um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.

quinta-feira, agosto 22, 2013

s.t.

há um tiroteio de palavras, imagens, personalidade nas veias do sangue. daquela pessoa. desta pessoa. eu luto contigo. tu lutas comigo. todos lutam com todos. cansamo-nos. das regras. do passado. do que foi e do que não foi. apetece-me alvejar-te. e alvejá-lo. e alvejar-me. e, depois, fugir. como um assassino que limpou as provas do crime e vai jogar joguinhos com polícias, e saber que sairá impune. porque nunca tropeçou no destino. estou indisposta com as regras do jogo. estou-me nas tintas para o destino. não concordo com nada. nada concorda comigo. estou com a corda pendurada eo pescoço. incomunicável.

sexta-feira, maio 24, 2013

Fizemos o caminho até Santiago e felizmente ficámos “quilhadas”

Quando me levantei da cama só queria voltar a deitar-me. Sentia-me enjoada, doía-me a cabeça e o cheiro das meias mal lavadas provocava-me vómitos. Na casa de banho, no primeiro xixi do dia, sangrava-me um pensamento
Hoje não vou ser capaz
Do lado de lá da porta da casa de banho, a Lila vestia uma t-shirt e uns calções e apertava o dedo mindinho do pé numas sapatilhas recentes, próprias para enfrentar guerras montanhosas. Ainda sentada na sanita, a ouvir a agitação organizada da Lila, ocorria-me um verso
Ama como a estrada começa.Eu vou conseguir,
dizia eu dentro de mim. Mas o meu corpo traía-me. Na altura de puxar o autoclismo, a guerra entre corpo e mente era insuportável. Saí da casa de banho. A Lila deu-me bons dias. Disse que eu era forte e que não tinha dúvidas que iria conseguir. Enfiei a roupa. E com cada movimento fiquei mais convicta que, daí a instantes, o meu corpo diria à mente quem é que mandava. A Lila insistia que o pequeno-almoço iria reforçar o meu estado de alma. O meu estado de alma estava incrédulo. Às 7h30, uma miúda espanhola mal-humorada atirou um café com leite e torradas com compotas para a mesa. Queríamos comer antes de sair do hotel. Hotel? Eu estava no Caminho de Santiago. Eu não queria andar de carro e muito menos ficar num hotel. Comi metade. Fui sentir o hálito da manhã. Aliviei. O senhor que ia deixar-nos no albergue chegou, traído pela tatuagem da almofada na cara. Também mal-humorado. No dia anterior andámos 30 quilómetros de Tui a Redondela. Quando f-i-n-a-m-e-n-t-e chegámos, o albergue estava ‘lleno’. Cansadas, de estômago vazio, tomámos a decisão de ficar numa espécie de pousada: o senhor traído-pela-tatuagem-da-almofada-na-cara veio buscar-nos e, no dia seguinte, deixou-nos exactamente no sítio onde nos tinha encontrado. No carro, o homem-traído-pela-tatuagem-da-almofada-na-cara parecia um motor de arranque a falar: “El calor, el calor, mucho calor, 40 grados.” Eu com 40 graus de nervos e a primeira contracção de vómito. Começámos a caminhada. “Ok, eu sou capaz, eu amo como a estrada começa. Eu vou conseguir.” A Lila: “Tu és capaz, tu vais conseguir.” Eu: “Já sei! Preciso de sumo de laranja.” Já de mochila às costa a inaugurar o segundo dia de caminhada, tropeçámos no Máscara, um café com sumo de laranja natural. Melhor. Aliviei a cabeça. O estômago relaxou e eu assinalei o Caminho de Santiago com o meu vomitado. Deselegante. O meu dia só começou aí. Sentia a natureza pelo nariz. O bosque abraçava-me, quebrado pelo murmurinho de passes gigantes e barulhentos. O senhor sem nome aproximava-se de mim e da Lila, arrastando a mulher atrás que, por sua vez, tentava enganar o cansaço.
— Hola! Que tal? — (Ok, mais portuñol hoje.) — Bien! Que tal? — Bien! Tienes algo mal? — Ah, bien… o dedo mindinho [da Lila] está pisado (no meu melhor português). — Ah, portuguesas! Nós também! Já vimos desde Porriño… mas começámos em Ponte de Lima, de onde somos. — E vocês? — Nós começámos em Valença! — Estamos com a minha irmã e o meu cunhado… Vêm aí atrás… quilhados! Adeus!
Eu e a Lila rimo-nos com o corpo inteiro. Soltei uma gargalhada do fundo de mim. A partir desse momento a palavra quilhado encriptou as nossas conversas.
7.8.12 – começa a viagem dos pés até Santiago
No comboio antigo, eu e a Lila sentámo-nos na quinta fila viradas para o sentido da viagem. Apertadas com as banhas das mochilas. Falámos dos trilhos das nossas vidas. Dos poemas que almejávamos construir no futuro e o quanto precisávamos do caminho para seguirmos em frente. Do lado de lá do comboio a paisagem estava pintada com tons bucólicos e cheirava a maresia. Fazíamos a berma de Caminha, Vila Nova de Cerveira, a berma onde acaba a terra e continua o mundo no segredo do oceano. Tive fome. Saquei de uma maçã. Primeira dentada e yyeeccc… toda podre. Uma enorme risada. A viagem demorou mais de duas horas, mas passou rápido. Quando pinchei para a plataforma eram 18h20. Senti uma ou outra borboleta na barriga. Afinal, é assim que se estreia uma aventura. Começámos ali – na estação de Valença - o Caminho de Santiago com a mochila às costas. A segunda vez para as duas. A primeira vez, juntas. Atravessámos a ponte de Valença para Tui e surgiu a primeira aparição de uma paisagem bela. E o primeiro peregrino, o qual nunca soubemos o nome – no caminho conversa-se e conhecem-se as pessoas não os nomes -, mas que viríamos a tirar uma fotografia com ele e a dar um dedo de conversa. O primeiro albergue foi o de Tui. E dos poucos em que conseguimos uma cama. Dão-nos um género de forro para o colchão e para a almofada e depois o saco-cama faz o resto. Comunidade. A palavra que melhor descreve o ambiente e a vida dentro dos albergues dos peregrinos. E dos ginásios. Quando não há cama nos albergues, há colchões e duche nos ginásios. Em Pontevedra – terceiro dia de caminhada, eu e a Lila fomos encaminhadas por cinco euros para o ginásio mais próximo (um quilómetro). Lotado. O Caminho de Santiago está efectivamente internacionalizado. É bom e mau. De facto, o Caminho é de todos. Mas depois existe todo um comércio à volta que poucos sabem manter genuíno. Um dos poucos que sabe fazê-lo é o José do café em Padrón – última etapa da caminhada. Recebeu-nos de braços abertos, com um beijo na testa e uma fotografia de recordação — e tivemos de carimbar o caderno preto das suas memórias dos peregrinos. É quase como que uma caderneta com todos os cromos aventureiros que por ali passam. É um registo de gente feliz que quer viver a vida. Senti-me especial quando o José beijou-me a testa e desejou-me que os desejos da vida fossem sempre desejados, para assim serem concretizados. Esta foi a última noite antes da chegada a Santiago.
Último dia de Caminhada
Partimos ainda nem 7h30 o relógio marcava. Estávamos verdadeiramente felizes, tão felizes, que foi o único dia que choveu como que lágrimas da nossa felicidade, bênção da nossa peregrinação interior. Não sei se foi da neblina, do cansaço ou do facto de ter deixado de haver setas amarelas. Perdemo-nos. E aí percebemos que o nosso sentido de orientação é nulo. Subimos a montanha. Subimos. Subimos. Subimos. Para depois descermos. Descermos. Descermos. Graças a uma senhora muito engraçada que tinha dois cãezinhos como companhia, conseguimos retomar o caminho. Disse-nos que não estávamos no Caminho de Santiago. E levou-nos com uma bengala na mão até ao local onde tomámos a decisão errada ao virar à direita e não à esquerda.
Finally Santiago!
Chegar. Foi quase como virmo-nos. Ter um orgasmo. Depois de suar, rir, chorar e trespassar todas as etapas do Caminho, alcançar Santiago, foi uma verdadeira ejaculação. Primeiro, andámos aos solavancos, ombros contra ombros. Rodeadas por demasiados turistas. Apertos. À medida que caminhava sentia-me num palco. Agarrei a Lila pela mão e fiz como se estivéssemos a dançar. Porque estávamos em festa. E quando se está feliz e em festa, dança-se. Os nossos corpos rebolaram dançantes até ficarem caídos diante da catedral de Santiago. Silêncio. Cá dentro. O sabor da vitória levantava pó dentro de mim. Eu e a Lila enfiámo-nos, cada uma, no seu caderno. A sós com os nossos segredos. Santiago é assim: um segredo a céu aberto.

quinta-feira, maio 23, 2013

do medo

às vezes alguém acorda de manhã e não tem nada na cabeça. é um vazio. acontece muito por esta altura em que todas as cabeças estão ocupadas com muita coisa que nada tem a ver com aquela cabeça vazia. então os bons-dias são rápidos, fugazes, muitas vezes fugidios.
deixa ver se ela não me vê para não perder tempo com cumprimentos
é verdade o tempo corre, e cansamo-nos tanto a correr também atrás dele. também acontece acordarmos de manhã e termos a cabeça cheia. cheia de merda. títulos gordos dos jornais. insónias que nos lembram que o copo está, ao mesmo tempo, meio cheio e meio vazio. eu tenho a cabeça como o copo, ora cheia, ora vazia. e entre uma coisa e outra um medo. um pequeno medo em ponto cruz com a pequena dor.
aquela da canção
medo de amanhã não poder fazer o que gosto. o que faz acordar todos os dias. não ser como aquelas meninas bem vestidas das capas das revistas que são privilegiadas porque a flecha do cupido lhes acertou. oiço tantas estórias. acredito em algumas linhas. não quero ser capa de revista, e quero vestidos à minha medida e ao meu gosto. sobretudo, quero acordar de manhã e ter a certeza que vou continuar a fazer o que gosto. mas há sempre 'ses'. e há um se que me distrai. um será que me desorienta. e as mãos levantam-se vazias. a tentar agarrar o futuro. que anda por ai algures. não sei se me a fintar. um medo que nao me larga.
quem tem cu tem medo
tenho vida à minha frente. o medo de não ser a pegar nas rédas do cavalo para ir de cabelos longos à solta, a fazer o que quero. alguém disse
o cavalo passa desmontado uma vez por nós, se passar a segunda já vai montado
a luta. de todos os dias. de acordar e levantar. a luta da coragem. a luta com o divino. a luta do medo.

quarta-feira, maio 22, 2013

da vida

quatro beijos. dois nele. dois nela. e depois tudo o que quisesse era meu. a casa, as favas, as batatas, o presunto, o sumo, e até um quarto.
a menina vem para cá e eu trato-lhe de tudo
um mimo. aos 81 anos alguém dizer-me que me tratava de tudo [quando era agora a vez de alguém lhe tratar de tudo]. porque nunca pode tratar de ninguém. convidava-me assim a ser a filha que nunca teve. aquilo que nunca tratou. o desgosto que a vida lhe deu. viu-me pela primeira vez. não me conheceu defeitos nem qualidades. mas queria tratar de mim. e no fundo, por vezes, bem precisamos de um colo inesperado para desabafar sem falar, olhar sem dizer, contar sem falar. eu bem quis deitar-me naqueles 81 anos, ser tratada sem perguntas, esquecer-me das pessoas más, e agarrar-me aquele sorriso que me diz que há pessoas boas.

quarta-feira, maio 15, 2013

de manhã há um nevoeiro que persiste. e impede-me de visualizar os quilómetros que os meus pés já percorreram. trilhos sinuosos, altos e baixos, com sol intenso e chuva dura. e eu continuei a caminhar. a favor do vento. contra o vento. mas ...nunca parei. nem mesmo quando salpicos de sangue rompiam a roupa. mas, por vezes, há um nevoeiro que se acomoda e não me deixa ver tudo o que sou. mas sei, do fundo de mim, tudo o que preciso fazer é inspirar e expirar. porque quando o ar sair, sacode a bruma do nevoeiro. e nesse momento, entre um sopro e outro, eu vou ver, quem sou. o meu passado, presente e futuro. o que quero e o que não quero. as minhas cores, formas, o meu chão e o meu céu.

terça-feira, maio 07, 2013

falta um dente no sorriso do pastor. estende a mão num cumprimento alegre e apertado como a simpatia. "a menina...menina, porque para mim, todas as mulheres são meninas desde o dia em que nascem até ao dia em que morrem...a menina tem antepassados judaicos. tem olhos claros". atrás de agostinho monteiro, cabras e ovelhas, centenas, saltam agitadas de um lado para o outro na lama de palha. no meio da exploração há uma banheira cheia de água da chuva, onde o porto bebe com a língua de fora - como os cães saciam a sede. "dou nome de cidades aos cães, porque fui emigrante". coça a testa, recua no passado e continua: "andei pela frança com passaporte de coelho. sabe o que é um passaporte de coelho? antes do 25 de abril íamos pela noite para fora do país, trabalhei lá na citroen. regressei, felizmente, e para me lembrar do nosso portugal pus nomes do nosso porto, da nossa lisboa, do nosso mondego aos cães" - guardadores do rebanho. bem, senhor agostinho, agora os pastores são obrigados a cumprir obrigações fiscais. o que pensa sobre isto? tem rendimentos que justifiquem esta nova medida? "tenho 80 anos, uma reforma de 250 euros, centenas de cabras que vão parir no monte, eu tragos as crias às costas, fodo as costas. só se lembram dos pastores com o cabrito na mesa. quando os pastores deixarem de existir, deixa de haver comer na mesa. e depois perguntam: onde há pastores? há muitos a desistir disto por causa deste país pobre e porco, que trata com miséria quem lhe dá tudo". os olhos do pastor agostinho são claros o que me leva a pensar que também ele tem origem judaica. "jesus foi o primeiro comunista na terra. queria plantar o bem. dar educação e saúde a todos". por momentos penso que eu e aquele pastor partilhamos a mesma árvore genealógica.

quarta-feira, abril 24, 2013

[s.t.]

Hoje pus o amor fora de portas a dormir Como se faz com um gato intrometido. Hoje não me apetece regar o amor. Pu-lo a dormir lá fora, ao relento no tapete de entrada à porta de casa . Apontei-lhe o indicador e repreendi-o. Hoje não lavei o amor. Mandei-o embora. Mandei-o aquela parte. Para mim o amor asfixiou-se no céu preto e brilhante da noite. O amor hoje perdeu rebolou pela rua caiu da ponte. Hoje virei a cara ao beijo do amor. Bati com a porta. Bati com as costas. Bati com a vida na cara do amor. Escrevi ‘a’ em letra pequena. Ergue-se a manhã, com luz com sol. Estendem-se ingratamente no novo dia, o céu grande, azul. Abri a porta. E no tapete, a rastejar estava o amor. Fiel como um cão a pedir, clemência.

sábado, março 02, 2013

Conversas de Tricot

o contrato Ela era enfermeira e o marido também. Aos 42 anos o marido teve um avc e entrou em coma. Os olhos dela abrem-se e a luz do dia entra toda. Pára de recortar o papel para recordar o que já lá vai para lá de 20 anos. Toda a gente me dizia, prepara o funeral. A urna estava comprada. As missas encomendadas. As lágrimas entravam em cena. Mas eu não me acreditava. Um filho de 16 anos. Eu já não tinha mãe. Tinha 40 anos. Não podia ficar sem marido. Tão nova, tão desamparada. Na flor da idade, no auge das nossas vidas. Um suspiro. Uma pausa para acertar com a tesoura. Ai que estória de amor a nossa. Conhecemo-nos no hospital. Eu tinha acabado de receber uma carta de angola do namorado a quem estava prometida. Ele acabara de acabar comigo. Por carta de angola. Do ultramar. Eram traumas, percebe? Eu triste. A minha mãe morreu de desgosto. Dois suspiros. Pausa para acertar com a tesoura no papel. O meu marido entrou ao serviço. Disse-lhe logo, não tenho tempo para brincadeiras. Ou é sério, casamento. Ou então, não, fico sozinha. Ele disse que é sério, casamento. Seis meses, casamento. Tudo seguido. Para não perder tempo. A tesoura foge. Alinha papel. Corta novamente. Ai filha, o que passei. Quatro meses em coma. Tudo a dizer-me, vai morrer. Eu enfermeira. Eu a saber. Eu religiosa. Fiz um contracto. Isto está ficar mal. Acerta papel. Acerta tesoura. Começa de novo. Com a nossa senhora. Ou morre de uma vez ou um sinal para saber se vai viver. O homem, 42 anos, enfermeiro, pai e marido. Avc. Abre um olho, caí uma lágrima. O sinal. Que mais queria eu de sinal. Nossa senhora cumpriu. Cancela urna. Médicos balançam no sinal. Lágrimas entram em cena. Desta vez emoção de alegria. Está a ficar bem este desenho recortado. Pode ficar melhor. Troca tesoura. Sai do coma. Mãe e filho saem da agonia. Nossa senhora. A fé. Os médicos confusos com a fé e a ciência. Homem, 42 anos, avc, coma. Vive. Sem fala. É o menos. Tenho marido, tenho filho. Já está, ficou bem. O papel recortado. A tesoura pequena serviu. Viajamos. O filho casou. Há netos. A vida é-me muito boa. Nossa senhora. Sequelas. O meu marido fala do túnel, de experiências de quase morte. Esteve morto. Afinal. Mas o contracto. A nossa senhora. “Nossa”.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

hoje apetece-me sentar no último degrau da escada. apetece-me esvaziar a catedral do meu corpo, e refugiar-me no armário da alma. apetece-me fugir do horizonte. estar virada do avesso. desejar nada. estar no trapézio sem rede.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

os corações efeitos-borboleta

é miserável pensares que os corações (sobre)vivem isoladamente. é mentira. uma verdade comprada. não há ditado mais mentiroso do que aquele que prega 'longe da vista,longe do coração'. o mundo é mudo em palavras, mas recheado de imagens, conta a estória verdadeira desta vida - os corações não andam sós. são ímans, são efeitos-borboleta. batem de um lado e causam intempéries do outro lado do peito. o coração da dona maria é um vendaval. o coração da filha da dona maria é um lago com cisnes a boiar. mãe e filha, separadas por anos de muitos relógios, doenças daquelas tão feias que não deviam existir. alguém disse, 'até um relógio parado, está certo duas vezes por dia'. ponto de encontro. acertaram os ponteiros e (re)encontraram-se. um abraço constrangido por lágrimas. uma teia só desenvencilhada por Deus. somos barcos à deriva. e os corações. esses apesar de sós, nunca andam sós. bate de um lado, vendaval do outro. é esta a verdade deste mundo.

quinta-feira, outubro 11, 2012

o jornalismo

ando com as palavras anoitecidas. preciso de páginas em branco para perceber o que tem acontecido. para madrugar os pensamentos. estou com os sonhos de criança tingidos. sinto-me só na minha profissão. sinto que a minha profissão está à deriva. dizem que os jornalistas são colaboradores. que a tinta está cara. e que o melhor é atirar tiros às pessoas que escolheram o jornalismo, que escolheram ser felizes. as crianças no meu tempo de criança queriam ser tudo o que não são hoje. porque naquela época não imaginavam o futuro. nem davam importância ao que queriam ser. eu sabia. eu quis desde que me conheço ser jornalista. e é um grande privilégio sê-lo. para dar voz a quem não consegue gritar. para espelhar uma sociedade no trapézio da vida. de repente. cresço. e há uma sensação preocupante e séria em torno do jornalismo. há uma tendência para algemá-lo. calá-lo. há aqui uma tentativa de homícidio. não foi por isto que me apaixonei. o jornalismo ensina a liberdade. evoca a liberdade. grita o grito. eugénio de andrade disse num verso que é urgente o amor. é urgente insurgirmo-nos. é urgente desamarrar. é urgente lembrar de onde vem o jornalismo para sabermos quem é ele. é urgente respeitar o jornalismo. não pode ser isto, o jornalismo. não pode ser despedimento. nem colaboradores. é urgente recordar a paixão do jornalismo. os seu valores. é urgente fazer jornalismo.

segunda-feira, outubro 08, 2012

os sonhos de criança chegam tingidos à idade adulta.

segunda-feira, setembro 24, 2012

começou o outono. apercebi-me pelo cheiro que emana das árvores.nem tanto pelo calendário. os meus cabelos voaram esta manhã como já não voavam há muito. eu gosto do verão. mas também gosto de ficar do lado dos mais pobres e dos mais fracos. ou seja, do outono. o outono perde nas estações do ano. até mesmo para o inverno. o outono vive precisamente entre a alegria do verão e a tristeza do inverno. muitos pensam que a tristeza do inverno começa no outono. mas estão todos enganados. o outono tem charme e é meigo. serve de psicólogo - começa uma sessão de preparação para tempos menos bons. eu gosto do outono, e eu sei, eu sei, que ele gosta de mim.

sábado, julho 14, 2012

T. queria espetar uma faca na alma. mas isso não mataria o arrependimento. T. queria ser uma serial killer de corações despedaçados. só para poupar a dor prolongada de uma doença sem cura. Saíu de casa, louca, com os cabelos a fintar o vento, e correu. correu relógio fora. apenas para esquecer os desarranjos da alma. na esperança de alcançar o inesperado. que tal como a alma, é imperfurável. o arrependimento é imperfurável.

sexta-feira, julho 06, 2012

adeus

quando conheci a sãozinha não sabia que seria minha avó para sempre. nasceu já velha para mim. eu no início da vida. ela com cabelos brancos e pele enrugada que teimava com todos os tempos. uma mulher do campo, forte, resmungava por tudo e por nada, e por tudo e por nada dava gargalhadas - muito altas. só me apercebi destas características quando ganhei consciência. os meus avós moravam na rua do casal e a sãozinha também. muito conveniente para me deixarem de manhã antes do trabalho. eu era o trabalho de sãozinha. todos os dias pelas 07h30 a porta da casa mais velha da rua, da senhora mais velha da rua, rangia. e eu também, porque via a minha mãe e a minha avó irem para o trabalho. amar custa. o tempo foi passando, o meu tempo também, e certo dia em que dei folga à sãozinha, apercebi-me que a amava. e ela a mim. a partir daí, sãozinha mudou a semântica e semiótica da palavra e imagem sãozinha. passou a ser a avó, e o marido avô. os outros netos primos, os filhos tios. mais do que família, sãozinha para mim reflecte uma boa parte do meu ser, e do meu lugar do mundo. gosto de feijões pela teimosia da avó sãozinha. não tenho medo de cães nem de gatos, porque corria o campo todo em liberdade. aprendi que o vinagre faz milagres. aprendi a rezar e a dar graças - ou não fosse a avó sãozinha a mais antiga catequista de Rio Tinto. sobretudo, deixava-me brincar com martelos a fingir que eram microfones, e punha-se a rir das minhas figuras. um dia sãozinha perdeu a memória. ficava admirada de me ver dizer que eu era a joana, a joaninha, a neta de nenhum filho. depois arregalava os olhos e dizia: espera lá, a joana é pequena com uns grandes olhos azuis. "tu és ela?" a minha avó sãozinha parou as memórias no tempo delas. e fez bem. a palavra adeus é longa. tem 30 anos de existência.

quinta-feira, março 29, 2012

andar de autocarro é maravilhoso. vê-se a cultura na sua forma humana. a poeira de palavras e conversas atravessam todos os ouvidos. mesmo os mais distraídos.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

um vislumbre.

um vislumbre.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

F. está a viver a vida a preto e branco.
com muitos pontos finais.
poucos parágrafos.
muitas vírgulas.
muitos pontos de interrogação.
no espelho um reflexo: zombie.
tudo a preto e branco.
mais sombra que luz.
à noite lê crime. de manhã romances.
não há intervalo.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

há manhãs que não deviam acordar.
há dias que não deviam existir.

"desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela"
AL BERTO

terça-feira, setembro 20, 2011

hoje vi uma menina de saia rodada, camisola do ano passado, de chinelas coloridas e unhas já gastas do dia, tropeçar num buraco da rua. a mãe chamou-lhe atenção. não ao buraco. à menina. presumo que o buraco não seria tão grande quanto aquele em que todos estamos agora metidos - por isso, o dói-dói não foi muito.
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?

sábado, agosto 27, 2011

está cientificamente provado que com a perda de um dos cinco sentidos, os restantes (sentidos) intensificam-se na sua própria função.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.

sexta-feira, julho 22, 2011

há um cemitério de palavras dentro do corpo de M.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.

sexta-feira, abril 29, 2011

a manhã está de nevoeiro.
mas não há sebastião.
há um barco pintado no horizonte. e muito cinzento borratado no mar.
mas o mar não tem cor.
por isso,
o barco deriva.
desaparece na transparência do ar.
ou seja,
esconde-se nas paredes claras do ar.

quinta-feira, abril 21, 2011

sonhando-sempre-com o do lado.

a vida sente-se do vidro da janela para fora.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.

sexta-feira, março 11, 2011

anda metade do mundo a comer a outra metade. e vice-versa. claro.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

o mundo das gaivotas está em estado de alerta. vem ai uma gaivota que grita mais do que as outras. que ri mais do que as outras. que come mais do que as outras. que chora mais do que as outras. que sorri mais do que as outras. que ama mais do que as outras. que sofre mais que as outras. que teme mais do que as outras. que corre mais riscos. que é mais feliz. que é mais bonita. e mais feia. e mais louca. e mais simpática. e mais bela. e mais inteligente. e melhor. mais. e mais. mais do que as outras. uma única gaivota é mais em tudo do que todo o mundo das gaivotas.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.

domingo, dezembro 26, 2010

apetece-me fugir de mim para mim.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.

quinta-feira, novembro 11, 2010

existe a poesia para fazer o trabalho de manter viva a memória. nela não há alzeimer. muitos riem disto. mas é verdade. a sério.

segunda-feira, outubro 25, 2010

ali

ficava ali o tempo todo. se o mesmo tempo me permitisse.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Não é do lugar que sentimos saudade. É do que fomos nesse lugar.

quinta-feira, agosto 19, 2010

às vezes apetece pedir ao Mundo para que fale mais baixinho:
- Mundo, podes fazer um pouquinho menos de barulho, se faz favor!?

sábado, junho 19, 2010

a passarola voadora morreu

José Saramago, prémio nobel da literatura em 1998, morreu.
Poeta e escritor português.

A morte do escritor apanhou-me de surpresa. Toda a morte apanha de surpresa, ainda que seja inevitável. Não existe imortalidade a não ser para a obra que fica da pessoa, neste caso de Saramago.

José Saramago parafraseou Ricardo Reis quando este escreveu: "Nada fica de nada". Para o escritor português "nem ficam as obras".

Mas ficam! Quanto mais não seja na prateleira lá de casa. Na memória. No facto de ter feito a minha vida de estudante à volta de testes e exames que incluiam as ideias e palavras de Saramago. E isso fica.

Não tenho feito grandes coisas nesta vida, mas pelo menos consegui uma: assistir a uma palestra formidável de José Saramago aqui há 6 anos, em Braga.

Eu quero lá saber das divergências com Deus, o País, ou o comunismo. Sei que gostava das palavras, das estórias, e esse legado fica para sempre. Para lermos aos filhos, netos e a quem mais queira aprender o mágico mundo de juntar letras a fim de dar ao mundo uma mensagem...sobre a blimunda sete-luas e o bastasar sete-sóis. Não é lindo?

quinta-feira, maio 20, 2010

por vezes o sol que varre as estradas é injusto.
porque parece chuva, para alguns.
uma chuva intensa, amarga, que queima as lágrimas
que querem sair. para limpar - dizem. para desabafar - relatam. para expelir - confirmam outros.

o sino não pára de tocar.
toca sem parar.
toca. toca. toca.

o padre fala para ouvidos moucos. porque a dor é surda.
a dor é um casaco impermeável.
é fechar as portas do nosso mundo ao mundo.

os abraços e beijos são vazios.
corridos a pó, a vento.

um choro com pauta
arranca um coro de soluços.
acordes num anfiteatro branco,
de mármore.

um anfiteatro que nos espera. a todos. sem excepção.

o amor enterra-se, mas não morre.
cai terra, caem flores.

mas o amor...
como está escrito na bíblia...
esse...
tudo pode, tudo crê, tudo sofre, tudo espera.

segunda-feira, abril 26, 2010

Trechos de uma alma desalmada.

ela olhava-o de soslaio. acomodava a cabeça no colo e pintava-lhe o céu no rosto.
bebia-lhe da frescura de um olhar deserto.
borrava-lhe a cara de beijos tão soltos quanto o vento. e a isto chamava amor.
porque o amor é o que o Homem quiser.

sábado, abril 24, 2010

as pessoas metem-me medo. assustam-me.
não trazem facas, nem pistolas, nem maus olhados.
são ignorantes.
e isso rompe mais sangue, do que qualquer facada intencionada.

terça-feira, abril 13, 2010

domingo, abril 11, 2010

aldeia com gente

o caminho não é estreito. é muito estreito.
curva atrás de curva. não passam dois carros. mas faz-se por isso.
entalados entre duas montanhas, subimos a estrada até à Ermida de Ponte da Barca.
o carro só consegue chegar em primeira.
passa verde. passa pedra. passa vento. e passa muito sol.

chegámos à Ermida. acima de nós o céu. abaixo o mundo.
em frente aos olhos uma aldeia com gente: a Ermida de Ponte da Barca.

um homem com chapéu, um olhar gasto e feliz apresenta-nos as casinhas em pedra, o museu da aldeia, o único café, a Igreja dos seis santos a senhora mais velha da Ermida e a criança mais nova - das que restam.

Apresenta. Não se queixa.

Passa uma vaca e ouve-se o mugir de umas tantas outras. Cheira a merda.
"Cuidado". Não vá, às vezes, pisar. "Que se foda", dizem.
Quando a natureza é maior que o Homem. Que se foda mesmo.

Gente genuína. Gente com aldeia. Aldeia com gente.

A ver, a partir do dia 13 Abril, em www.localvisao.tv, no distrito de Viana. [entre muitas outras coisas]

sexta-feira, abril 02, 2010

a playlist da joana



"If God has a master plan. He only understands. I hope is from your eyes, He is seeing through."

quinta-feira, março 25, 2010

As mãos de Júlia Ramalho II

Baptista-Bastos escreveu o título número um. Prosseguia em lua-de-mel por este Portugal fora quando conheceu Júlia Ramalho - e toca a registar as mãos de Júlia na imprensa portuguesa. Eu decidi escrever o II (que me perdoe o outro jornalista).

Para lá de Barcelos, existe um sítio que se chama Galegos S. Martinho. E aqui existe uma senhora com mãos de condão. É com pessoas como Júlia Ramalho que me entusiasmo na profissão. São estas que valem a pena e que conseguem arrancar um sorriso nos dias a fio que se leva com alguma ingratidão.
Eu gosto do que faço porque conheço pessoas especiais. Pessoas que não ouviria falar se não fosse pelas reportagens locais. Nestas pessoas, não há azáfama, nem correria, nem bocejos de preguiça. Existe uma alma. Um empenho.
Júlia Ramalho trabalha figuras do imaginário, de Barcelos, do que as pessoas lhe encomendam. A avó, Rosa Ramalho, já tinha jeito para o artesanato na época do antigo regime - não teve oportunidade de mostrar essa graça. A neta nasceu com o dom e soube-o aplicar. Em casa tem uma oficina onde estraga as próprias mãos a dar mimos ao barro; tem também uma espécie de museu onde guarda as peças mais bonitas e com muita estória. Daquelas que são sussurradas no ouvido - nunca diante de um microfone. Portanto, se quiserem ouvir estas estórias, preencher um pouco mais de alguns dos dias vazios, Galegos S. Martinho, onde está Júlia Ramalho (devidamente sinalizada) é uma personagem e tanto, com a vantagem de ser verdadeira...ainda que pareça saída de um livro.

domingo, março 14, 2010

Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, in Poemas (1951)

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

"Há sempre um tempo anterior ao nosso tempo, não é?"
Pepetela

Eu ando a ler esse tempo, ou seja, posts antigos...lame, I know.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010



as memórias esmorecem.
não sei se é com as mãos que as sacodimos, ou
se, simplesmente migram com o vento.
a única certeza é que todos nós vamos embora.
migramos.
esperando sempre que haja alguém no último parágrafo.
quase sempre nunca há. estão todos na página anterior.
quase.

sábado, janeiro 23, 2010

Por mim, ia rio fora até encontrar o meu mar.
Navegar nas montanhas das ondas,
refrescar na saliva da espuma,
e depois,
caminhar até ao manto salgado, na berma da areia.
E, por lá, deixar-me ao abandono.
Esquecer-me.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Lhasa voa pelos céus




Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia

Me acerco al agua
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo

Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo

Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma

Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia

Me acerco al fuego
Que todo lo quema
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo

Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo

Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma

domingo, janeiro 03, 2010

Primeira lição do ano [e última do ano anterior]

Mais vale um que saiba mandar, do que cem a trabalhar.


It's not going to stop 'till you wise up. so just give up.

Às vezes mais valia chover sapos para cima de algumas pessoas. Se bem que isso poderia ser um privilégio.

terça-feira, dezembro 29, 2009



A Alice pergunta ao gato que caminho tomar. O gato responde que depende do lugar. A Alice diz que isso não importa, então, o gato diz que também não importa que caminho tomar.

Make it simple, never easy.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

o mar atravessou-me a cabeça. houve uma enchente. uma inundação. e as ondas batem, batem, batem. e os salpicos levitam, levitam, levitam.
e as ondas, e os salpicos, e o mar.
quando fecho os olhos, parece que o mar se fecha dentro de mim.

terça-feira, novembro 24, 2009

Localvisão TV

Não tenho muito jeito para promover ou fazer publicidade ao que quer que seja. Mas tenho (bastante) jeito para partilhar o que acho especial e distinto.

A partir de agora estou à distância de um clic:-)

www.localvisao.tv

Basta entrar no site, clicar no distrito pretendido e na capital de distrito.
Eu estou nos distritos do Porto, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. Mais Porto e Aveiro.

Também estamos no sapo vídeos através da busca "localvisão" e respectiva cidade/concelho.

Estamos a começar, e portanto, temos todos os constrangimentos de quem começa. Mas, como toda a gente que inicia algo, estamos cheios de energia, ideias, vontade e ousadia.

Eu já fiz a minha parte e vocês? ;)

segunda-feira, outubro 26, 2009



"Dream burn but in ashes are gold".
o sol está nascer.
de mim para o mundo.
à medida que o caixão passa, o sol pousa no asfalto.
ela não vê o corpo nu. mas o sol faz transparecer a madeira.
e a música dos sinos é muda para quase todos os ouvidos.
16h16.
há um sapateado na procissão solitária do cemitério.
há uma vida a tombar,
há uma sombra melancólica que ninguém faz caso.
e há um ranger. devem ser os anjos a abrir as portas.
17h17.

terça-feira, outubro 06, 2009

o ceú não é azul, é verde.
no chão forrado de amarelo sujo, cantam rotas com sabor a vinho e queijo.
e sob a onda da serra, há um velho que espreita o futuro.
mas ali não há vindouro. há antepassado.
e no rastilho da tradição, só um som se apressa: o dos bois e o das vacas...mu...MU.

segunda-feira, setembro 21, 2009

au revoir simone

às vezes somos como as avestruzes, enfiamos a cabeça na rotina do dia-a-dia, e esquecemos tanta coisa maravilhosa que vive em paralelismo constante com essa rotina.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Mat Hall é o piloto australiano que voou no Red Bull Air Race e aterrou no terceiro lugar da corrida. Esteve há pouco [22h15] em directo para o canal 9 da televisão do seu país, a partir dos estúdios da SIC/Porto.
Veio desde o hotel, onde está hospedado, sozinho, sem aquela coisa dos assessores, ao contrário da maioria dos convidados do nosso portugalex. Quando a emissão foi para o ar, a partir da primeira edição da manhã na Austrália, os jornalistas animados, mantiveram um diálogo informal e descontraído com o piloto - com gargalhadas à mistura. A entrevista acabou, e ainda pudemos ouvir a emissão australiana a quebrar para intervalo...com música [fixe]...ao contrário do que acontece no nosso portugalex, onde as edições da manhã, comparativamente, são mais apagadas e ásperas.
E somos um povo latino!
Na escola (em Rio Tinto) do meu irmão existem dois lavatórios para mais de cem crianças (estimativa generosa - são muitas muitas mais). Ou seja, o plano de contingência contra a Gripe A, naquela escola do ensino básico, é pedir aos pais que comprem toalhetes para que os miúdos desinfectem as mãos...em tempo útil...porque 15 minutos de intervalo passam rápido para que mais de cem alunos lavem as mãos em DOIS lavatórios, antes de emborcarem o lanche.

Mas é como diz o cartaz do Valentim...

"Em Gondomar, os gondomarenses é que sabem".

segunda-feira, setembro 07, 2009

Mano(de 8 anos): A Ferreira Leite é de que partido?
Joana: PSD - Partido Social-Democrata.
M.: e o Sócrates?
J.: PS - Partido Socialista
M.: e aquele Portas ou lá o que é?
J.: chama-se Paulo Portas, é do PP - Partido Popular
M.: e qual é o melhor?
J.: hmm...

quinta-feira, setembro 03, 2009

muitas vezes olhamos o relógio e vemos os ponteiros passarem. sem alma. esquecemo-nos que com eles - os ponteiros - passa a vida, e tudo o que ela é para nós: o que amamos, o que amamos menos, o que detestamos, o prazer, os desgostos, as pessoas, o lazer e o trabalho.
e no segundo em que admiramos o ponteiro do relógio, apercebemo-nos que a vida passa realmente rápido, a uma velocidade veloz, tipo TGV.
e depois como consequência, as perguntas fazem nock-nock: como aproveitamos o tempo? com quem? a fazer o quê? gastámos mais tempo a rir ou a lamentar? a esforçar ou a reclamar?
...
isto para dizer que ontem fiz uma coisa, da qual gosto muito, mas - há sempre um mas - faço pouco. fui visitar a poesia, onde ela vive ao seu mais alto rigor. onde sangra cada palavra, onde levita a cada autor, que através dela ganha presença.
...
a poesia sussurou-me a liberdade dos sonhos - possíveis - lembrou-me do que quero fazer, de tarefas que tinha arquivado na caixa dos dias que ficam na arrecadação.
...
e vou fazer. vou vestir e maquilhar a cores vivas o que a vida escreveu para mim, o que eu tinha esquecido na mesa do escritório, debaixo da papelada do dia-a-dia.

terça-feira, agosto 25, 2009

Já descobri o problema das minhas dores de cabeça: a carris do lado esquerdo do cérebro tem frequentemente horas de ponta. Sonhos que se atropelam. Eles que se entendam, que eu - como diz o Supremo - tenho mais do que fazer.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Enfim, rendida ao twitter, tenho morada aqui.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Por este andar, um destes dias, acredito [a sério] que dou uns toques na informação sobre futebol.

quarta-feira, agosto 12, 2009

- Avó, Avó!!
- Ahhh, quem és tu? Ai, que tenho mais uma neta e não sabia.


Olhos rasgados até ao passado que já vai longo, de uma vida que dura há 89 anos.

[Detesto estes números: 79, 89, 99. Dá a sensação de uma pausa, de um tempo maior ao real, até à próxima estação da idade.]

Cabelos brancos, unhas pretas de muito campo, pernas de muito andar até à igreja. Pele enrugada de muito criar. Mãos gastas de muito trabalhar.
Mente cansada da muita catequese que deu. De muitas estórias decoradas.
Mente sumida.
Transparente. Apagada.

O que não é mau de todo.

Pode alhear-se dos conflitos vazios entre filhos.
Do filho que não fala, mas grita.
Da morte precoce do marido que "sempre foi bom".
Aliás, este é dos poucos vértices atravesssados na sua vida, que não esquece.

Só um segundo. Ahhh onde vives? Ahh, pois, eu criei-te, peguei-te ao colo, e dava-te de comer.

Sim, Avó, é verdade.
Não é avó de sangue. Mas é avó de vida.

E, comove-me, o aceno pausado que me faz na despedida, a desejar-me "boa viagem".
A não saber, se esta será a última vez, que nos vemos.

É o mistério da vida: nunca sabemos.

terça-feira, agosto 11, 2009

Faz-me espécie...
que pessoas com educação, formação, adultas, em lugares de requinte,
me digam que não entendem como há outras tantas pessoas que apostam em mestrados, em continuar a estudar, a ir para fora, enfim, a esforçar-se.

Eu resposto:

Porque há pessoas que quando olham o mundo e vêem sol, sabem que a outra metade é sombra, e vice-versa.
Porque há pessoas que gostam de viver. Que não se acomodam.
E, sobretudo, não precisam de saltos altos para crescer.

terça-feira, julho 28, 2009

da ausência.
há dias que são sumidos.
perdidos no ar.
cerimónia fúnebre. apenas. isso.

quarta-feira, julho 22, 2009

uma manhã de neblina
faz aflição dentro do mar
que navega no peito,
antevê tempestade
gota
a
gota

o respiro da onda
vai em lume brando.
caminhando
contra a angústia
de uma saudade
resistente.

o barco morre
na linha do horizonte
onde
se espera, em esperança afiada,
um sol
vermelho, como o sangue
redondo, como o mundo.

domingo, julho 19, 2009

E hoje também é notícia... [:)]

o aniversário do mano, na infantil maratona dos 8.
Parabéns, principezinho!
O tal macaco frente à sua trupe azul e branca, no Dragão, mais parece uma daquelas sessões do reino de deus/iurd. O que o tipo no púlpito diz, é motivo de eco parolo inquestionável. Muito próximo do nazismo que nunca vivi.

sexta-feira, julho 10, 2009

Moment,
Homent.

A Avenida dos Aliados, no Porto, é palco para uma exposição que faz pensar.
Homent.
Uma fila de homens, coloridos, posicionados ao longo do corredor central da cidade.
Homent sozinho. Homent a sorrir. Homent triste. Homent feliz.

Nós Homent.

quarta-feira, julho 01, 2009

"Permanecem o Amor, a Fé e a Esperança, mas o maior deles é o Amor".

sexta-feira, junho 12, 2009

Crónica de um Amor à venda

Saíste-me cara, tu. Fizeste a mala e deixaste-me o odor de todos os lençóis gastos em filosofias angustiantes de um prazer adiado.
Não restou uma unha tua roída, caída ao chão, abandonada.
Foste embora. E foi isso. Empacotaste roupa, objectos e memórias. Levaste contigo todas as sinfonias. Não tive herança. Apenas uma placa colada na janela da frente, onde se lê: “Amor à venda”.
Procurei-te em todos os recantos de uma casa cheia de nada. Foste embora e contigo foram todas as memórias. As lembranças sumiram-se dos metros quadrados da habitação recheada de vazio. Restou a ausência. A tua. E com ela convivo. Trato-a bem. Afinal, tu és ela - a ausência.
Acordo com o hálito podre da tua falta. Deito-me enroscado na tua saudade.
Permaneço viciado naquele canto do armário onde tu guardavas a tua mala. Busco alguma memória que não tenhas enfiado na bagagem do carro. E agora meteste-te ao destino. E criaste a metamorfose que me consome e vicia. Sou capaz de ausência e nada mais. Abraço-me a mim, que é o mesmo que abraçar o nada. Tu és nada. És a ausência. A ausência vestida de dor.
Ontem percebi por que razão as pessoas se suicidam: não é por falta de, mas por excesso de. Excesso de ausência. Excesso de ti. Devias ter empacotado tudo. A tua ausência também. Metias na mala escura a saudade e o teu hálito podre. Deixavas-me sossegado. Ias embora sem fazer o mínimo de barulho.
O problema é que fizeste ruído ao bater com a porta. Uma pancada forte. Ainda sinto no coração. Está trémulo. Resiste, é verdade. Mas continua em estado de choque porque nunca se bate com a porta, nunca se faz ruído ao sair de casa. Há sempre aquela remota hipótese de os vizinhos acordarem, haver um enfarte, sei lá.
Eu preocupo-me, sabes. Não gosto de enfartes. Mas gosto de memórias. Foste má. Lançaste-te ao destino. E agora ocorre-me que também me levaste contigo. Sim, só agora. Fui junto com as memórias. E isso dói-me. Não devia ter ido. Dói-me e comove-me. Dói-me porque me tratas sem pudor. E, depois, comove-me, porque me queres lembrar.
Pois, eu sou mais do tipo apagar. Erase. Pareço uma gaja, deves estar a pensar. 'Não aguenta uma pancadinha no coração e fica logo logo trémulo'. Já não me recordo quem disse, mas pelos vistos os homens podem apanhar certas e determinadas estirpes femininas e vice-versa.
Agora tenho o coração a arejar. Entra por lá ar. Por acaso nem me agrada. Mas foste tu quem me ensinou: arejar. E como sempre te fui obediente, cá estou arejar, sôfrego na tua ausência, fiel à tua saudade, agarrado à tua aparição.

quarta-feira, junho 03, 2009

Melros

A P. disse-me: "se vires melros de bico amarelo significa boa-nova".
E eu digo: Há males que vêm por bem. Ou assim quero crer [já que vi três melros de bico amarelo, e duas das 'novas' não foram boas].

segunda-feira, junho 01, 2009

De facto,
quem é pequenino é pequenino
e quem é grande é grande
mesmo que não seja Grande.

sexta-feira, maio 29, 2009

Algo me escapa

A campanha portuguesa na corrida para um lugar no Parlamento Europeu, está um tanto ao quanto desfocada. Se é uma campanha para um lugar europeu, não é lógico que se fale de um imposto europeu, e de medidas europeias, e de assuntos europeus com ponte para os assuntos nacionais? Ou estarei enganada?
É que o definhar de discursos políticos por parte dos candidatos considerados 'maiores', não passam de guerrinhas de bastidores, e de um cuspir de bocas foleiras de quem está mais preocupado em afirmar a própria imagem, do que afirmar o País na Europa.

quarta-feira, maio 20, 2009

Cenário pidesco

Um professora de uma escola EB 2,3 de Espinho em vez de se cingir aos assuntos inerentes à sua disciplina, abordou temas da vida sexual, de uma forma, ao que parece pela gravação pública, imprópria para meninos entre os 12 e os 13 anos.
A "senhora doutora", como gosta de ser anunciada, incorre agora numa pena que pode ir à própria demissão.
Só que a estória não se fica por aqui: não é que a aluna que não gostou dos termos grosseiros da linguagem utilizada pela "senhora doutora", também arrisca-se a ser punida. Porquê? Porque gravou o palavreado sem nível, a autoridade pidesca e as ameaças da professora. E aparelhos electrónicos não são autorizados nas salas de aula.

Ou seja, se a aluna não tivesse gravado, a turma continuaria a ter que suportar uma professora que desvaloriza a própria profissão. A professora não seria castigada, mas a aluna também não.

Esta mensagem não é um bocadinho a querer dizer: meninos não dêem que fazer nem à DREN, nem ao Ministério, e continuem na boa. Somos um país à beira mar plantado. E este é o espírito.

segunda-feira, maio 18, 2009

Dia Internacional do Museu e Serralves

Segunda-feira. Metereologia indica sol. O principezinho sem aulas. Dia Internacional do Museu.

Foi só seguir estes sinais do mapa de hoje, para me lembrar da Fundação de Serralves. Do seu Museu, e de que hoje a entrada não tinha barreiras.

Vai daí, pude apreciar as boas fotografias de Guy Tillim, fotógrafo sul-africano, quem registou os conflitos que perseguem os países africanos do período pós-colonial, a exemplo disso, Congo, Angola e Moçambique.

Mas quem lá está a dar nas vistas é a galesa Bethan Huws. Esta artista fez-me entrar na máquina do tempo, e recordar os bons velhos tempos que passei na Tate Modern. Bethan tem por base a corrente artística conceptual, cujo pai é Marcel Duchamp. O mesmo é dizer que a sua arte tanto pode ser liberta por aguarelas feitas a partir da sua memória infantil, como de objectos da nossa rotina diária [garrafas de vidro, por exemplo] que têm subjacente um outro significado que não o primeiro por nós atribuído.

Mas o curioso, para além de palavras com mensagens tatuadas em vitrines, é um falso chão colocado acima do chão real de Serralves. A artista quis representar o chão como o alicerce da nossa presença no mundo.

A minha parte preferida foi mesmo a arte do meu irmão a rebolar na relva dos jardins do Museu. A cada cambalhota, o meu coração dava outra.

[Isto é só para não dizerem que escrevo apenas tótózadas surrealistas, sem significado aparente. Este texto é real]

sexta-feira, maio 15, 2009

Só.
Gosto da companhia de estar só. De ao meu lado ter um lugar vazio, cheio de mim.
Gosto de antíteses, e de ser diferente. De pensarem que nasci com trissomia 21. 2+1=3. A conta de Deus.
Gosto de viver em prelúdios constantes e prolepses defeituosas. Gosto de no armário encontrar dependurada numa cruzeta velha e partida, a minha alma.
Só.
Gosto da valsa amarga de uma rua vazia. Gosto de caminhar mil vezes na mesma rua, até que esta me diga "olá". Gosto da palavra 'adeus'. Gosto da música pimba do vizinho. De obras. De despertadores. De acordar cedo. De viajar no tempo. De ter um dia meu. E de o empacotar numa mala de sonhos vazios e sós.
Só.
Gosto do que o outro não gosta. Venero o que o mundo afasta. Gosto.
Gosto de pontos finais e de parágrafos. Gosto que não me entendam e me chamem chata. Gosto do mistério de não saber os que as pessoas pensam de mim. E de, no fundo de mim, fazer delas personagens, atribuir-lhes nomes, que elas não sabem. De lhes desenhar uma estória. Oferecer-lhes um destino, à minha escolha.
Só.
Gritar e ouvir o meu eco. Vê-lo. Senti-lo. Ser o meu eco.
Gosto de ter olhos cor de azeitona.
De me enfiar em caixas para cair em asfixia.
Só.
Gosto de ler dicionários como se fossem literatura. Gosto de figuras de estilo.
Gosto de matemática. De fazer contas por cabeça, até perder todos os meus cabelos.
Só.
Gosto da palavra só. Enfiá-la no bolso como uma arma. E apontá-la quando cães invadirem o meu espaço, e me ladrarem alto. Para os afugentar. Para os acalmar. Para que percam todos os dentes. Para que empurrem a palavra 'só' para um qualquer gueto. Para que nela, nasçam versos de um poema constante de quem gosta de estar só. E nisso, não ver nenhum mal.

sábado, maio 02, 2009

O relógio relatava que o dia ia longo, quando B. atravessou a larga avenida de Liverpool St., em Londres. Cansado, percorreu a custo a estação de metro da também cansada Liverpool Station. Era dia de semana. Muitos corpos percorriam aquele corredor cinzento da estação. B. encontrava-se esgotado e embrulhado em malas pesadas e cheias de nada. O único pensamento que lhe ocorria era qual o estado de cada um dos corações guardado em cada um daqueles corpos que lhe derrubavam o equilíbrio. Foi quando venceu o último degrau das escadas que o guiavam até à sua plataforma que B. se deu conta de quem iria estar à sua espera no quarto, ainda desconhecido, quando lá chegasse: a solidão. E, não saberia, como lhe cumprimentar. B. chegou ao quarto, à solidão.

- Boa tarde, senhora Solidão.
-
- Boa tarde. Mais uma tentativa.
-

A solidão abraçou-o, mas B. só queria um aperto de mão.
Chorou. Chorou porque tinha saudades da Mãe.
Foi quando viu a Mãe na mala. Estava lá. Em forma de bilhete. O mais bonito bilhete.
Para B. mostrar ao mundo que tinha o Mundo. Porque tinha a Mãe.

Feliz dia da Mãe, Mãe.

quinta-feira, abril 30, 2009

...

Em certos dias, nem sabemos porquê sentimo-nos estranhamente perto daquelas coisas que buscamos muito e continuam,no entanto, perdidas dentro da nossa casa.

José Tolentino Mendonça

Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós, e estranhamente nos vêm ter às mãos. Assim, sem aviso prévio. Encontram-nos desarmados, carentes. É, por isso, que gosto tanto da poesia. A poesia é Deus. Deus apenas. Sem religião. A sua beleza consiste na certeza dela ser Deus, sem ninguém o saber, e todos o sentirem.
Frases há, que são socos. Badaladas no estômago. Imagens beatificadas. Encurraladas numa caixa de Pandora. E de lá saem, em forma gasosa para nos dar cabo de mais uma manhã. Mais uma. Em que lutamos. O mundo aberto e nós fechados. Contra o vento, num quarto circunscrito de quatro paredes. Não, oito.
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós. Antes de nascermos. De forma a cumprir o destino. Aquele que ninguém crê, e todos o seguem. Sem grandes interrogações. Na luta de cada manhã. Mais uma para nos lembrar: que talvez será naquela manhã que o mundo virará do avesso, para assim ficar composto.justo.direito.sonhado.arrumado.

sexta-feira, abril 24, 2009

há socos de vários tipos.
de paixão.
de amor.
de ódio.
de compaixão.
de solidariedade.
há socos de prazer e outros de dor.

B. queria sentir um soco. qualquer um que fosse. só para se sentir vivo.

quarta-feira, abril 08, 2009

Gosto de fotografia. Percebo pouco. Mas gosto. Muito.

Não páras quieta

Esta era a frase predilecta da Mãe quando ralhava comigo em pequena.

Não páro quieta mesmo:

http://www.flickr.com/photos/planetab612/

terça-feira, abril 07, 2009

O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse hoje que não gostava de desempenhar tal cargo num País em dificuldades[como é o caso de Portugal]. Contudo, dadas as circunstâncias, devemos dar o nosso melhor - ainda desabafou.

E eu concordo e subscrevo aquelas palavras: eu, por meu turno, também não me apraz lá muito ser cidadã deste País. Podia-me ter calhado na roda da sorte outro bem melhor, mas também podia ser pior. Portanto, dadas as circunstâncias, tento fazer o meu melhor.

É este um pouco o espírito português: ninguém gosta, todos lamentam, faz-se o melhor.

quinta-feira, abril 02, 2009

terça-feira, março 31, 2009

je ne regret rien

Vejo-me sentada numa cadeira de uma mesa de uma das salas de uma determinada empresa de recursos humanos. Pedem-me para fazer testes. Psicotécnicos. Aqueles cheios de figuras geométricas. De palavras. Tudo desordenado. Para ordenar. Vejo-me e revejo-me. E ao colocar ordem nas figuras e palavras catalogadas abaixo dos meus olhos, rasgo tudo em pensamento. Assassino aqueles papéis mentirosos e insultuosos. Deixo-os morrer a conta-gotas. Entregues à dor.

Depois de tanta tinta borrada num currículo elaborado a custo [quer por mim, quer por aqueles que incondicionalmente tratam de mim]. a á r d u o custo. pedem-me para fazer uns testes. Como se fossem estes testes que traduzissem a minha sanidade intelectual.

[o título quer transparecer que tudo o que consta na minha vida foi por puro divertimento, prazer e emoção. feito a custo, mas também muito sonhado, por isso sou feliz, ainda assim, ainda vivendo e convivendo no País torpe de Eça]

sábado, março 21, 2009

...a gente aceita as coisas sem as pensar, deve ser a defesa instintiva da espécie e da paz social. mesmo as coisas mais superficiais. a gente leva tempo a aprender as regras de trânsito num certo bairro e um dia mudam as regras e nunca ninguém pergunta porquê. a gente aceita tudo como aceita as pedras e as moscas, o mais que pode é sacudi-las mas não as discute...

Vergílio Ferreira, em nome da terra

domingo, março 08, 2009

insólito caso

quatro da manhã...
faltam uns escassos segundos para passar a película dos sonhos - - -

os pesadelos têm sessão marcada para as seis horas. a fotografia quer expandir-se até ao horizonte de uma madrugada azul.

alguém me diz, uma voz à solta e desprendida: rumo ao norte dos passos gélidos, das pegadas mórbidas.

relutante, a fotografia conta um barco a navegar horizonte fora...conta, também, um corpo coberto por cores vivas, apertado pelo desejo de tocar na linha horizontal da madrugada azul.

calma.
o horizonte não gosta de ser acordado de rompante. precisa de um dedo de cada vez. enfim, de um mimo...para a aguarela da madrugada azul não mudar de cor.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

o coração com mais um ano



Daqui a pouco [são 23h40] vou estar um ano mais velha. E como todos os 'daqui a pouco' de anos anteriores, o giradiscos propõe a mesma música. Build up dos King of Convenience. Às vezes, pergunto-me se as pessoas ouvem o giradiscos que toca dentro de mim. É que ouço tão alto. E se vêem os video clip. É que também vejo os cenários.

Eu sei. Patologia grave, esta. A de envelhecer.

domingo, fevereiro 08, 2009



o pássaro refugia-se do lado de fora da janela. observo-o. invejo-o. tem as penas molhadas. é todo preto. e olha-me nos olhos. sem medo. ou eu não vejo o medo. está ali, apenas. a olhar. não é por mim, é pela música. fica ali parado. molhado pela liberdade, e sem medo. os seus olhos tornam-se espadas. afugenta-me. morde-me com o olhar. percebo que me quer dali para fora. empurra-me, e puxa a música para ele - só para ele. escondo-me por detrás da porta. a música pára. e ele voa vagabundo como a liberdade.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

"a ciência pesa tanto e a vida é tão breve"



dias há que se parecem com o som de um violino. ele tão pesado nestas mãos tão leves. as notas penduram-se hirtas neste corpo tão desinteressado. o violino escolhe acomodar-se no ombro discreto - pouco robusto. dias há em que a chuva que caí no chão não é chuva. é música. são notas de um violino desfeitas. são partituras amarrotadas. são gotas transparentes, deitadas ao chão sem pudor - sem misericórdia. é água que caí do céu e ninguém quer.

há dias, em que o destino decide enfiar uma música na cabeça, com um fim único: arrasar.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

o nevoeiro que vestiu o dia, fez-me lembrar o ensaio sobre a cegueira, e de como nos escondemos debaixo do berço do coração. de como o camuflamos. de como vemos o que nos dão a ver, e não vemos o que deveriamos ver.

porque

'o essencial é invísivel aos olhos'.

meeting in the middle II



o I que se acuse=)

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Lisa Ekdahl chegou-me aos ouvidos através de uma amiga - estava ainda na bruma de Londres. Partilho I will be blessed, ali ao lado, para bafejar 2009 com sorte, já que a gripe anda ai...

terça-feira, dezembro 30, 2008

O desemprego sobe a galope, a acompanhar a batuta da crise.
E ouço dizer de quem trabalha, de quem ganha o pão [como se costuma dizer], de quem é profissional:

"Vai assim, e quero lá saber".

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Em tempo de festividades: boas festas!

Cá vai:

Feliz Natal e um próspero Ano de 2009!

É o que o planeta deseja.

terça-feira, dezembro 09, 2008

A. De novo.

De novo A. calcorreia a rua deserta de branco, suja de silêncio. De phones nos ouvidos. Dirige-se a outro mundo. Entra na hora de ponta. De sonhos. Completa a leitura dos passos com as pegadas de um coração esmagado. Sopra ao silêncio na tentativa fugaz de o fazer desaparecer. Tropeça e não caí [salvou o pára-arranca da hora de ponta dos sonhos]. A música toma conta dele, educa-o, conta-lhe estórias - desmaia na sua cabeça. A. enrola-se na borda do passeio, e revê a preto e branco a cor dos sonhos que se agregam no cruzamento nº 7 da hora de ponta. Pára-arranca. Stop. Sinal de cedência de passagem. De prioridade. Rotundas, muitas.
Na borda do passeio revê o poema que lhe pintou a vida. Foge da borda do passeio. O trânsito acalma. Mau sinal. A música muda de faixa, que muda de música. Já não é pára-arranca. Fluí. Escoa. No stop. Sinal de cedência de passagem. De prioridade. Rotundas, muitas. Vira na rua deserta de preto, suja de barulho. Acorda, adormece. Depende dos acordes. Repara. Olha. Vê. Nada: já circula muito rápido. Falhou um estacionamento. E outro. E outro. E tantos. A música muda de faixa, que muda de música. Esquece o poema. Tropeça e caí.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

É isto mesmo!

“Uma vez, na televisão, o Miguel Sousa Tavares perguntou-me porque é que eu não tinha inimigos. Eu respondi que um inimigo dá muito trabalho. Quando nas andanças da vida, alguém é desagradável comigo, deixo-o cair e não perco tempo com ele, muito menos a odiá-lo. Isto não é por bondade, é por gestão das minhas energias e, também, como já tenho dito, porque procuro ter uma visão estética da vida e o ódio e a agressividade são coisas muito feias”.

António Alçada Baptista in A Cor dos Dias, Memórias e Peregrinações

Escritor e editor, morreu ontem, aos 81 anos. Está, deste modo, justificada a chuva do fim-de-semana.

O futebolista vencedor da bola de ouro disse:

"O jogo contra o Brasil foi a brincar".

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Se não for pelo outro, que seja por ti!

Save Our Planet, please!
Artigo do P2 do Público de ontem (via Jornalismo e Comunicação)

"...os mais velhos têm uma ideia do jornalismo como uma missão que se cumpre de serviço público, e também como uma tribo, com laços de solidariedade muito fortes, exportam para fora da redacção as relações de amizade”. Em contrapartida, no caso dos mais novos, é muito diferente a forma como encaram o ofício: “Exercem o jornalismo como uma profissão, com horário de entrada e saída, reclama-se uma estruturação mais completa da profissão e uma regulação maior do acesso.” As amizades fazem-se também “lá fora, na busca de deixar as preocupações na redacção e de ter um espaço para outras ocupações."

Concordo. Todavia, mesmo os (jornalistas) da velha-guarda andam-se a moldar nesta vertente trazida pelos da vanguarda. Parece-me (em olhar distante) que a velha-guarda jornalística informa cheia de vícios. Com mais vaidade do que humildade. Alheada ao mais importante da profissão: o público e ao que este acarreta em termos de responsabilidade social. Alheada aos interesses do público. Quer-me parecer que a leitura deste interesse está fosco. Mas, claro, esta é a voz da vanguarda a falar. E, hoje em dia, a voz da vanguarda pouco vale, porque, como se costuma dizer, "a idade é um posto" ... a velha-guarda...

terça-feira, dezembro 02, 2008

O planeta e o prémio Dardos

Esta borboleta é louquinha [tal como a Andorinha Sinhá, do Amado], vai daí, atribuíu-me o prémio Dardos, que anda ai ao rubro entre blogues. Já foi em Outubro, mas só agora comecei a acordar para a minha órbita com olhos de ver. Vi os voos da borboleta durante a limpeza matinal do planeta.
Cá vai:


O Prémio Dardos reconhece o valor de cada blogger ao transmitir valores culturais, éticos, literários ou pessoais e que de alguma forma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto naquilo que escrevem. Por outro lado, esta é também uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.

Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a imagem;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3 - Escolher quinze outros blogs aos quais entregar o Prémio Dardos.

Como prezo a órbita ali do lado, e para lançar o caos [o caos respira imagem, dizia o Bacon] e como, para mim, a minha lista (e, por isso, é a minha lista) "transmite valores culturais, éticos, literários e pessoais", o prémio Dardos é para a lista.