andar de autocarro é maravilhoso. vê-se a cultura na sua forma humana. a poeira de palavras e conversas atravessam todos os ouvidos. mesmo os mais distraídos.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.
quinta-feira, março 29, 2012
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
um vislumbre.
um vislumbre.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
sexta-feira, janeiro 20, 2012
terça-feira, setembro 20, 2011
hoje vi uma menina de saia rodada, camisola do ano passado, de chinelas coloridas e unhas já gastas do dia, tropeçar num buraco da rua. a mãe chamou-lhe atenção. não ao buraco. à menina. presumo que o buraco não seria tão grande quanto aquele em que todos estamos agora metidos - por isso, o dói-dói não foi muito.
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?
sábado, agosto 27, 2011
está cientificamente provado que com a perda de um dos cinco sentidos, os restantes (sentidos) intensificam-se na sua própria função.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.
sexta-feira, julho 22, 2011
há um cemitério de palavras dentro do corpo de M.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.
sexta-feira, abril 29, 2011
quinta-feira, abril 21, 2011
sonhando-sempre-com o do lado.
a vida sente-se do vidro da janela para fora.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.
quarta-feira, janeiro 12, 2011
o mundo das gaivotas está em estado de alerta. vem ai uma gaivota que grita mais do que as outras. que ri mais do que as outras. que come mais do que as outras. que chora mais do que as outras. que sorri mais do que as outras. que ama mais do que as outras. que sofre mais que as outras. que teme mais do que as outras. que corre mais riscos. que é mais feliz. que é mais bonita. e mais feia. e mais louca. e mais simpática. e mais bela. e mais inteligente. e melhor. mais. e mais. mais do que as outras. uma única gaivota é mais em tudo do que todo o mundo das gaivotas.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.
domingo, dezembro 26, 2010
apetece-me fugir de mim para mim.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.
quinta-feira, novembro 11, 2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
ali
ficava ali o tempo todo. se o mesmo tempo me permitisse.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.
quinta-feira, agosto 19, 2010
sábado, junho 19, 2010
a passarola voadora morreu
José Saramago, prémio nobel da literatura em 1998, morreu.
Poeta e escritor português.
A morte do escritor apanhou-me de surpresa. Toda a morte apanha de surpresa, ainda que seja inevitável. Não existe imortalidade a não ser para a obra que fica da pessoa, neste caso de Saramago.
José Saramago parafraseou Ricardo Reis quando este escreveu: "Nada fica de nada". Para o escritor português "nem ficam as obras".
Mas ficam! Quanto mais não seja na prateleira lá de casa. Na memória. No facto de ter feito a minha vida de estudante à volta de testes e exames que incluiam as ideias e palavras de Saramago. E isso fica.
Não tenho feito grandes coisas nesta vida, mas pelo menos consegui uma: assistir a uma palestra formidável de José Saramago aqui há 6 anos, em Braga.
Eu quero lá saber das divergências com Deus, o País, ou o comunismo. Sei que gostava das palavras, das estórias, e esse legado fica para sempre. Para lermos aos filhos, netos e a quem mais queira aprender o mágico mundo de juntar letras a fim de dar ao mundo uma mensagem...sobre a blimunda sete-luas e o bastasar sete-sóis. Não é lindo?
Poeta e escritor português.
A morte do escritor apanhou-me de surpresa. Toda a morte apanha de surpresa, ainda que seja inevitável. Não existe imortalidade a não ser para a obra que fica da pessoa, neste caso de Saramago.
José Saramago parafraseou Ricardo Reis quando este escreveu: "Nada fica de nada". Para o escritor português "nem ficam as obras".
Mas ficam! Quanto mais não seja na prateleira lá de casa. Na memória. No facto de ter feito a minha vida de estudante à volta de testes e exames que incluiam as ideias e palavras de Saramago. E isso fica.
Não tenho feito grandes coisas nesta vida, mas pelo menos consegui uma: assistir a uma palestra formidável de José Saramago aqui há 6 anos, em Braga.
Eu quero lá saber das divergências com Deus, o País, ou o comunismo. Sei que gostava das palavras, das estórias, e esse legado fica para sempre. Para lermos aos filhos, netos e a quem mais queira aprender o mágico mundo de juntar letras a fim de dar ao mundo uma mensagem...sobre a blimunda sete-luas e o bastasar sete-sóis. Não é lindo?
quinta-feira, maio 20, 2010
por vezes o sol que varre as estradas é injusto.
porque parece chuva, para alguns.
uma chuva intensa, amarga, que queima as lágrimas
que querem sair. para limpar - dizem. para desabafar - relatam. para expelir - confirmam outros.
o sino não pára de tocar.
toca sem parar.
toca. toca. toca.
o padre fala para ouvidos moucos. porque a dor é surda.
a dor é um casaco impermeável.
é fechar as portas do nosso mundo ao mundo.
os abraços e beijos são vazios.
corridos a pó, a vento.
um choro com pauta
arranca um coro de soluços.
acordes num anfiteatro branco,
de mármore.
um anfiteatro que nos espera. a todos. sem excepção.
o amor enterra-se, mas não morre.
cai terra, caem flores.
mas o amor...
como está escrito na bíblia...
esse...
tudo pode, tudo crê, tudo sofre, tudo espera.
porque parece chuva, para alguns.
uma chuva intensa, amarga, que queima as lágrimas
que querem sair. para limpar - dizem. para desabafar - relatam. para expelir - confirmam outros.
o sino não pára de tocar.
toca sem parar.
toca. toca. toca.
o padre fala para ouvidos moucos. porque a dor é surda.
a dor é um casaco impermeável.
é fechar as portas do nosso mundo ao mundo.
os abraços e beijos são vazios.
corridos a pó, a vento.
um choro com pauta
arranca um coro de soluços.
acordes num anfiteatro branco,
de mármore.
um anfiteatro que nos espera. a todos. sem excepção.
o amor enterra-se, mas não morre.
cai terra, caem flores.
mas o amor...
como está escrito na bíblia...
esse...
tudo pode, tudo crê, tudo sofre, tudo espera.
segunda-feira, abril 26, 2010
Trechos de uma alma desalmada.
ela olhava-o de soslaio. acomodava a cabeça no colo e pintava-lhe o céu no rosto.
bebia-lhe da frescura de um olhar deserto.
borrava-lhe a cara de beijos tão soltos quanto o vento. e a isto chamava amor.
porque o amor é o que o Homem quiser.
bebia-lhe da frescura de um olhar deserto.
borrava-lhe a cara de beijos tão soltos quanto o vento. e a isto chamava amor.
porque o amor é o que o Homem quiser.
sábado, abril 24, 2010
terça-feira, abril 13, 2010
domingo, abril 11, 2010
aldeia com gente
o caminho não é estreito. é muito estreito.
curva atrás de curva. não passam dois carros. mas faz-se por isso.
entalados entre duas montanhas, subimos a estrada até à Ermida de Ponte da Barca.
o carro só consegue chegar em primeira.
passa verde. passa pedra. passa vento. e passa muito sol.
chegámos à Ermida. acima de nós o céu. abaixo o mundo.
em frente aos olhos uma aldeia com gente: a Ermida de Ponte da Barca.
um homem com chapéu, um olhar gasto e feliz apresenta-nos as casinhas em pedra, o museu da aldeia, o único café, a Igreja dos seis santos a senhora mais velha da Ermida e a criança mais nova - das que restam.
Apresenta. Não se queixa.
Passa uma vaca e ouve-se o mugir de umas tantas outras. Cheira a merda.
"Cuidado". Não vá, às vezes, pisar. "Que se foda", dizem.
Quando a natureza é maior que o Homem. Que se foda mesmo.
Gente genuína. Gente com aldeia. Aldeia com gente.
A ver, a partir do dia 13 Abril, em www.localvisao.tv, no distrito de Viana. [entre muitas outras coisas]
curva atrás de curva. não passam dois carros. mas faz-se por isso.
entalados entre duas montanhas, subimos a estrada até à Ermida de Ponte da Barca.
o carro só consegue chegar em primeira.
passa verde. passa pedra. passa vento. e passa muito sol.
chegámos à Ermida. acima de nós o céu. abaixo o mundo.
em frente aos olhos uma aldeia com gente: a Ermida de Ponte da Barca.
um homem com chapéu, um olhar gasto e feliz apresenta-nos as casinhas em pedra, o museu da aldeia, o único café, a Igreja dos seis santos a senhora mais velha da Ermida e a criança mais nova - das que restam.
Apresenta. Não se queixa.
Passa uma vaca e ouve-se o mugir de umas tantas outras. Cheira a merda.
"Cuidado". Não vá, às vezes, pisar. "Que se foda", dizem.
Quando a natureza é maior que o Homem. Que se foda mesmo.
Gente genuína. Gente com aldeia. Aldeia com gente.
A ver, a partir do dia 13 Abril, em www.localvisao.tv, no distrito de Viana. [entre muitas outras coisas]
sexta-feira, abril 02, 2010
a playlist da joana
"If God has a master plan. He only understands. I hope is from your eyes, He is seeing through."
quinta-feira, março 25, 2010
As mãos de Júlia Ramalho II
Baptista-Bastos escreveu o título número um. Prosseguia em lua-de-mel por este Portugal fora quando conheceu Júlia Ramalho - e toca a registar as mãos de Júlia na imprensa portuguesa. Eu decidi escrever o II (que me perdoe o outro jornalista).
Para lá de Barcelos, existe um sítio que se chama Galegos S. Martinho. E aqui existe uma senhora com mãos de condão. É com pessoas como Júlia Ramalho que me entusiasmo na profissão. São estas que valem a pena e que conseguem arrancar um sorriso nos dias a fio que se leva com alguma ingratidão.
Eu gosto do que faço porque conheço pessoas especiais. Pessoas que não ouviria falar se não fosse pelas reportagens locais. Nestas pessoas, não há azáfama, nem correria, nem bocejos de preguiça. Existe uma alma. Um empenho.
Júlia Ramalho trabalha figuras do imaginário, de Barcelos, do que as pessoas lhe encomendam. A avó, Rosa Ramalho, já tinha jeito para o artesanato na época do antigo regime - não teve oportunidade de mostrar essa graça. A neta nasceu com o dom e soube-o aplicar. Em casa tem uma oficina onde estraga as próprias mãos a dar mimos ao barro; tem também uma espécie de museu onde guarda as peças mais bonitas e com muita estória. Daquelas que são sussurradas no ouvido - nunca diante de um microfone. Portanto, se quiserem ouvir estas estórias, preencher um pouco mais de alguns dos dias vazios, Galegos S. Martinho, onde está Júlia Ramalho (devidamente sinalizada) é uma personagem e tanto, com a vantagem de ser verdadeira...ainda que pareça saída de um livro.
Para lá de Barcelos, existe um sítio que se chama Galegos S. Martinho. E aqui existe uma senhora com mãos de condão. É com pessoas como Júlia Ramalho que me entusiasmo na profissão. São estas que valem a pena e que conseguem arrancar um sorriso nos dias a fio que se leva com alguma ingratidão.
Eu gosto do que faço porque conheço pessoas especiais. Pessoas que não ouviria falar se não fosse pelas reportagens locais. Nestas pessoas, não há azáfama, nem correria, nem bocejos de preguiça. Existe uma alma. Um empenho.
Júlia Ramalho trabalha figuras do imaginário, de Barcelos, do que as pessoas lhe encomendam. A avó, Rosa Ramalho, já tinha jeito para o artesanato na época do antigo regime - não teve oportunidade de mostrar essa graça. A neta nasceu com o dom e soube-o aplicar. Em casa tem uma oficina onde estraga as próprias mãos a dar mimos ao barro; tem também uma espécie de museu onde guarda as peças mais bonitas e com muita estória. Daquelas que são sussurradas no ouvido - nunca diante de um microfone. Portanto, se quiserem ouvir estas estórias, preencher um pouco mais de alguns dos dias vazios, Galegos S. Martinho, onde está Júlia Ramalho (devidamente sinalizada) é uma personagem e tanto, com a vantagem de ser verdadeira...ainda que pareça saída de um livro.
domingo, março 14, 2010
Recado aos Amigos Distantes
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles, in Poemas (1951)
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles, in Poemas (1951)
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
sábado, janeiro 23, 2010
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Lhasa voa pelos céus
Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia
Me acerco al agua
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo
Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma
Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia
Me acerco al fuego
Que todo lo quema
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo
Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo
Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma
domingo, janeiro 03, 2010
Primeira lição do ano [e última do ano anterior]
Mais vale um que saiba mandar, do que cem a trabalhar.
terça-feira, dezembro 29, 2009
segunda-feira, dezembro 07, 2009
terça-feira, novembro 24, 2009
Localvisão TV
Não tenho muito jeito para promover ou fazer publicidade ao que quer que seja. Mas tenho (bastante) jeito para partilhar o que acho especial e distinto.
A partir de agora estou à distância de um clic:-)
www.localvisao.tv
Basta entrar no site, clicar no distrito pretendido e na capital de distrito.
Eu estou nos distritos do Porto, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. Mais Porto e Aveiro.
Também estamos no sapo vídeos através da busca "localvisão" e respectiva cidade/concelho.
Estamos a começar, e portanto, temos todos os constrangimentos de quem começa. Mas, como toda a gente que inicia algo, estamos cheios de energia, ideias, vontade e ousadia.
Eu já fiz a minha parte e vocês? ;)
A partir de agora estou à distância de um clic:-)
www.localvisao.tv
Basta entrar no site, clicar no distrito pretendido e na capital de distrito.
Eu estou nos distritos do Porto, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. Mais Porto e Aveiro.
Também estamos no sapo vídeos através da busca "localvisão" e respectiva cidade/concelho.
Estamos a começar, e portanto, temos todos os constrangimentos de quem começa. Mas, como toda a gente que inicia algo, estamos cheios de energia, ideias, vontade e ousadia.
Eu já fiz a minha parte e vocês? ;)
segunda-feira, outubro 26, 2009
à medida que o caixão passa, o sol pousa no asfalto.
ela não vê o corpo nu. mas o sol faz transparecer a madeira.
e a música dos sinos é muda para quase todos os ouvidos.
16h16.
há um sapateado na procissão solitária do cemitério.
há uma vida a tombar,
há uma sombra melancólica que ninguém faz caso.
e há um ranger. devem ser os anjos a abrir as portas.
17h17.
ela não vê o corpo nu. mas o sol faz transparecer a madeira.
e a música dos sinos é muda para quase todos os ouvidos.
16h16.
há um sapateado na procissão solitária do cemitério.
há uma vida a tombar,
há uma sombra melancólica que ninguém faz caso.
e há um ranger. devem ser os anjos a abrir as portas.
17h17.
terça-feira, outubro 06, 2009
segunda-feira, setembro 21, 2009
au revoir simone
às vezes somos como as avestruzes, enfiamos a cabeça na rotina do dia-a-dia, e esquecemos tanta coisa maravilhosa que vive em paralelismo constante com essa rotina.
segunda-feira, setembro 14, 2009
Mat Hall é o piloto australiano que voou no Red Bull Air Race e aterrou no terceiro lugar da corrida. Esteve há pouco [22h15] em directo para o canal 9 da televisão do seu país, a partir dos estúdios da SIC/Porto.
Veio desde o hotel, onde está hospedado, sozinho, sem aquela coisa dos assessores, ao contrário da maioria dos convidados do nosso portugalex. Quando a emissão foi para o ar, a partir da primeira edição da manhã na Austrália, os jornalistas animados, mantiveram um diálogo informal e descontraído com o piloto - com gargalhadas à mistura. A entrevista acabou, e ainda pudemos ouvir a emissão australiana a quebrar para intervalo...com música [fixe]...ao contrário do que acontece no nosso portugalex, onde as edições da manhã, comparativamente, são mais apagadas e ásperas.
E somos um povo latino!
Veio desde o hotel, onde está hospedado, sozinho, sem aquela coisa dos assessores, ao contrário da maioria dos convidados do nosso portugalex. Quando a emissão foi para o ar, a partir da primeira edição da manhã na Austrália, os jornalistas animados, mantiveram um diálogo informal e descontraído com o piloto - com gargalhadas à mistura. A entrevista acabou, e ainda pudemos ouvir a emissão australiana a quebrar para intervalo...com música [fixe]...ao contrário do que acontece no nosso portugalex, onde as edições da manhã, comparativamente, são mais apagadas e ásperas.
E somos um povo latino!
Na escola (em Rio Tinto) do meu irmão existem dois lavatórios para mais de cem crianças (estimativa generosa - são muitas muitas mais). Ou seja, o plano de contingência contra a Gripe A, naquela escola do ensino básico, é pedir aos pais que comprem toalhetes para que os miúdos desinfectem as mãos...em tempo útil...porque 15 minutos de intervalo passam rápido para que mais de cem alunos lavem as mãos em DOIS lavatórios, antes de emborcarem o lanche.
Mas é como diz o cartaz do Valentim...
"Em Gondomar, os gondomarenses é que sabem".
Mas é como diz o cartaz do Valentim...
"Em Gondomar, os gondomarenses é que sabem".
segunda-feira, setembro 07, 2009
quinta-feira, setembro 03, 2009
muitas vezes olhamos o relógio e vemos os ponteiros passarem. sem alma. esquecemo-nos que com eles - os ponteiros - passa a vida, e tudo o que ela é para nós: o que amamos, o que amamos menos, o que detestamos, o prazer, os desgostos, as pessoas, o lazer e o trabalho.
e no segundo em que admiramos o ponteiro do relógio, apercebemo-nos que a vida passa realmente rápido, a uma velocidade veloz, tipo TGV.
e depois como consequência, as perguntas fazem nock-nock: como aproveitamos o tempo? com quem? a fazer o quê? gastámos mais tempo a rir ou a lamentar? a esforçar ou a reclamar?
...
isto para dizer que ontem fiz uma coisa, da qual gosto muito, mas - há sempre um mas - faço pouco. fui visitar a poesia, onde ela vive ao seu mais alto rigor. onde sangra cada palavra, onde levita a cada autor, que através dela ganha presença.
...
a poesia sussurou-me a liberdade dos sonhos - possíveis - lembrou-me do que quero fazer, de tarefas que tinha arquivado na caixa dos dias que ficam na arrecadação.
...
e vou fazer. vou vestir e maquilhar a cores vivas o que a vida escreveu para mim, o que eu tinha esquecido na mesa do escritório, debaixo da papelada do dia-a-dia.
e no segundo em que admiramos o ponteiro do relógio, apercebemo-nos que a vida passa realmente rápido, a uma velocidade veloz, tipo TGV.
e depois como consequência, as perguntas fazem nock-nock: como aproveitamos o tempo? com quem? a fazer o quê? gastámos mais tempo a rir ou a lamentar? a esforçar ou a reclamar?
...
isto para dizer que ontem fiz uma coisa, da qual gosto muito, mas - há sempre um mas - faço pouco. fui visitar a poesia, onde ela vive ao seu mais alto rigor. onde sangra cada palavra, onde levita a cada autor, que através dela ganha presença.
...
a poesia sussurou-me a liberdade dos sonhos - possíveis - lembrou-me do que quero fazer, de tarefas que tinha arquivado na caixa dos dias que ficam na arrecadação.
...
e vou fazer. vou vestir e maquilhar a cores vivas o que a vida escreveu para mim, o que eu tinha esquecido na mesa do escritório, debaixo da papelada do dia-a-dia.
terça-feira, agosto 25, 2009
segunda-feira, agosto 24, 2009
sexta-feira, agosto 14, 2009
quarta-feira, agosto 12, 2009
- Avó, Avó!!
- Ahhh, quem és tu? Ai, que tenho mais uma neta e não sabia.
Olhos rasgados até ao passado que já vai longo, de uma vida que dura há 89 anos.
[Detesto estes números: 79, 89, 99. Dá a sensação de uma pausa, de um tempo maior ao real, até à próxima estação da idade.]
Cabelos brancos, unhas pretas de muito campo, pernas de muito andar até à igreja. Pele enrugada de muito criar. Mãos gastas de muito trabalhar.
Mente cansada da muita catequese que deu. De muitas estórias decoradas.
Mente sumida.
Transparente. Apagada.
O que não é mau de todo.
Pode alhear-se dos conflitos vazios entre filhos.
Do filho que não fala, mas grita.
Da morte precoce do marido que "sempre foi bom".
Aliás, este é dos poucos vértices atravesssados na sua vida, que não esquece.
Só um segundo. Ahhh onde vives? Ahh, pois, eu criei-te, peguei-te ao colo, e dava-te de comer.
Sim, Avó, é verdade.
Não é avó de sangue. Mas é avó de vida.
E, comove-me, o aceno pausado que me faz na despedida, a desejar-me "boa viagem".
A não saber, se esta será a última vez, que nos vemos.
É o mistério da vida: nunca sabemos.
- Ahhh, quem és tu? Ai, que tenho mais uma neta e não sabia.
Olhos rasgados até ao passado que já vai longo, de uma vida que dura há 89 anos.
[Detesto estes números: 79, 89, 99. Dá a sensação de uma pausa, de um tempo maior ao real, até à próxima estação da idade.]
Cabelos brancos, unhas pretas de muito campo, pernas de muito andar até à igreja. Pele enrugada de muito criar. Mãos gastas de muito trabalhar.
Mente cansada da muita catequese que deu. De muitas estórias decoradas.
Mente sumida.
Transparente. Apagada.
O que não é mau de todo.
Pode alhear-se dos conflitos vazios entre filhos.
Do filho que não fala, mas grita.
Da morte precoce do marido que "sempre foi bom".
Aliás, este é dos poucos vértices atravesssados na sua vida, que não esquece.
Só um segundo. Ahhh onde vives? Ahh, pois, eu criei-te, peguei-te ao colo, e dava-te de comer.
Sim, Avó, é verdade.
Não é avó de sangue. Mas é avó de vida.
E, comove-me, o aceno pausado que me faz na despedida, a desejar-me "boa viagem".
A não saber, se esta será a última vez, que nos vemos.
É o mistério da vida: nunca sabemos.
terça-feira, agosto 11, 2009
Faz-me espécie...
que pessoas com educação, formação, adultas, em lugares de requinte,
me digam que não entendem como há outras tantas pessoas que apostam em mestrados, em continuar a estudar, a ir para fora, enfim, a esforçar-se.
Eu resposto:
Porque há pessoas que quando olham o mundo e vêem sol, sabem que a outra metade é sombra, e vice-versa.
Porque há pessoas que gostam de viver. Que não se acomodam.
E, sobretudo, não precisam de saltos altos para crescer.
que pessoas com educação, formação, adultas, em lugares de requinte,
me digam que não entendem como há outras tantas pessoas que apostam em mestrados, em continuar a estudar, a ir para fora, enfim, a esforçar-se.
Eu resposto:
Porque há pessoas que quando olham o mundo e vêem sol, sabem que a outra metade é sombra, e vice-versa.
Porque há pessoas que gostam de viver. Que não se acomodam.
E, sobretudo, não precisam de saltos altos para crescer.
terça-feira, julho 28, 2009
quarta-feira, julho 22, 2009
uma manhã de neblina
faz aflição dentro do mar
que navega no peito,
antevê tempestade
gota
a
gota
o respiro da onda
vai em lume brando.
caminhando
contra a angústia
de uma saudade
resistente.
o barco morre
na linha do horizonte
onde
se espera, em esperança afiada,
um sol
vermelho, como o sangue
redondo, como o mundo.
faz aflição dentro do mar
que navega no peito,
antevê tempestade
gota
a
gota
o respiro da onda
vai em lume brando.
caminhando
contra a angústia
de uma saudade
resistente.
o barco morre
na linha do horizonte
onde
se espera, em esperança afiada,
um sol
vermelho, como o sangue
redondo, como o mundo.
domingo, julho 19, 2009
E hoje também é notícia... [:)]
o aniversário do mano, na infantil maratona dos 8.
Parabéns, principezinho!
Parabéns, principezinho!
sexta-feira, julho 10, 2009
sexta-feira, junho 12, 2009
Crónica de um Amor à venda
Saíste-me cara, tu. Fizeste a mala e deixaste-me o odor de todos os lençóis gastos em filosofias angustiantes de um prazer adiado.
Não restou uma unha tua roída, caída ao chão, abandonada.
Foste embora. E foi isso. Empacotaste roupa, objectos e memórias. Levaste contigo todas as sinfonias. Não tive herança. Apenas uma placa colada na janela da frente, onde se lê: “Amor à venda”.
Procurei-te em todos os recantos de uma casa cheia de nada. Foste embora e contigo foram todas as memórias. As lembranças sumiram-se dos metros quadrados da habitação recheada de vazio. Restou a ausência. A tua. E com ela convivo. Trato-a bem. Afinal, tu és ela - a ausência.
Acordo com o hálito podre da tua falta. Deito-me enroscado na tua saudade.
Permaneço viciado naquele canto do armário onde tu guardavas a tua mala. Busco alguma memória que não tenhas enfiado na bagagem do carro. E agora meteste-te ao destino. E criaste a metamorfose que me consome e vicia. Sou capaz de ausência e nada mais. Abraço-me a mim, que é o mesmo que abraçar o nada. Tu és nada. És a ausência. A ausência vestida de dor.
Ontem percebi por que razão as pessoas se suicidam: não é por falta de, mas por excesso de. Excesso de ausência. Excesso de ti. Devias ter empacotado tudo. A tua ausência também. Metias na mala escura a saudade e o teu hálito podre. Deixavas-me sossegado. Ias embora sem fazer o mínimo de barulho.
O problema é que fizeste ruído ao bater com a porta. Uma pancada forte. Ainda sinto no coração. Está trémulo. Resiste, é verdade. Mas continua em estado de choque porque nunca se bate com a porta, nunca se faz ruído ao sair de casa. Há sempre aquela remota hipótese de os vizinhos acordarem, haver um enfarte, sei lá.
Eu preocupo-me, sabes. Não gosto de enfartes. Mas gosto de memórias. Foste má. Lançaste-te ao destino. E agora ocorre-me que também me levaste contigo. Sim, só agora. Fui junto com as memórias. E isso dói-me. Não devia ter ido. Dói-me e comove-me. Dói-me porque me tratas sem pudor. E, depois, comove-me, porque me queres lembrar.
Pois, eu sou mais do tipo apagar. Erase. Pareço uma gaja, deves estar a pensar. 'Não aguenta uma pancadinha no coração e fica logo logo trémulo'. Já não me recordo quem disse, mas pelos vistos os homens podem apanhar certas e determinadas estirpes femininas e vice-versa.
Agora tenho o coração a arejar. Entra por lá ar. Por acaso nem me agrada. Mas foste tu quem me ensinou: arejar. E como sempre te fui obediente, cá estou arejar, sôfrego na tua ausência, fiel à tua saudade, agarrado à tua aparição.
Não restou uma unha tua roída, caída ao chão, abandonada.
Foste embora. E foi isso. Empacotaste roupa, objectos e memórias. Levaste contigo todas as sinfonias. Não tive herança. Apenas uma placa colada na janela da frente, onde se lê: “Amor à venda”.
Procurei-te em todos os recantos de uma casa cheia de nada. Foste embora e contigo foram todas as memórias. As lembranças sumiram-se dos metros quadrados da habitação recheada de vazio. Restou a ausência. A tua. E com ela convivo. Trato-a bem. Afinal, tu és ela - a ausência.
Acordo com o hálito podre da tua falta. Deito-me enroscado na tua saudade.
Permaneço viciado naquele canto do armário onde tu guardavas a tua mala. Busco alguma memória que não tenhas enfiado na bagagem do carro. E agora meteste-te ao destino. E criaste a metamorfose que me consome e vicia. Sou capaz de ausência e nada mais. Abraço-me a mim, que é o mesmo que abraçar o nada. Tu és nada. És a ausência. A ausência vestida de dor.
Ontem percebi por que razão as pessoas se suicidam: não é por falta de, mas por excesso de. Excesso de ausência. Excesso de ti. Devias ter empacotado tudo. A tua ausência também. Metias na mala escura a saudade e o teu hálito podre. Deixavas-me sossegado. Ias embora sem fazer o mínimo de barulho.
O problema é que fizeste ruído ao bater com a porta. Uma pancada forte. Ainda sinto no coração. Está trémulo. Resiste, é verdade. Mas continua em estado de choque porque nunca se bate com a porta, nunca se faz ruído ao sair de casa. Há sempre aquela remota hipótese de os vizinhos acordarem, haver um enfarte, sei lá.
Eu preocupo-me, sabes. Não gosto de enfartes. Mas gosto de memórias. Foste má. Lançaste-te ao destino. E agora ocorre-me que também me levaste contigo. Sim, só agora. Fui junto com as memórias. E isso dói-me. Não devia ter ido. Dói-me e comove-me. Dói-me porque me tratas sem pudor. E, depois, comove-me, porque me queres lembrar.
Pois, eu sou mais do tipo apagar. Erase. Pareço uma gaja, deves estar a pensar. 'Não aguenta uma pancadinha no coração e fica logo logo trémulo'. Já não me recordo quem disse, mas pelos vistos os homens podem apanhar certas e determinadas estirpes femininas e vice-versa.
Agora tenho o coração a arejar. Entra por lá ar. Por acaso nem me agrada. Mas foste tu quem me ensinou: arejar. E como sempre te fui obediente, cá estou arejar, sôfrego na tua ausência, fiel à tua saudade, agarrado à tua aparição.
quarta-feira, junho 03, 2009
Melros
A P. disse-me: "se vires melros de bico amarelo significa boa-nova".
E eu digo: Há males que vêm por bem. Ou assim quero crer [já que vi três melros de bico amarelo, e duas das 'novas' não foram boas].
E eu digo: Há males que vêm por bem. Ou assim quero crer [já que vi três melros de bico amarelo, e duas das 'novas' não foram boas].
segunda-feira, junho 01, 2009
sexta-feira, maio 29, 2009
Algo me escapa
A campanha portuguesa na corrida para um lugar no Parlamento Europeu, está um tanto ao quanto desfocada. Se é uma campanha para um lugar europeu, não é lógico que se fale de um imposto europeu, e de medidas europeias, e de assuntos europeus com ponte para os assuntos nacionais? Ou estarei enganada?
É que o definhar de discursos políticos por parte dos candidatos considerados 'maiores', não passam de guerrinhas de bastidores, e de um cuspir de bocas foleiras de quem está mais preocupado em afirmar a própria imagem, do que afirmar o País na Europa.
É que o definhar de discursos políticos por parte dos candidatos considerados 'maiores', não passam de guerrinhas de bastidores, e de um cuspir de bocas foleiras de quem está mais preocupado em afirmar a própria imagem, do que afirmar o País na Europa.
quarta-feira, maio 20, 2009
Cenário pidesco
Um professora de uma escola EB 2,3 de Espinho em vez de se cingir aos assuntos inerentes à sua disciplina, abordou temas da vida sexual, de uma forma, ao que parece pela gravação pública, imprópria para meninos entre os 12 e os 13 anos.
A "senhora doutora", como gosta de ser anunciada, incorre agora numa pena que pode ir à própria demissão.
Só que a estória não se fica por aqui: não é que a aluna que não gostou dos termos grosseiros da linguagem utilizada pela "senhora doutora", também arrisca-se a ser punida. Porquê? Porque gravou o palavreado sem nível, a autoridade pidesca e as ameaças da professora. E aparelhos electrónicos não são autorizados nas salas de aula.
Ou seja, se a aluna não tivesse gravado, a turma continuaria a ter que suportar uma professora que desvaloriza a própria profissão. A professora não seria castigada, mas a aluna também não.
Esta mensagem não é um bocadinho a querer dizer: meninos não dêem que fazer nem à DREN, nem ao Ministério, e continuem na boa. Somos um país à beira mar plantado. E este é o espírito.
A "senhora doutora", como gosta de ser anunciada, incorre agora numa pena que pode ir à própria demissão.
Só que a estória não se fica por aqui: não é que a aluna que não gostou dos termos grosseiros da linguagem utilizada pela "senhora doutora", também arrisca-se a ser punida. Porquê? Porque gravou o palavreado sem nível, a autoridade pidesca e as ameaças da professora. E aparelhos electrónicos não são autorizados nas salas de aula.
Ou seja, se a aluna não tivesse gravado, a turma continuaria a ter que suportar uma professora que desvaloriza a própria profissão. A professora não seria castigada, mas a aluna também não.
Esta mensagem não é um bocadinho a querer dizer: meninos não dêem que fazer nem à DREN, nem ao Ministério, e continuem na boa. Somos um país à beira mar plantado. E este é o espírito.
segunda-feira, maio 18, 2009
Dia Internacional do Museu e Serralves
Segunda-feira. Metereologia indica sol. O principezinho sem aulas. Dia Internacional do Museu.
Foi só seguir estes sinais do mapa de hoje, para me lembrar da Fundação de Serralves. Do seu Museu, e de que hoje a entrada não tinha barreiras.
Vai daí, pude apreciar as boas fotografias de Guy Tillim, fotógrafo sul-africano, quem registou os conflitos que perseguem os países africanos do período pós-colonial, a exemplo disso, Congo, Angola e Moçambique.
Mas quem lá está a dar nas vistas é a galesa Bethan Huws. Esta artista fez-me entrar na máquina do tempo, e recordar os bons velhos tempos que passei na Tate Modern. Bethan tem por base a corrente artística conceptual, cujo pai é Marcel Duchamp. O mesmo é dizer que a sua arte tanto pode ser liberta por aguarelas feitas a partir da sua memória infantil, como de objectos da nossa rotina diária [garrafas de vidro, por exemplo] que têm subjacente um outro significado que não o primeiro por nós atribuído.
Mas o curioso, para além de palavras com mensagens tatuadas em vitrines, é um falso chão colocado acima do chão real de Serralves. A artista quis representar o chão como o alicerce da nossa presença no mundo.
A minha parte preferida foi mesmo a arte do meu irmão a rebolar na relva dos jardins do Museu. A cada cambalhota, o meu coração dava outra.
[Isto é só para não dizerem que escrevo apenas tótózadas surrealistas, sem significado aparente. Este texto é real]
Foi só seguir estes sinais do mapa de hoje, para me lembrar da Fundação de Serralves. Do seu Museu, e de que hoje a entrada não tinha barreiras.
Vai daí, pude apreciar as boas fotografias de Guy Tillim, fotógrafo sul-africano, quem registou os conflitos que perseguem os países africanos do período pós-colonial, a exemplo disso, Congo, Angola e Moçambique.
Mas quem lá está a dar nas vistas é a galesa Bethan Huws. Esta artista fez-me entrar na máquina do tempo, e recordar os bons velhos tempos que passei na Tate Modern. Bethan tem por base a corrente artística conceptual, cujo pai é Marcel Duchamp. O mesmo é dizer que a sua arte tanto pode ser liberta por aguarelas feitas a partir da sua memória infantil, como de objectos da nossa rotina diária [garrafas de vidro, por exemplo] que têm subjacente um outro significado que não o primeiro por nós atribuído.
Mas o curioso, para além de palavras com mensagens tatuadas em vitrines, é um falso chão colocado acima do chão real de Serralves. A artista quis representar o chão como o alicerce da nossa presença no mundo.
A minha parte preferida foi mesmo a arte do meu irmão a rebolar na relva dos jardins do Museu. A cada cambalhota, o meu coração dava outra.
[Isto é só para não dizerem que escrevo apenas tótózadas surrealistas, sem significado aparente. Este texto é real]
sexta-feira, maio 15, 2009
Só.
Gosto da companhia de estar só. De ao meu lado ter um lugar vazio, cheio de mim.
Gosto de antíteses, e de ser diferente. De pensarem que nasci com trissomia 21. 2+1=3. A conta de Deus.
Gosto de viver em prelúdios constantes e prolepses defeituosas. Gosto de no armário encontrar dependurada numa cruzeta velha e partida, a minha alma.
Só.
Gosto da valsa amarga de uma rua vazia. Gosto de caminhar mil vezes na mesma rua, até que esta me diga "olá". Gosto da palavra 'adeus'. Gosto da música pimba do vizinho. De obras. De despertadores. De acordar cedo. De viajar no tempo. De ter um dia meu. E de o empacotar numa mala de sonhos vazios e sós.
Só.
Gosto do que o outro não gosta. Venero o que o mundo afasta. Gosto.
Gosto de pontos finais e de parágrafos. Gosto que não me entendam e me chamem chata. Gosto do mistério de não saber os que as pessoas pensam de mim. E de, no fundo de mim, fazer delas personagens, atribuir-lhes nomes, que elas não sabem. De lhes desenhar uma estória. Oferecer-lhes um destino, à minha escolha.
Só.
Gritar e ouvir o meu eco. Vê-lo. Senti-lo. Ser o meu eco.
Gosto de ter olhos cor de azeitona.
De me enfiar em caixas para cair em asfixia.
Só.
Gosto de ler dicionários como se fossem literatura. Gosto de figuras de estilo.
Gosto de matemática. De fazer contas por cabeça, até perder todos os meus cabelos.
Só.
Gosto da palavra só. Enfiá-la no bolso como uma arma. E apontá-la quando cães invadirem o meu espaço, e me ladrarem alto. Para os afugentar. Para os acalmar. Para que percam todos os dentes. Para que empurrem a palavra 'só' para um qualquer gueto. Para que nela, nasçam versos de um poema constante de quem gosta de estar só. E nisso, não ver nenhum mal.
Gosto da companhia de estar só. De ao meu lado ter um lugar vazio, cheio de mim.
Gosto de antíteses, e de ser diferente. De pensarem que nasci com trissomia 21. 2+1=3. A conta de Deus.
Gosto de viver em prelúdios constantes e prolepses defeituosas. Gosto de no armário encontrar dependurada numa cruzeta velha e partida, a minha alma.
Só.
Gosto da valsa amarga de uma rua vazia. Gosto de caminhar mil vezes na mesma rua, até que esta me diga "olá". Gosto da palavra 'adeus'. Gosto da música pimba do vizinho. De obras. De despertadores. De acordar cedo. De viajar no tempo. De ter um dia meu. E de o empacotar numa mala de sonhos vazios e sós.
Só.
Gosto do que o outro não gosta. Venero o que o mundo afasta. Gosto.
Gosto de pontos finais e de parágrafos. Gosto que não me entendam e me chamem chata. Gosto do mistério de não saber os que as pessoas pensam de mim. E de, no fundo de mim, fazer delas personagens, atribuir-lhes nomes, que elas não sabem. De lhes desenhar uma estória. Oferecer-lhes um destino, à minha escolha.
Só.
Gritar e ouvir o meu eco. Vê-lo. Senti-lo. Ser o meu eco.
Gosto de ter olhos cor de azeitona.
De me enfiar em caixas para cair em asfixia.
Só.
Gosto de ler dicionários como se fossem literatura. Gosto de figuras de estilo.
Gosto de matemática. De fazer contas por cabeça, até perder todos os meus cabelos.
Só.
Gosto da palavra só. Enfiá-la no bolso como uma arma. E apontá-la quando cães invadirem o meu espaço, e me ladrarem alto. Para os afugentar. Para os acalmar. Para que percam todos os dentes. Para que empurrem a palavra 'só' para um qualquer gueto. Para que nela, nasçam versos de um poema constante de quem gosta de estar só. E nisso, não ver nenhum mal.
sábado, maio 02, 2009
O relógio relatava que o dia ia longo, quando B. atravessou a larga avenida de Liverpool St., em Londres. Cansado, percorreu a custo a estação de metro da também cansada Liverpool Station. Era dia de semana. Muitos corpos percorriam aquele corredor cinzento da estação. B. encontrava-se esgotado e embrulhado em malas pesadas e cheias de nada. O único pensamento que lhe ocorria era qual o estado de cada um dos corações guardado em cada um daqueles corpos que lhe derrubavam o equilíbrio. Foi quando venceu o último degrau das escadas que o guiavam até à sua plataforma que B. se deu conta de quem iria estar à sua espera no quarto, ainda desconhecido, quando lá chegasse: a solidão. E, não saberia, como lhe cumprimentar. B. chegou ao quarto, à solidão.
- Boa tarde, senhora Solidão.
-
- Boa tarde. Mais uma tentativa.
-
A solidão abraçou-o, mas B. só queria um aperto de mão.
Chorou. Chorou porque tinha saudades da Mãe.
Foi quando viu a Mãe na mala. Estava lá. Em forma de bilhete. O mais bonito bilhete.
Para B. mostrar ao mundo que tinha o Mundo. Porque tinha a Mãe.
Feliz dia da Mãe, Mãe.
- Boa tarde, senhora Solidão.
-
- Boa tarde. Mais uma tentativa.
-
A solidão abraçou-o, mas B. só queria um aperto de mão.
Chorou. Chorou porque tinha saudades da Mãe.
Foi quando viu a Mãe na mala. Estava lá. Em forma de bilhete. O mais bonito bilhete.
Para B. mostrar ao mundo que tinha o Mundo. Porque tinha a Mãe.
Feliz dia da Mãe, Mãe.
quinta-feira, abril 30, 2009
...
Em certos dias, nem sabemos porquê sentimo-nos estranhamente perto daquelas coisas que buscamos muito e continuam,no entanto, perdidas dentro da nossa casa.
José Tolentino Mendonça
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós, e estranhamente nos vêm ter às mãos. Assim, sem aviso prévio. Encontram-nos desarmados, carentes. É, por isso, que gosto tanto da poesia. A poesia é Deus. Deus apenas. Sem religião. A sua beleza consiste na certeza dela ser Deus, sem ninguém o saber, e todos o sentirem.
Frases há, que são socos. Badaladas no estômago. Imagens beatificadas. Encurraladas numa caixa de Pandora. E de lá saem, em forma gasosa para nos dar cabo de mais uma manhã. Mais uma. Em que lutamos. O mundo aberto e nós fechados. Contra o vento, num quarto circunscrito de quatro paredes. Não, oito.
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós. Antes de nascermos. De forma a cumprir o destino. Aquele que ninguém crê, e todos o seguem. Sem grandes interrogações. Na luta de cada manhã. Mais uma para nos lembrar: que talvez será naquela manhã que o mundo virará do avesso, para assim ficar composto.justo.direito.sonhado.arrumado.
José Tolentino Mendonça
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós, e estranhamente nos vêm ter às mãos. Assim, sem aviso prévio. Encontram-nos desarmados, carentes. É, por isso, que gosto tanto da poesia. A poesia é Deus. Deus apenas. Sem religião. A sua beleza consiste na certeza dela ser Deus, sem ninguém o saber, e todos o sentirem.
Frases há, que são socos. Badaladas no estômago. Imagens beatificadas. Encurraladas numa caixa de Pandora. E de lá saem, em forma gasosa para nos dar cabo de mais uma manhã. Mais uma. Em que lutamos. O mundo aberto e nós fechados. Contra o vento, num quarto circunscrito de quatro paredes. Não, oito.
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós. Antes de nascermos. De forma a cumprir o destino. Aquele que ninguém crê, e todos o seguem. Sem grandes interrogações. Na luta de cada manhã. Mais uma para nos lembrar: que talvez será naquela manhã que o mundo virará do avesso, para assim ficar composto.justo.direito.sonhado.arrumado.
sexta-feira, abril 24, 2009
quarta-feira, abril 08, 2009
Gosto de fotografia. Percebo pouco. Mas gosto. Muito.
Não páras quieta
Esta era a frase predilecta da Mãe quando ralhava comigo em pequena.
Não páro quieta mesmo:
http://www.flickr.com/photos/planetab612/
Esta era a frase predilecta da Mãe quando ralhava comigo em pequena.
Não páro quieta mesmo:
http://www.flickr.com/photos/planetab612/
terça-feira, abril 07, 2009
O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse hoje que não gostava de desempenhar tal cargo num País em dificuldades[como é o caso de Portugal]. Contudo, dadas as circunstâncias, devemos dar o nosso melhor - ainda desabafou.
E eu concordo e subscrevo aquelas palavras: eu, por meu turno, também não me apraz lá muito ser cidadã deste País. Podia-me ter calhado na roda da sorte outro bem melhor, mas também podia ser pior. Portanto, dadas as circunstâncias, tento fazer o meu melhor.
É este um pouco o espírito português: ninguém gosta, todos lamentam, faz-se o melhor.
E eu concordo e subscrevo aquelas palavras: eu, por meu turno, também não me apraz lá muito ser cidadã deste País. Podia-me ter calhado na roda da sorte outro bem melhor, mas também podia ser pior. Portanto, dadas as circunstâncias, tento fazer o meu melhor.
É este um pouco o espírito português: ninguém gosta, todos lamentam, faz-se o melhor.
quinta-feira, abril 02, 2009
terça-feira, março 31, 2009
je ne regret rien
Vejo-me sentada numa cadeira de uma mesa de uma das salas de uma determinada empresa de recursos humanos. Pedem-me para fazer testes. Psicotécnicos. Aqueles cheios de figuras geométricas. De palavras. Tudo desordenado. Para ordenar. Vejo-me e revejo-me. E ao colocar ordem nas figuras e palavras catalogadas abaixo dos meus olhos, rasgo tudo em pensamento. Assassino aqueles papéis mentirosos e insultuosos. Deixo-os morrer a conta-gotas. Entregues à dor.
Depois de tanta tinta borrada num currículo elaborado a custo [quer por mim, quer por aqueles que incondicionalmente tratam de mim]. a á r d u o custo. pedem-me para fazer uns testes. Como se fossem estes testes que traduzissem a minha sanidade intelectual.
[o título quer transparecer que tudo o que consta na minha vida foi por puro divertimento, prazer e emoção. feito a custo, mas também muito sonhado, por isso sou feliz, ainda assim, ainda vivendo e convivendo no País torpe de Eça]
Depois de tanta tinta borrada num currículo elaborado a custo [quer por mim, quer por aqueles que incondicionalmente tratam de mim]. a á r d u o custo. pedem-me para fazer uns testes. Como se fossem estes testes que traduzissem a minha sanidade intelectual.
[o título quer transparecer que tudo o que consta na minha vida foi por puro divertimento, prazer e emoção. feito a custo, mas também muito sonhado, por isso sou feliz, ainda assim, ainda vivendo e convivendo no País torpe de Eça]
sábado, março 21, 2009
...a gente aceita as coisas sem as pensar, deve ser a defesa instintiva da espécie e da paz social. mesmo as coisas mais superficiais. a gente leva tempo a aprender as regras de trânsito num certo bairro e um dia mudam as regras e nunca ninguém pergunta porquê. a gente aceita tudo como aceita as pedras e as moscas, o mais que pode é sacudi-las mas não as discute...
Vergílio Ferreira, em nome da terra
Vergílio Ferreira, em nome da terra
domingo, março 08, 2009
insólito caso
quatro da manhã...
faltam uns escassos segundos para passar a película dos sonhos - - -
os pesadelos têm sessão marcada para as seis horas. a fotografia quer expandir-se até ao horizonte de uma madrugada azul.
alguém me diz, uma voz à solta e desprendida: rumo ao norte dos passos gélidos, das pegadas mórbidas.
relutante, a fotografia conta um barco a navegar horizonte fora...conta, também, um corpo coberto por cores vivas, apertado pelo desejo de tocar na linha horizontal da madrugada azul.
calma.
o horizonte não gosta de ser acordado de rompante. precisa de um dedo de cada vez. enfim, de um mimo...para a aguarela da madrugada azul não mudar de cor.
faltam uns escassos segundos para passar a película dos sonhos - - -
os pesadelos têm sessão marcada para as seis horas. a fotografia quer expandir-se até ao horizonte de uma madrugada azul.
alguém me diz, uma voz à solta e desprendida: rumo ao norte dos passos gélidos, das pegadas mórbidas.
relutante, a fotografia conta um barco a navegar horizonte fora...conta, também, um corpo coberto por cores vivas, apertado pelo desejo de tocar na linha horizontal da madrugada azul.
calma.
o horizonte não gosta de ser acordado de rompante. precisa de um dedo de cada vez. enfim, de um mimo...para a aguarela da madrugada azul não mudar de cor.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
o coração com mais um ano
Daqui a pouco [são 23h40] vou estar um ano mais velha. E como todos os 'daqui a pouco' de anos anteriores, o giradiscos propõe a mesma música. Build up dos King of Convenience. Às vezes, pergunto-me se as pessoas ouvem o giradiscos que toca dentro de mim. É que ouço tão alto. E se vêem os video clip. É que também vejo os cenários.
Eu sei. Patologia grave, esta. A de envelhecer.
domingo, fevereiro 08, 2009
o pássaro refugia-se do lado de fora da janela. observo-o. invejo-o. tem as penas molhadas. é todo preto. e olha-me nos olhos. sem medo. ou eu não vejo o medo. está ali, apenas. a olhar. não é por mim, é pela música. fica ali parado. molhado pela liberdade, e sem medo. os seus olhos tornam-se espadas. afugenta-me. morde-me com o olhar. percebo que me quer dali para fora. empurra-me, e puxa a música para ele - só para ele. escondo-me por detrás da porta. a música pára. e ele voa vagabundo como a liberdade.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
"a ciência pesa tanto e a vida é tão breve"
dias há que se parecem com o som de um violino. ele tão pesado nestas mãos tão leves. as notas penduram-se hirtas neste corpo tão desinteressado. o violino escolhe acomodar-se no ombro discreto - pouco robusto. dias há em que a chuva que caí no chão não é chuva. é música. são notas de um violino desfeitas. são partituras amarrotadas. são gotas transparentes, deitadas ao chão sem pudor - sem misericórdia. é água que caí do céu e ninguém quer.
há dias, em que o destino decide enfiar uma música na cabeça, com um fim único: arrasar.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Lisa Ekdahl chegou-me aos ouvidos através de uma amiga - estava ainda na bruma de Londres. Partilho I will be blessed, ali ao lado, para bafejar 2009 com sorte, já que a gripe anda ai...
terça-feira, dezembro 30, 2008
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Em tempo de festividades: boas festas!
Cá vai:
Feliz Natal e um próspero Ano de 2009!
É o que o planeta deseja.
Feliz Natal e um próspero Ano de 2009!
É o que o planeta deseja.
terça-feira, dezembro 09, 2008
A. De novo.
De novo A. calcorreia a rua deserta de branco, suja de silêncio. De phones nos ouvidos. Dirige-se a outro mundo. Entra na hora de ponta. De sonhos. Completa a leitura dos passos com as pegadas de um coração esmagado. Sopra ao silêncio na tentativa fugaz de o fazer desaparecer. Tropeça e não caí [salvou o pára-arranca da hora de ponta dos sonhos]. A música toma conta dele, educa-o, conta-lhe estórias - desmaia na sua cabeça. A. enrola-se na borda do passeio, e revê a preto e branco a cor dos sonhos que se agregam no cruzamento nº 7 da hora de ponta. Pára-arranca. Stop. Sinal de cedência de passagem. De prioridade. Rotundas, muitas.
Na borda do passeio revê o poema que lhe pintou a vida. Foge da borda do passeio. O trânsito acalma. Mau sinal. A música muda de faixa, que muda de música. Já não é pára-arranca. Fluí. Escoa. No stop. Sinal de cedência de passagem. De prioridade. Rotundas, muitas. Vira na rua deserta de preto, suja de barulho. Acorda, adormece. Depende dos acordes. Repara. Olha. Vê. Nada: já circula muito rápido. Falhou um estacionamento. E outro. E outro. E tantos. A música muda de faixa, que muda de música. Esquece o poema. Tropeça e caí.
Na borda do passeio revê o poema que lhe pintou a vida. Foge da borda do passeio. O trânsito acalma. Mau sinal. A música muda de faixa, que muda de música. Já não é pára-arranca. Fluí. Escoa. No stop. Sinal de cedência de passagem. De prioridade. Rotundas, muitas. Vira na rua deserta de preto, suja de barulho. Acorda, adormece. Depende dos acordes. Repara. Olha. Vê. Nada: já circula muito rápido. Falhou um estacionamento. E outro. E outro. E tantos. A música muda de faixa, que muda de música. Esquece o poema. Tropeça e caí.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
É isto mesmo!
“Uma vez, na televisão, o Miguel Sousa Tavares perguntou-me porque é que eu não tinha inimigos. Eu respondi que um inimigo dá muito trabalho. Quando nas andanças da vida, alguém é desagradável comigo, deixo-o cair e não perco tempo com ele, muito menos a odiá-lo. Isto não é por bondade, é por gestão das minhas energias e, também, como já tenho dito, porque procuro ter uma visão estética da vida e o ódio e a agressividade são coisas muito feias”.
António Alçada Baptista in A Cor dos Dias, Memórias e Peregrinações
Escritor e editor, morreu ontem, aos 81 anos. Está, deste modo, justificada a chuva do fim-de-semana.
António Alçada Baptista in A Cor dos Dias, Memórias e Peregrinações
Escritor e editor, morreu ontem, aos 81 anos. Está, deste modo, justificada a chuva do fim-de-semana.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
Artigo do P2 do Público de ontem (via Jornalismo e Comunicação)
"...os mais velhos têm uma ideia do jornalismo como uma missão que se cumpre de serviço público, e também como uma tribo, com laços de solidariedade muito fortes, exportam para fora da redacção as relações de amizade”. Em contrapartida, no caso dos mais novos, é muito diferente a forma como encaram o ofício: “Exercem o jornalismo como uma profissão, com horário de entrada e saída, reclama-se uma estruturação mais completa da profissão e uma regulação maior do acesso.” As amizades fazem-se também “lá fora, na busca de deixar as preocupações na redacção e de ter um espaço para outras ocupações."
Concordo. Todavia, mesmo os (jornalistas) da velha-guarda andam-se a moldar nesta vertente trazida pelos da vanguarda. Parece-me (em olhar distante) que a velha-guarda jornalística informa cheia de vícios. Com mais vaidade do que humildade. Alheada ao mais importante da profissão: o público e ao que este acarreta em termos de responsabilidade social. Alheada aos interesses do público. Quer-me parecer que a leitura deste interesse está fosco. Mas, claro, esta é a voz da vanguarda a falar. E, hoje em dia, a voz da vanguarda pouco vale, porque, como se costuma dizer, "a idade é um posto" ... a velha-guarda...
"...os mais velhos têm uma ideia do jornalismo como uma missão que se cumpre de serviço público, e também como uma tribo, com laços de solidariedade muito fortes, exportam para fora da redacção as relações de amizade”. Em contrapartida, no caso dos mais novos, é muito diferente a forma como encaram o ofício: “Exercem o jornalismo como uma profissão, com horário de entrada e saída, reclama-se uma estruturação mais completa da profissão e uma regulação maior do acesso.” As amizades fazem-se também “lá fora, na busca de deixar as preocupações na redacção e de ter um espaço para outras ocupações."
Concordo. Todavia, mesmo os (jornalistas) da velha-guarda andam-se a moldar nesta vertente trazida pelos da vanguarda. Parece-me (em olhar distante) que a velha-guarda jornalística informa cheia de vícios. Com mais vaidade do que humildade. Alheada ao mais importante da profissão: o público e ao que este acarreta em termos de responsabilidade social. Alheada aos interesses do público. Quer-me parecer que a leitura deste interesse está fosco. Mas, claro, esta é a voz da vanguarda a falar. E, hoje em dia, a voz da vanguarda pouco vale, porque, como se costuma dizer, "a idade é um posto" ... a velha-guarda...
terça-feira, dezembro 02, 2008
O planeta e o prémio Dardos
Esta borboleta é louquinha [tal como a Andorinha Sinhá, do Amado], vai daí, atribuíu-me o prémio Dardos, que anda ai ao rubro entre blogues. Já foi em Outubro, mas só agora comecei a acordar para a minha órbita com olhos de ver. Vi os voos da borboleta durante a limpeza matinal do planeta.
Cá vai:

O Prémio Dardos reconhece o valor de cada blogger ao transmitir valores culturais, éticos, literários ou pessoais e que de alguma forma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto naquilo que escrevem. Por outro lado, esta é também uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a imagem;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3 - Escolher quinze outros blogs aos quais entregar o Prémio Dardos.
Como prezo a órbita ali do lado, e para lançar o caos [o caos respira imagem, dizia o Bacon] e como, para mim, a minha lista (e, por isso, é a minha lista) "transmite valores culturais, éticos, literários e pessoais", o prémio Dardos é para a lista.
Cá vai:

O Prémio Dardos reconhece o valor de cada blogger ao transmitir valores culturais, éticos, literários ou pessoais e que de alguma forma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto naquilo que escrevem. Por outro lado, esta é também uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a imagem;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3 - Escolher quinze outros blogs aos quais entregar o Prémio Dardos.
Como prezo a órbita ali do lado, e para lançar o caos [o caos respira imagem, dizia o Bacon] e como, para mim, a minha lista (e, por isso, é a minha lista) "transmite valores culturais, éticos, literários e pessoais", o prémio Dardos é para a lista.
sábado, novembro 29, 2008
& II
dias há que se mora cerrada numa fotografia. daquelas mencionadas por Roland Barthes na sua Câmara Clara. que se morre e vive para sempre, ao mesmo tempo. sim, é possível viver e morrer para sempre e ao mesmo tempo. ficar dentro do rectângulo da fotografia imortal. acontece nos intervalos de tempo. nos períodos dos ponteiros. quando se assiste displicente ao correr dos dias. da vida.
sexta-feira, novembro 28, 2008
Um Café
Um café no feminino traduz-se em revista.
Blend de vários sabores, a nascer de várias culturas, mais escuro, um bocadinho mais claro, menos torrado, mais torrado. Quente, morno, frio. Um restinho no fundo da chávena. Ou a roçar a borda. É uma revista assim. Feita para beber e acordar. Viver, sobretudo.
Em Serralves, nos chamados cafés culturais, como o Gato Vadio. Ela anda por ai, a fazer gemer o Porto. Tem óptimos escritores, e estórias do arco-da-velha.
Eu dou o meu contributo com a Poesia Maldita. O mérito é todo do Tomás Carneiro.
Blend de vários sabores, a nascer de várias culturas, mais escuro, um bocadinho mais claro, menos torrado, mais torrado. Quente, morno, frio. Um restinho no fundo da chávena. Ou a roçar a borda. É uma revista assim. Feita para beber e acordar. Viver, sobretudo.
Em Serralves, nos chamados cafés culturais, como o Gato Vadio. Ela anda por ai, a fazer gemer o Porto. Tem óptimos escritores, e estórias do arco-da-velha.
Eu dou o meu contributo com a Poesia Maldita. O mérito é todo do Tomás Carneiro.
quinta-feira, novembro 27, 2008
H
de Herberto Hélder
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão termica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
excerto de A FACA NÃO CORTA FOGO
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão termica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
excerto de A FACA NÃO CORTA FOGO
quarta-feira, novembro 26, 2008
segunda-feira, novembro 24, 2008
quinta-feira, novembro 13, 2008
quarta-feira, outubro 29, 2008
NOSEGREDO
O único segredo partilhado.
As minhas melhores amigas que são estilistas, ou melhor, designers de moda [pelos vistos não é a mesma coisa...faça-se jus à diferença] acabaram de abrir o atelier de Noivas e Moda mais extraordinário de todos os tempos, do mundo inteiro, de Portugal, da zona Norte e do Porto e de Paços de Ferreira. Não, não estou a exagerar.
Portanto, meninas e meninos, noivas e noivos, enamorados, casadoiros, pessoas com fetiche com vestidos de noiva, lingerie, moda urbana, rufem os tambores porque já têm onde partilhar o vosso segredo. Onde? Nosegredo, por Ana Paula Aguiar e Natália Brandão: nosegredo@gmail.com/ R. das Uveiras, 105A - Paços de Ferreira. O blog está em processo de incubação.
As minhas melhores amigas que são estilistas, ou melhor, designers de moda [pelos vistos não é a mesma coisa...faça-se jus à diferença] acabaram de abrir o atelier de Noivas e Moda mais extraordinário de todos os tempos, do mundo inteiro, de Portugal, da zona Norte e do Porto e de Paços de Ferreira. Não, não estou a exagerar.
Portanto, meninas e meninos, noivas e noivos, enamorados, casadoiros, pessoas com fetiche com vestidos de noiva, lingerie, moda urbana, rufem os tambores porque já têm onde partilhar o vosso segredo. Onde? Nosegredo, por Ana Paula Aguiar e Natália Brandão: nosegredo@gmail.com/ R. das Uveiras, 105A - Paços de Ferreira. O blog está em processo de incubação.
sexta-feira, outubro 24, 2008
Português aprende português [em Londres]
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[José Carlos Farinha, Maio de 2008]
A manhã está como a maioria das manhãs em Londres – de nevoeiro – mas António brilha e sorri no meio da bruma e da multidão, que num sábado assola o British Museum, na tentativa de resgatar para o presente os antepassados históricos do mundo. No pátio do museu, António, que conta este ano 30 anos, perde-se entre as gigantescas colunas, a imitar a Grécia Antiga, e deixa-se confundir nas camisas brancas de homem. É um rapaz pequeno, magro, de sorriso largo e um brilho que parece afectar a habitual neblina londrina. Realça-se. Ana, de 26 anos, não o larga de vista e acompanha-o no seu passo pesado e martelado. Ambos riem muito. Dirigem-se para a London Review Bookshop, umas das muitas livrarias da Grande Londres, e lá dentro perdem-se nos títulos. Ana conhece a dança das letras na capa de cada publicação. Já António esforça-se por contabilizar o abecedário, somar as letras para perceber essa dança.
Ana e António contam 17 lições de português e a desenvoltura do aluno para a gramática de Camões está de vento em poupa. Ana, a professora, e António o aluno.
Retrato de uma luta
António nasceu e cresceu na Madeira até aos 17 anos, depois “abalou para o Seixal”, na região de Lisboa, onde viveu até o ano passado, altura em que decidiu arriscar a vida em terras de sua majestade. Corajoso, rumou até Londres, mas primeiro “trabalhou, trabalhou, trabalhou”. Na cidade que nunca dorme arranjou trabalho numa empresa de limpeza, e através desta, foi trabalhar no consulado português. Foi aqui onde conheceu Ana – quem lhe viria a ensinar como se escreve a língua dos poetas portugueses, o idioma que nasceu e cresceu com ele, mas que a sua aprendizagem “é pouco valorizada na ilha” – como conta António. Cresceu sem ler ou escrever. As palavras saíam da boca como crónicas de som.
Ana ensina o abecedário a António, e a contrapartida é a evolução que o aluno português de português apresenta.
Duas horas por semana é o suficiente para António ser hoje capaz de enviar uma simples sms. Uma batalha. Uma batalha que Ana combate todos os dias. “Não são apenas as duas horas de aulas. Envio-lhe sms’s para avaliar a capacidade de resposta, para o fazer ler e ter empenho a escrever”, conta. Aliás, como as novas tecnologias são a sombra de cada dia, ensinar português traduziu-se por também adestrar os programas de comunicação virtual: o skype, o MSN, e claro, endereço de e-mail.
A última novidade na casa de António é um computador portátil: “Estou aprender a manejar o bicho” [risos].
Ao aprender português, António não só contraria o que diz ser constante na Madeira – o analfabetismo - como também conquistou a sua privacidade. Na adolescência, confessa, era a irmã quem lhe valia para escrever cartas de amor. “Uma vergonha”, recorda António, ao mesmo tempo que tapa os olhos com as mãos. As raparigas por quem se apaixonava recebiam cartas que teriam já sido lidas, numa espécie de lápis azul, no entanto com um objectivo adjuvante. “Toda a minha correspondência era recebida pela minha irmã”, diz.
Numa família de sete filhos, António é dos mais novos, e como tal “já não era necessário aprender a ler e a escrever”. As actividades piscatórias que orientam o sustento da sua família necessitavam do trabalho de António, e como destaca, “basta um ou outro elemento de cada família na ilha ler e escrever, o resto tem de ajudar nas tarefas de trabalho”.
Objectivo: até ser capaz “de ler sozinho”
É no consulado português que Ana vasculha todo o tipo de recurso para ajudar nas aulas de português do seu aluno: todas as publicações do ensino básico são material premente. Conheceu-o nos corredores do consulado. “Vi um rapaz tímido a tocar-me o braço e perguntou se era professora, se estaria disponível para lhe ensinar português”, lembra.
Ana estudou História nos auditórios de Coimbra entre 2001 e 2006. O ano passado rumou até à Grande Londres, onde dá aulas privadas de português, e onde conquistou o documento britânico que lhe permite ensinar no Reino Unido. Com 26 anos, e apenas há um ano em Londres, Ana pode leccionar no ensino público inglês e está inteiramente activa dentro da comunidade portuguesa, participando em projectos que visam a total integração de portugueses dentro das fronteiras britânicas. Para já, o grande desafio é insistir no A B C do António até que “seja capaz de ler sozinho”.
domingo, outubro 19, 2008
&
Há uma hora em que o relâmpago se incendeia no peito e as cores ganham cor de cores e se desenha um arco-íris. Apaga-se a dor, e troveja uma felicidade enganadora, além deste mapa que projecta um corpo esquecido. Tudo são energias de enganos fulminados pelo céu zangado, preso a um coração que apodreceu porque viveu de mais. Viveu além de mim. O incêndio permanece sempre nos púmbleos passos. Taciturno momento presente nos subtis arco-íris.
sábado, outubro 11, 2008
'a cada enxadada, uma minhoca'
Custa-me ver bons profissionais do jornalismo - que não exercem a profissão - sentados no sofá [e nem falo de mim] a ver as notícias na televisão; ou melhor, o desfilar do descalabro jornalístico.
No Jornal Nacional da TVI de hoje (de há pouco) disse a jornalista que "dois assaltantes de raça negra..."
Aquela citação causou-me tamanha naúsea que nem ouvi o resto. Apenas abri a boca de espanto, e foi tanto o espanto, que até a minha mãe ficou curiosa sobre o meu 100% espasmo.
Raça negra? Não ficaria melhor anotar 'origem africana'? Aliás, qual a razão para mencionar a "raça"? Mas aquela jornalista esqueceu-se dos dez pontos do NOSSO código deontológico?
[Como diz a minha avó: Valha-nos Deus]
No Jornal Nacional da TVI de hoje (de há pouco) disse a jornalista que "dois assaltantes de raça negra..."
Aquela citação causou-me tamanha naúsea que nem ouvi o resto. Apenas abri a boca de espanto, e foi tanto o espanto, que até a minha mãe ficou curiosa sobre o meu 100% espasmo.
Raça negra? Não ficaria melhor anotar 'origem africana'? Aliás, qual a razão para mencionar a "raça"? Mas aquela jornalista esqueceu-se dos dez pontos do NOSSO código deontológico?
[Como diz a minha avó: Valha-nos Deus]
quinta-feira, outubro 09, 2008
"A minha pátria é a Língua Portuguesa"
Párem todos os carros da avenida. Nela desfila a pátria, que irá desaguar na praça da Poesia, onde acena a rainha - a Língua Portuguesa. É aqui onde vivem todos os poetas portugueses. E mais um: Este.
quarta-feira, outubro 08, 2008
'se me beliscares acordas-me do sonho'
(pelo telefone)
J: sra. dona Maria?
sra. dona M.: Eu não estou!
Por vezes eu também não estou. Estou e não estou. Vagueio a quilómetros à frente, além o futuro. E, por isso, não estou. Porque além o futuro, apenas existe o quadro da saudade de uma estação que não se sabe, de uma paisagem que não se adivinha, e de um passeio que não se sente. Eu percebi a sra. dona Maria, quando esmoreceu que não estava (em casa). Na verdade, estava alheia à realidade de um presente que se adia sempre. O hoje é realidade, o amanhã é sonho.
Eu não estou = se me beliscares acordas-me do sonho
J: sra. dona Maria?
sra. dona M.: Eu não estou!
Por vezes eu também não estou. Estou e não estou. Vagueio a quilómetros à frente, além o futuro. E, por isso, não estou. Porque além o futuro, apenas existe o quadro da saudade de uma estação que não se sabe, de uma paisagem que não se adivinha, e de um passeio que não se sente. Eu percebi a sra. dona Maria, quando esmoreceu que não estava (em casa). Na verdade, estava alheia à realidade de um presente que se adia sempre. O hoje é realidade, o amanhã é sonho.
Eu não estou = se me beliscares acordas-me do sonho
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