,
(- Que teimosia, que insistência, já é cisma, caramba)
abraçar-te.
terça-feira, agosto 07, 2007
Andrew Bird
Do meu cardápio musical já faz parte este rapazola. Esta semana apaixonei-me por ele. Hoje acompanhou-me na jornada do dia. Tem sons bonitos. Partilho.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Ele é fixe. Um gajo da rádio, que dá voltas diárias ao papel, pelo meio digital. Cafeína pura - quer os programas que dirige na RUM [ainda tenho de ouvir], quer os textos do papel, ou do mundo virtual. Ele é fixe. Desperta a curiosidade para novas músicas. É um colega amigo. Perde canetas como quem perde botões pequenos das camisas. Anda às voltas com a sacola. Às vezes parece dormir com a cabeça na lua - é isso que o torna especial. É da vanguarda. Um optimista. Atento a cada minuto do dia. Companheiro do café e do gelado. Das vagabundices do discurso. Um inconformado, como eu gosto. Tem nome de poeta clássico. Ele é fixe. Ele é um bom companheiro. Sempre aqui do lado.
Eu também vou ter saudades tuas. Até à próxima redacção...:-)
Eu também vou ter saudades tuas. Até à próxima redacção...:-)
domingo, agosto 05, 2007
resposta à maria:
blogs que gostaria de ver editados em livros:
plantar ideias
lábios de silêncio
os meus dois pés vesgos
jornada
les jours de lumiére
frutos de sombra
deixo o desafio a quem quiser participar:-)
blogs que gostaria de ver editados em livros:
plantar ideias
lábios de silêncio
os meus dois pés vesgos
jornada
les jours de lumiére
frutos de sombra
deixo o desafio a quem quiser participar:-)
quarta-feira, agosto 01, 2007
silly-season
Um dos indicadores da chamada silly-season, abrir-parêntesis, quando uma redacção, seja imprensa, televisão ou rádio, não tem nem páginas nem minutos para encher com notícias-de-facto, fechar-parêntesis, é a RTP repetir uma reportagem que passou há três meses.
sábado, julho 28, 2007
sexta-feira, julho 27, 2007
os sonhos são tão grandes. e a vida tão pequena.
Teatro.
Àfrica.
Perú.
Livros.
Poesia.
Prosa.
Filho.
Amante.
Fotografia.
India.
Nova Iorque.
Jornalista.
Jornal.
Finlândia.
Discos.
Filmes.
Dança.
os sonhos são tão grandes. e a vida tão pequena. quando a luz se abriu à pouca multidão que se estendia na plateia, só me coube na cabeça aquela frase. ainda hoje o tempo que me ocupa, mora nas entranhas da cabeça a sussurar um lacónico - os sonhos são tão grandes. e a vida tão pequena.
Teatro.
Àfrica.
Perú.
Livros.
Poesia.
Prosa.
Filho.
Amante.
Fotografia.
India.
Nova Iorque.
Jornalista.
Jornal.
Finlândia.
Discos.
Filmes.
Dança.
os sonhos são tão grandes. e a vida tão pequena. quando a luz se abriu à pouca multidão que se estendia na plateia, só me coube na cabeça aquela frase. ainda hoje o tempo que me ocupa, mora nas entranhas da cabeça a sussurar um lacónico - os sonhos são tão grandes. e a vida tão pequena.
quinta-feira, julho 26, 2007
Egas e Becas à pesca
O que descobri! Era o meu episódio favorito. Fosse assim a vida...chamava-se "peixe, peixe, peixe", e depois, vinham todos os "peixes" que quisessemos!!:-)
quarta-feira, julho 25, 2007
p-a-r-a-b-é-n-s
[scissor sisters, take your mama out]
Hoje a mulher da minha vida faz anos.
Parabéns, mãe!
terça-feira, julho 24, 2007

Aqueles dois passeavam-se ao som das ondas nocturnas a exibirem um amor-inverso-da-natureza. Homem e homem. Mulher e mulher. Provocam um odor-estranho-ao-verso-da-natureza.
À entrada da porta por onde passam para vaguearem pelo seu mundo, agitam beijos e mãos e tudo o resto fica vazio. O mundo não está perdido.
Tudo o resto é lucidez perdida para o mau estacionamento do amor.
segunda-feira, julho 23, 2007
sábado, julho 21, 2007
sexta-feira, julho 20, 2007
...
Caminho tantas vezes na mesma rua, que até a podia fazer de olhos fechados: conheço cada pedra do caminho, o ritmo da passadeira, a sua hora de ponta, quando a luz deambula de verde e vermelho. Decorei os sapatos de cada um que por lá passa.
Ontem, pareceu-me ter visto, justamente o Al Berto. E segui-o. Aquele homem, de costas, era o Al Berto. E deixei-me levar pela mentira. O Al Berto morreu. E, se fosse vivo, era pouco provável que serpenteasse pelo Campo 24 de Agosto. De qualquer modo, como se eu disser mar em voz alta, julgo que ele entra pela janela, decidi render-me à (des)ilusão.
O olhar era o do Al Berto, perdido no ar, o rosto penetrante, ao andar parecia que levantava voo. E o cabelo, esse, era tão despenteado, que me pareceu, que passou a noite a pensar, a pensar, a pensar. Acendeu um cigarro.
Só rasguei o pensamento, quando, o homem, encontrou os meus olhos, e, neles não lhe descobri nenhum verso.
Ontem, pareceu-me ter visto, justamente o Al Berto. E segui-o. Aquele homem, de costas, era o Al Berto. E deixei-me levar pela mentira. O Al Berto morreu. E, se fosse vivo, era pouco provável que serpenteasse pelo Campo 24 de Agosto. De qualquer modo, como se eu disser mar em voz alta, julgo que ele entra pela janela, decidi render-me à (des)ilusão.
O olhar era o do Al Berto, perdido no ar, o rosto penetrante, ao andar parecia que levantava voo. E o cabelo, esse, era tão despenteado, que me pareceu, que passou a noite a pensar, a pensar, a pensar. Acendeu um cigarro.
Só rasguei o pensamento, quando, o homem, encontrou os meus olhos, e, neles não lhe descobri nenhum verso.
quinta-feira, julho 19, 2007
Al Berto, "(O) Lunário"
«Sempre levei na bagagem muito pouca coisa» pensou Beno, esticando o pescoço para a frente de modo a seguir o voo sinuoso duma gaivota no enquadramento da janela.«Uma ou duas camisas, t-shirts, dois ou três pares de calças e uma infinidade de minúsculos objectos que nunca me serviam para nada. Viajei com o absolutamento necessário e ao chegar a qualquer lugar comprava o que me fazia falta, depois, assim que prosseguia caminho, deitava tudo fora. Sempre achei que o que me era útil e necessário num sítio deixaria de ser noutro...» Beno estava sentado perto da janela e olhava o mar atraves dos vidros foscos pela poeira.Desde o seu regresso, tinha o hábito de se sentar ali, como uma obsessão, ao escurecer. Imóvel, o olhar perdido por cima do mar, deixava a memória fiar os acontecimentos, laboriosamente, com o repetido movimento das marés. Não tinha mais nada que fazer. A gaivota saíra do enquadramento da janela e Beno, estendendo as pernas, voltou à posição inicial, encolhendo-se na cadeira. Suspirou acendeu um cigarro ao mesmo tempo que retomava a teia do pensamento: «Nesse tempo, não tinha casa de amigos ou em quartos de pensão, por onde ia largando um rasto de tralha que sempre transportava comigo. Tralha inútil ... mas nunca me rodeei verdadeiramente de objectos, nunca possuí coisas, e com o rodar dos anos acabei por desfazer-me dos poucos que guardei e em mim evocavam encontros felizes, fortuitas cumplicidades, ou simples travessias da noite das cidades.» Uma brisa noctuna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios.
sábado, julho 14, 2007
na tarde a caminho da noite
apetecia-lhe fumar um último cigarro da vida. ela foi-se embora devagar, numa morte lenta, onde só lhe sobrava o fumo de uma realidade inconstante, e o cigarro não lhe saía da cabeça. havia remédio para tudo, menos para o fumo de uma realidade inconstante - disse-lhe um dia a avó, ou o avô, não se lembra. soprou-lhe ao ouvido um desejo, daqueles de hora de ponta, de se colocar em bicos de pés e espreitar o doce sabor de uma tarde que se despede do dia de ontem, e da proximidade de uma noite que se confunde com os dias claros. a rua, àquela rua, percorria-lhe o mapa do corpo em traços quentes e delinquentes. apetecia-lhe voltar, àquela rua, morena de suja, delgada de corpo, e onde o chão pousa no céu. na tarde a caminho da noite. o castelo foi a cura.
terça-feira, julho 10, 2007
Her skin is white cloth,and she's all sewn apart and she has many colored pins sticking out of her heart.
She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie who was originally from France.
But she knows she has a curse on her, a curse she cannot win. For if someone gets too close to her,
the pins stick farther in.
segunda-feira, julho 09, 2007
Quando ela já estava morta, estendeu-a por terra, no meio dos caroços das ameixas, e arrancou-lhe o vestido; a onda de perfume transformou-se numa maré que o submergiu. Encostou o rosto à pele dela e passeou as narinas dilatadas desde o ventre ao peito e ao pescoço, sobre o rosto e os cabelos, regressou ao ventre, desceu até ao sexo, às coxas, ao longo das pernas brancas. Farejou-a integralmente da cabeça às pontas dos pés, e recolheu os últimos traços do perfume no queixo, no umbigo e nas covas dos braços cruzados da jovem.
Depois de a cheirar a ponto de a fazer perder a frescura, permaneceu acocorado junto ao corpo, a fim de se recompor, na medida em que estava a transbordar dela. Nada queria desperdiçar deste perfume. Precisava antes do mais de vedar todas as membranas. Em seguida, levantou-se e soprou a chama da vela.
O PERFUME, PatrickSuskind
(daqui)
Depois de a cheirar a ponto de a fazer perder a frescura, permaneceu acocorado junto ao corpo, a fim de se recompor, na medida em que estava a transbordar dela. Nada queria desperdiçar deste perfume. Precisava antes do mais de vedar todas as membranas. Em seguida, levantou-se e soprou a chama da vela.
O PERFUME, PatrickSuskind
(daqui)
quarta-feira, julho 04, 2007
Sentada na torre do meu quarto, de phones ligados à Antena 3 consegui "assistir" ao concerto dos Arcade Fire. E ainda falam dos malefícios da internet.
O Movimento Informação é Liberdade é boa ideia. As coisas andam por ai a marinar sem empurrões ou abanadelas. É preciso sacodir a poeira. Apenas um pedido: sem elitismos.
terça-feira, julho 03, 2007
este país dava um filme
Eu não li, mas segundo um dos meus captains lá do trabalho, que leu na Lusa, hoje cinco feridos - resultado de um acidente de viação - estiveram a secar, à espera, na estrada, para serem transportados para uma unidade hospitalar. Tudo, porque as corporações queriam ambas levar os desgraçados para o hospital. Uma hora de discussão e depois, o assunto ficou resolvido. Vá lá que as vítimas não estavam a morrer. Surreal.
sábado, junho 30, 2007
O pai e a mãe completam hoje 28 anos juntos. Jovens, portanto!
Parabéns, uma vez mais e sempre, todos os dias...
O amor é infinito, O amor é escorregar em anos de sol e chuva, é Estar e Ser, O amor é corpo e alma ao mesmo tempo, O amor é a vida de todos os dias, o ar de toda a respiração, É caminhar no alto das montanhas sem ter medo de vertigens, É gastar palavras e gestos, é sofrer e rir com vontade, O amor é a pele que vestimos e o chão, onde caminhamos. Parabéns pai e mãe pelos vinte e oito anos de casamento. Por mais uma vez trocarem as alianças. Por provarem ao mundo que amar é possível, que o Amor existe. Obrigada pela minha vida e pela do Gonçalo. Aos melhores pais do mundo. Aos pais que eu amo. Aos meus pais.
[fui buscar lá atrás. vocês percebem]
Parabéns, uma vez mais e sempre, todos os dias...
O amor é infinito, O amor é escorregar em anos de sol e chuva, é Estar e Ser, O amor é corpo e alma ao mesmo tempo, O amor é a vida de todos os dias, o ar de toda a respiração, É caminhar no alto das montanhas sem ter medo de vertigens, É gastar palavras e gestos, é sofrer e rir com vontade, O amor é a pele que vestimos e o chão, onde caminhamos. Parabéns pai e mãe pelos vinte e oito anos de casamento. Por mais uma vez trocarem as alianças. Por provarem ao mundo que amar é possível, que o Amor existe. Obrigada pela minha vida e pela do Gonçalo. Aos melhores pais do mundo. Aos pais que eu amo. Aos meus pais.
[fui buscar lá atrás. vocês percebem]
sexta-feira, junho 29, 2007
o velho desenha-se, em todas as minhas noites, quando lá passo, no muro alto e sujo do beco da estrada. lá se encosta no cimento frio - imagino - sem sombra a acompanhar-lhe. na última noite, descobri-lhe o cão. apareceram os dois, concentrados na luz cega do carro, a passar pela vida, como que intrometidos - a pedir licença.
quinta-feira, junho 28, 2007
domingo, junho 24, 2007
junho das avessas
o céu está a bombardear o mundo do lado de fora das persianas. a adulterar um junho às avessas. gotas magoam quando caem. sem que folha, pedra, ou animal riposte a antipatia do mês, da estação. o céu está cinzento-quase-branco, e reflecte num paralelismo absurdo e desnecessário, um cinzento-quase-branco para a superfície da terra. das almas.
sábado, junho 23, 2007
saint john
sexta-feira, junho 22, 2007
certeiro
multiplicam-se os sinais de que já se começa a governar mais com os olhos nas eleições de 2009 do que naquilo que se deve fazer
José Manuel Fernandes, in Público, 22 de Junho de 2007
José Manuel Fernandes, in Público, 22 de Junho de 2007
quarta-feira, junho 13, 2007
Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram (…) Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.
Fernando Pessoa
[este homem muitas bofetadas me dá]
Fernando Pessoa
[este homem muitas bofetadas me dá]
segunda-feira, junho 11, 2007
...é também porque o homem receia todas as novidades que não se sente à altura de afrontar e cujo desfecho é imprevisível. Só aquele que espera tudo, que nada exclui, nem mesmo o enigma, viverá, como fazendo parte da vida, as relações de homem para homem, indo ao mesmo tempo ao limite da sua própria vida. Se imaginarmos a vida do indivíduo como um quarto maior ou menor, torna-se evidente que quase todos aprendem apenas a conhecer um canto desse quarto, aquele lugar em frente da janela, aquele raio em que se movem, e onde encontram uma relativa segurança...
Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
domingo, junho 10, 2007

[Lisboa, 2006]
Dentro de um mundo, muitos outros mundos. A fotografia é brisa no meu caminho. Aqui. A melhorar.
quinta-feira, junho 07, 2007
sexta-feira, junho 01, 2007
A exposição do fotojornalista Paulo Pimenta - mais conhecido por dennis, o pimentinha [:)] - está em video do youtube no seu weblog...aqui. muito FIXE.
sábado, maio 26, 2007
a piada
O funcionário da DREN foi suspenso pela «piada» que disse sobre o nosso primeiro...
minha gente, cuidado com os ajuntamentos...
minha gente, cuidado com os ajuntamentos...
terça-feira, maio 22, 2007
e ao anoitecer
E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão deixas viver sobre a pele uma criança de lume e na fria lava da noite ensinas ao corpo a paciência o amor o abandono das palavras o silêncio e a difícil arte da melancolia
Al Berto
[e ao anoitecer esfrio-me com os sonhos que batem a calçada da mente, que arruínam o presente, que despertam revoluções]
Al Berto
[e ao anoitecer esfrio-me com os sonhos que batem a calçada da mente, que arruínam o presente, que despertam revoluções]
sexta-feira, maio 18, 2007
meme
- Laços?- Sim, laços - disse a raposa - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
- Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que estou preso a ela...
- É bem possível - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra...
[O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry]
"Um meme é um «gene cultural» que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou aos teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma."
Desafio:
- primeiro-esquerdo
- a minha varanda
- crocodilo
- dilúculo
- jornada
quarta-feira, maio 09, 2007
Depois de um dia de trabalho resta afundar no sofá...e as questões familiares. Ou a questão familiar. E essa tem nome - o mano.
Mana estendida no sofá pronta para as sua séries favoritas. Mano aproxima-se. Mana desconfia (o que será desta vez).
- Mana, como nascem as orelhas, cabelo, olhos, mãos, cara, tudo, tudo...
[ok...ele tem 5 anos...ele não vai fazer a pergunta. Mana decide ignorar mano]
- Mana como nascem os meninos, eu e tu?
[fixe..o mano tem 5 anos e fez a pergunta, e eu tinha-me comprometido a mim mesma contar a verdade quando o mano decide-se perguntar...mas tãaaooo cedo]
- oh çalinho, amanhã a mana responde, agora está a dar a série preferida da mana...
[o problema ficou assim adiado...se alguém tiver sugestões de histórias de como contar, partilhem, a gerência agradecia...]
Mana estendida no sofá pronta para as sua séries favoritas. Mano aproxima-se. Mana desconfia (o que será desta vez).
- Mana, como nascem as orelhas, cabelo, olhos, mãos, cara, tudo, tudo...
[ok...ele tem 5 anos...ele não vai fazer a pergunta. Mana decide ignorar mano]
- Mana como nascem os meninos, eu e tu?
[fixe..o mano tem 5 anos e fez a pergunta, e eu tinha-me comprometido a mim mesma contar a verdade quando o mano decide-se perguntar...mas tãaaooo cedo]
- oh çalinho, amanhã a mana responde, agora está a dar a série preferida da mana...
[o problema ficou assim adiado...se alguém tiver sugestões de histórias de como contar, partilhem, a gerência agradecia...]
Maddie missing...
Não é altura para se falar em falta de responsabilidade. Talvez nem seja o caso. Pais portugueses são, invariavelmente, diferentes de pais ingleses, ou outros nórdicos - basta rumar a Norte de Portugal e o figurino muda de contornos. E coisas diferentes não se comparam. Do mesmo modo, a actuação da polícia britânica, em casos semelhantes, em Inglaterra, que sacia os jornalistas com todo o tipo de informações, não pode ser comparada com a da portuguesa. E os ingleses têm que meter isto na cabeça. Lá é diferente de cá. Se há o verso, há, consequentemente, o inverso. Podem resmungar contra, tudo bem! Agora:
Resmungar que a (pouca) informação é libertada em português, isso é outra coisa. Apetece soltar um «duuuhhh»...se fosse ao contrário, pergunto eu - jornalistas portugueses na Great Britain, a autoridade inglesa iria traduzir!?
A resposta é transparente como a água.
Resmungar que a (pouca) informação é libertada em português, isso é outra coisa. Apetece soltar um «duuuhhh»...se fosse ao contrário, pergunto eu - jornalistas portugueses na Great Britain, a autoridade inglesa iria traduzir!?
A resposta é transparente como a água.
quarta-feira, maio 02, 2007
terça-feira, maio 01, 2007
Cântico Negro, de José Régio
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí... Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!
[estou feliz. muito feliz.]
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí... Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!
[estou feliz. muito feliz.]
segunda-feira, abril 30, 2007
domingo, abril 29, 2007
Le Fabuleux Destin d'Joana...
Foi um tiro em Paris. Por Paris e por ela. Ver Paris é sair da aldeia. E se não fosse por ela, eu perdia-me. Tanta luz, tanta gente, tanta vida...daquela que quase foge da memória. Viver em cidades desertas, sobretudo à noite, faz esquecer o expoente da loucura que outras cidades pintam. Não fosse o meu estômago adulterar-me, o tiro podia ser mais certeiro, mas foi dos mais felizes dias deste ano para mim. Paris é lindo. Mas não basta dizer isto, é preciso descrever, porque a cidade merece mais, do que uma frase vazia. O RER - comboio - corre não devagar, não de força, e a Torre Eiffel, espreita com um prateado cintilante a sair-lhe do vestido. O senhor e o miúdo entram no RER com as concertinas, e tornam Paris mais Paris. Não é cliché, é verdade. Há bicicletas e boinas. Há aquela música parisiense de fundo. Há o sorriso do miúdo quando se bota para o copo os cinquenta cêntimos. Há gente bonita, a exibir-se num Paris sem modéstia. Numa correria só. Chega a parecer uma orquestra sintonizada. O Sena atravessa como uma faca a cidade. Há beijos que o percorrem numa Primavera que parece um Verão quente. Há gente nas ruas. Nas pontes. Na ponte das Artes. Há sorrisos bonitos. Amigos unidos. Conhecidos e desconhecidos. Há Paris e há o Sena. Também há o Louvre. O famoso. A monalisa ou a gioconda espeta um olhar de soslaio aos visitantes. Tão desejada esta mulher e das obras mais pequenas que o Louvre oferece. Existem também os olhos aguçados do Notre Dame, e espectáculos na rua. E as pessoas na rua. É a festa da vida. Em Paris. Sem esquecer o exuberante Moulin Rouge. E o doce café da Amélie Poulain. Em Momatre. Sobe-se a colina, e descobre-se as magníficas vistas da cidade. Vê-se as setas amarelas do caminho de Santiago que a mim muito me diz. E sobra o quarto, onde passei mais tempo do que o devido, porque o estômago adulterou-me. Mas, sobretudo, sobra a amizade pela amiga europeia, do mundo. Por ter percorrido autocarros e comboios comigo. No Porto e em Paris.
quarta-feira, abril 25, 2007
já está anotado no livro das recordações...
Mano para a mãe:
- A sala está bonita, mas faltam umas coisas na jarra!
Mãe para o mano:
- Ah!?
Mano:
- Fogo, parece que estou a falar brasileiro...
:)
- A sala está bonita, mas faltam umas coisas na jarra!
Mãe para o mano:
- Ah!?
Mano:
- Fogo, parece que estou a falar brasileiro...
:)
domingo, abril 22, 2007
...

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.
Em torno era Primavera, o sonho de um poeta.
Tão linda esta estória do simples e visionário Jorge Amado. A cada Primavera a decalco na cabeça, na memória, na estante, em todo o sítio...não pode ser esquecida, apenas lembrada. E, nesta Primavera, a estória quase escorregava nas artimanhas dos dias. Numa folga, a memória abriu a janela na minha cabeça do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá. Porque, O mundo só vai prestar, Para nele se viver, No dia em que a gente ver, Um maltês casar Com uma alegre andorinha, Saindo os dois a voar, O noivo e sua noivinha, Dom Gato e Dona Andorinha.
Quando acabar 'A Floresta' de Sophia, vou partilhar o Malhado e a Sinhá com o mano.
quinta-feira, abril 19, 2007
sábado, abril 14, 2007
quarta-feira, abril 11, 2007
terça-feira, abril 10, 2007
Subscrever:
Mensagens (Atom)






