um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

parabéns avô

sentia sempre pena quando o via a assomar-se a casa
com a enxada na mão.

trazia suor no rosto,
cansaço ao peito - respiração queimada pelo sol.

eu admirava-o do portão da casa
ao vê-lo, assim, robusto,
como uma velha árvore.

mas sentia pena,
daquela
que dá um beliscão no coração.

um velho com uma enxada na mão
a trabalhar duro, debaixo do sol duro.

em pouco tempo, estariam vivos
(estamos vivos)
tomates, alface, cebola, cenoura, batata.
sopa para todos - nunca nos faltou nada.

nunca nos fizeste faltar nada.
nem à mesa, nem ao abrigo dos dias.

pousavas as galochas incriminadas de terra
lavavas as mãos,
as mãos continuavam sujas,
do dia de hoje e do dia de ontem

Bebias água, rebolavas os lábios no gole
que já foi.

Isto passou, como agora passou mais um minuto.

Hoje abafas o corpo
numa cadeira de muitos corpos.

E quando repousas o corpo, fechas os olhos
e engoles ar,
e expeles ar.
e mais uma vez.

parece uma vida inteira

a entrar e a sair,
da tua boca.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

até à essência -

Amar-te até ao fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.

sábado, fevereiro 21, 2015

Estejamos vivos, então!

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!

Pablo Neruda

domingo, fevereiro 15, 2015

do jogo de palavras...

Entre o tamanho do corpo e o tamanho do passo
Olhemos
Segredos assim
Para aprender a resistência
do preto gracioso.
O meu quebrar
é uma curva branca
e muito mais pobre do que a vida das espécies.
Um risco da idade azul
Ligeiramente falando
Pode estar uma interessante realidade
Em tentar futuros.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

teorias a entranhar

Stephen Hawking, físico, cientista, cosmólogo. Apanhado pelo corredor da vida, aos 21 anos descobriu que fechada em si existia uma doença - esclerose lateral amiotrófica - que não lhe tirou um segundo de vida. Ainda hoje envergonha a ELA (ainda não foi descoberta a cura).
Hawking casou - duas vezes - tem três filhos e três netos. Ensinou, escreveu, publicou, é um exemplo de superação. A Fé não é dada, é conquistada. Acreditada.
O filme sobre a sua vida, A Teoria de Tudo, é um elogio à vida, à mente, à força de vontade, ao Amor. Como ainda li esta semana no livro O Mundo Novo de Eckhart Tolle, a vida vive-nos. É uma lição que custa a entranhar, mas entranha. Vai entranhando.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

'o poema me levará no tempo'

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu


Quando as notas desaparecerem
Do piano que não existe.
Eu encaixo-me no poema
Como um peixe no meio do oceano.
Um vazio preenchido por um tempo
Que está lá
Onde a vida sobrevive.

Tenho saudades de tudo
No meio de nada.

Penduro-me na árvore
Como um pássaro
À espera de voar.

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando tu fores tu
E nós um soneto por acabar.