o futebol é uma vida inteira.
o que aprendemos das bofetadas da vida, e do entusiasmo da vida aplica-se em tudo ao relvado com 22 homens mais um, e uma bola. mais uma série de regras.
ainda na semana passada o peito enchia-se de emoções azuis e brancas. o facebook enchia-se de suspiros portistas, de orgulho e de alegria contagiante.
mas hoje. hoje. há pouco, o peito mingou, o suspiro saia prolongado da boca, a cabeça aterra entre as mãos, e claro, a esperança esmorece.
a filha pergunta: 'estás triste, pai?'
as emoções sentem-se. os gritos calaram-se. ontem foi 'GOLO'. hoje foi 'silêncio'.
Mas
como escreveu o poeta, quem quer passar o bojador tem que passar além da dor. e já se sabe, tudo vale a pena se a alma não é pequena. e uma alma portista é muito grande. chego a pensar que cabe um universo dentro.
todas as lições de vida couberam nos dois jogos entre o Porto e o Bayern.
Primeiro: estar presente numa grande competição como a Liga dos Campeões é uma vitória por si só.
Segundo: o Porto ganhou a uma grande equipa. não precisa provar nada a ninguém. faz o seu caminho com a sua personalidade.
Terceiro: chegou longe, ousou, perdeu. e sim, tanto faz perder por um ou 10. porque tudo na vida vale a pena, vale a pena suar, enfim, tentar. antes tentar do que não ter desafios pelos quais lutar.
Somos Porto. Sou uma portista sossegada.
um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.
terça-feira, abril 21, 2015
segunda-feira, abril 13, 2015
da teoria
o tempo voa, vive no carpe diem,
come de boca fechada,
vegetais e fruta,
açucar rima com avc,
sorri a um estranho,
dá valor aos teus amigos,
trabalha hoje para colheres frutos amanhã,
sê positivo,
deixa o passado onde ele está, lá trás,
dá um passo, segue em frente,
não ligues a quem não te liga,
liga a quem te liga,
sonha mais,
pede menos,
o que interessa é cá dentro,
os bens, as coisas não trazem felicidade,
ri mais,
vive mais,
aproveita todas as oportunidades.
no teu dia-a-dia lembra-te destas palavras.
não condiciones a tua vida por teorias.
come de boca fechada,
vegetais e fruta,
açucar rima com avc,
sorri a um estranho,
dá valor aos teus amigos,
trabalha hoje para colheres frutos amanhã,
sê positivo,
deixa o passado onde ele está, lá trás,
dá um passo, segue em frente,
não ligues a quem não te liga,
liga a quem te liga,
sonha mais,
pede menos,
o que interessa é cá dentro,
os bens, as coisas não trazem felicidade,
ri mais,
vive mais,
aproveita todas as oportunidades.
no teu dia-a-dia lembra-te destas palavras.
não condiciones a tua vida por teorias.
quarta-feira, março 18, 2015
da abundância, Eckhart Tolle - palavras sábias
Quem nós pensamos que somos está intimamente ligado a como nos consideramos tratados pelos outros. Muitas pessoas se queixam de que não recebem um tratamento bom o bastante. “Não me tratam com respeito, atenção, reconhecimento, consideração. Tratam-me como se eu não tivesse valor”, elas dizem. Quando o tratamento é bondoso, elas suspeitam de motivos ocultos. “Os outros querem me manipular, levar vantagem sobre mim. Ninguém me ama.”
Quem elas pensam que são é isto: “Sou um ‘pequeno eu’ carente cujas necessidades não estão sendo satisfeitas.” Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam. Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos.
Se o pensamento de falta – seja de dinheiro, reconhecimento ou amor – se tornou parte de quem pensamos que somos, sempre experimentaremos a falta. Em vez de reconhecermos o que já há de bom na nossa vida, tudo o que vemos é carência. Detectarmos o que existe de positivo na nossa vida é a base de toda a abundância. O fato é o seguinte: seja o que for que nós pensemos que o mundo está nos tirando é isso que estamos tirando do mundo. Agimos assim porque no fundo acreditamos que somos pequenos e que não temos nada a dar.
Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como a sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber. Ninguém pode ganhar o que não dá.
O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo você já possui. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem. Isso inclui a abundância. A lei segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus nesta imagem marcante “Daí, e dar-se-vos-à. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada, sacudida e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.”
A fonte de toda a abundância não está fora de você. Ela é parte de quem você é. Entretanto, comece por admitir e reconhecê-la exteriormente. Veja a plenitude da vida ao seu redor. O calor do sol sobre a sua pele, a exibição de flores magníficas num quiosque de plantas, o sabor de uma fruta suculenta, a sensação no corpo de toda a força da chuva que cai do céu. A plenitude da vida está presente a cada passo. Seu reconhecimento desperta a abundância interior adormecida. Então permita que ela flua para fora.
Só o fato de você sorrir para um estranho já promove uma mínima saída de energia. Você se torna um doador. Pergunte-se com freqüência: “O que eu posso dar neste caso? Como posso prestar um serviço a esta pessoa nesta situação?” Você não precisa ser dono de nada para perceber que tem abundância.
Porém, se sentir com freqüência que a possui, é quase certo que as coisas comecem a acontecer na sua vida. Ela só chega para aqueles que já a têm. Parece um tanto injusto, mas é claro que não é. É uma lei universal. Tanto a fartura quanto a escassez são estados interiores que se manifestam como nossa realidade. Jesus fala sobre isso da seguinte maneira: “Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que não tem”...
sexta-feira, fevereiro 27, 2015
parabéns avô
sentia sempre pena quando o via a assomar-se a casa
com a enxada na mão.
trazia suor no rosto,
cansaço ao peito - respiração queimada pelo sol.
eu admirava-o do portão da casa
ao vê-lo, assim, robusto,
como uma velha árvore.
mas sentia pena,
daquela
que dá um beliscão no coração.
um velho com uma enxada na mão
a trabalhar duro, debaixo do sol duro.
em pouco tempo, estariam vivos
(estamos vivos)
tomates, alface, cebola, cenoura, batata.
sopa para todos - nunca nos faltou nada.
nunca nos fizeste faltar nada.
nem à mesa, nem ao abrigo dos dias.
pousavas as galochas incriminadas de terra
lavavas as mãos,
as mãos continuavam sujas,
do dia de hoje e do dia de ontem
Bebias água, rebolavas os lábios no gole
que já foi.
Isto passou, como agora passou mais um minuto.
Hoje abafas o corpo
numa cadeira de muitos corpos.
E quando repousas o corpo, fechas os olhos
e engoles ar,
e expeles ar.
e mais uma vez.
parece uma vida inteira
a entrar e a sair,
da tua boca.
com a enxada na mão.
trazia suor no rosto,
cansaço ao peito - respiração queimada pelo sol.
eu admirava-o do portão da casa
ao vê-lo, assim, robusto,
como uma velha árvore.
mas sentia pena,
daquela
que dá um beliscão no coração.
um velho com uma enxada na mão
a trabalhar duro, debaixo do sol duro.
em pouco tempo, estariam vivos
(estamos vivos)
tomates, alface, cebola, cenoura, batata.
sopa para todos - nunca nos faltou nada.
nunca nos fizeste faltar nada.
nem à mesa, nem ao abrigo dos dias.
pousavas as galochas incriminadas de terra
lavavas as mãos,
as mãos continuavam sujas,
do dia de hoje e do dia de ontem
Bebias água, rebolavas os lábios no gole
que já foi.
Isto passou, como agora passou mais um minuto.
Hoje abafas o corpo
numa cadeira de muitos corpos.
E quando repousas o corpo, fechas os olhos
e engoles ar,
e expeles ar.
e mais uma vez.
parece uma vida inteira
a entrar e a sair,
da tua boca.
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
até à essência -
Amar-te até ao fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.
sábado, fevereiro 21, 2015
Estejamos vivos, então!
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
domingo, fevereiro 15, 2015
do jogo de palavras...
Entre o tamanho do corpo e o tamanho do passo
Olhemos
Segredos assim
Para aprender a resistência
do preto gracioso.
O meu quebrar
é uma curva branca
e muito mais pobre do que a vida das espécies.
Um risco da idade azul
Ligeiramente falando
Pode estar uma interessante realidade
Em tentar futuros.
Olhemos
Segredos assim
Para aprender a resistência
do preto gracioso.
O meu quebrar
é uma curva branca
e muito mais pobre do que a vida das espécies.
Um risco da idade azul
Ligeiramente falando
Pode estar uma interessante realidade
Em tentar futuros.
segunda-feira, fevereiro 09, 2015
teorias a entranhar
Stephen Hawking, físico, cientista, cosmólogo. Apanhado pelo corredor da vida, aos 21 anos descobriu que fechada em si existia uma doença - esclerose lateral amiotrófica - que não lhe tirou um segundo de vida. Ainda hoje envergonha a ELA (ainda não foi descoberta a cura).
Hawking casou - duas vezes - tem três filhos e três netos. Ensinou, escreveu, publicou, é um exemplo de superação. A Fé não é dada, é conquistada. Acreditada.
O filme sobre a sua vida, A Teoria de Tudo, é um elogio à vida, à mente, à força de vontade, ao Amor. Como ainda li esta semana no livro O Mundo Novo de Eckhart Tolle, a vida vive-nos. É uma lição que custa a entranhar, mas entranha. Vai entranhando.
Hawking casou - duas vezes - tem três filhos e três netos. Ensinou, escreveu, publicou, é um exemplo de superação. A Fé não é dada, é conquistada. Acreditada.
O filme sobre a sua vida, A Teoria de Tudo, é um elogio à vida, à mente, à força de vontade, ao Amor. Como ainda li esta semana no livro O Mundo Novo de Eckhart Tolle, a vida vive-nos. É uma lição que custa a entranhar, mas entranha. Vai entranhando.
quarta-feira, fevereiro 04, 2015
'o poema me levará no tempo'
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando as notas desaparecerem
Do piano que não existe.
Eu encaixo-me no poema
Como um peixe no meio do oceano.
Um vazio preenchido por um tempo
Que está lá
Onde a vida sobrevive.
Tenho saudades de tudo
No meio de nada.
Penduro-me na árvore
Como um pássaro
À espera de voar.
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando tu fores tu
E nós um soneto por acabar.
Quando eu já não for eu
Quando as notas desaparecerem
Do piano que não existe.
Eu encaixo-me no poema
Como um peixe no meio do oceano.
Um vazio preenchido por um tempo
Que está lá
Onde a vida sobrevive.
Tenho saudades de tudo
No meio de nada.
Penduro-me na árvore
Como um pássaro
À espera de voar.
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando tu fores tu
E nós um soneto por acabar.
sábado, janeiro 31, 2015
persianas apunhaladas
Às sete da manhã
as pérolas batem-me à porta.
Eu sorrio em concha
alargo os sonhos e abro muito os braços em jeito de abraço.
Gosto de lâminas a apunhalarem as persianas.
Sinto o corte feliz do sangue em jacto.
Às sete da manhã o sono pára
o sonho continua o desassossego calmo de quem
espera o amor em visita.
Às sete da manhã as persianas são apunhaladas
o sangue corre como sempre correu
E eu sinto o corte feliz de quem ama persianas apunhaladas.
as pérolas batem-me à porta.
Eu sorrio em concha
alargo os sonhos e abro muito os braços em jeito de abraço.
Gosto de lâminas a apunhalarem as persianas.
Sinto o corte feliz do sangue em jacto.
Às sete da manhã o sono pára
o sonho continua o desassossego calmo de quem
espera o amor em visita.
Às sete da manhã as persianas são apunhaladas
o sangue corre como sempre correu
E eu sinto o corte feliz de quem ama persianas apunhaladas.
sexta-feira, janeiro 30, 2015
Ana Luísa Amaral
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral, poetisa portuguesa, in 'anos 90 e agora'.
Ana Luísa Amaral foi a poeta convidada nas Quintas de Leitura deste mês no Teatro do Campo Alegre. Gostaria de escrever em acta tudo o que lá foi dito, conversado, mostrado, demonstrado, cantado, tocado, documentado. Seria pouco para tantas emoções e aprendizagens. Era preciso um copo gigante para sorver toda a magia de palavras lidas e partilhadas.
É bom ouvir a imagem da poesia.
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral, poetisa portuguesa, in 'anos 90 e agora'.
Ana Luísa Amaral foi a poeta convidada nas Quintas de Leitura deste mês no Teatro do Campo Alegre. Gostaria de escrever em acta tudo o que lá foi dito, conversado, mostrado, demonstrado, cantado, tocado, documentado. Seria pouco para tantas emoções e aprendizagens. Era preciso um copo gigante para sorver toda a magia de palavras lidas e partilhadas.
É bom ouvir a imagem da poesia.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
Palma na CdM
É extraordinário um músico entrar em palco, e uma plateia encher a sala suggia da Casa da Música de aplausos, quando ainda o músico não tocou uma canção. Isto aconteceu ontem com o Jorge Palma.
Só a figura faz o serão. O concerto também foi bom. Pareceu um poema ao relento, abrigado debaixo de um céu de estrelas e de uma lua cheia.
Tocou muitas das muitas músicas que lhe valem a carreira de músico, juntou outras que - pessoalmente - dispensava, e falhou outras quantas que trazem saudade. Bebeu água e portou-se bem, o rapaz de cabelo grisalho acompanhado do filho - o vicente - que ficará sempre na sombra do caminho do pai, e sobretudo, deu-me um brilho a este ano que dá os primeiros passos.
Só a figura faz o serão. O concerto também foi bom. Pareceu um poema ao relento, abrigado debaixo de um céu de estrelas e de uma lua cheia.
Tocou muitas das muitas músicas que lhe valem a carreira de músico, juntou outras que - pessoalmente - dispensava, e falhou outras quantas que trazem saudade. Bebeu água e portou-se bem, o rapaz de cabelo grisalho acompanhado do filho - o vicente - que ficará sempre na sombra do caminho do pai, e sobretudo, deu-me um brilho a este ano que dá os primeiros passos.
domingo, janeiro 25, 2015
uma sombra de Londres
Não é uma fotografia turística. É uma imagem que representa uma fase da minha vida. Londres. Uma cidade que esteve quase um ano nos 32 anos que carrego comigo. Foi cinzenta e soalheira ao mesmo tempo. No meu currículo aparece sob forma de mestrado, mas o verdadeiro significado não tem forma, tem conteúdo. Neste conteúdo cabem amigos que foram o suporte para a solidão de muitas horas e uma evolução enquanto ser humano incompreensível aos olhos de quem tem experiências diferentes.
Na ocasião relatei a experiência de Londres num outro blog que criei para a ocasião - como uma divisão da casa, de arrumos, onde arrumamos a tralha que não é de todos os dias.
Em Londres a solidão pode ser uma companhia. Muitos fins-de-semana visitava com a minha solidão os famosos Tate Museam ou o British Museam. Calcorreava as ruas, onde os pubs se exibiam com as suas Pints sem espuma e neste caminhar a cidade apresentava-se vaidosa. Quem gostar de estar rodeado de amigos, família, Londres pode ser uma cidade perigosa, ela própria escolhe quem quer que lá viva. Nós temos que conquistar a cidade para atrair uma vida sã. Londres tornou-se assim uma sombra de mim. Uma experiência de vida. Onde não ir ao Madame Tussauds é uma opção, e ir a um qualquer café rafeiro de um italiano imigrado é o mais provável. Não, não é uma fotografia turística, é uma parte de mim.
quarta-feira, janeiro 21, 2015
não te abandono, não
não te abandono, não.
como o vento não abandona o mar
que
por sua vez
não é abandonado pelas gaivotas.
não te abandono, não.
como não abandono este corpo de todos os dias.
como o coração dentro do peito.
não te abandono, não.
como o vento não abandona o mar
que
por sua vez
não é abandonado pelas gaivotas.
não te abandono, não.
como não abandono este corpo de todos os dias.
como o coração dentro do peito.
não te abandono, não.
terça-feira, outubro 28, 2014
no limite
não há paletes de cores sufcientes para descrever os sentimentos que moram cá dentro e lá ao longe.
há sempre um entre-cores, entre-linhas, entre-qualquer-coisa. é bom. é bom estar no meio, no meio da balança, no equilíbrio. de um lado uma extremidade, do outro lado, outra extremidade. gosto de abrir os braços e aconchegar os pontos limite de cada lado. abraço apertado ao limite de cada realidade. um pé para cada lado, sempre com a cabeça no meio.
há sempre um entre-cores, entre-linhas, entre-qualquer-coisa. é bom. é bom estar no meio, no meio da balança, no equilíbrio. de um lado uma extremidade, do outro lado, outra extremidade. gosto de abrir os braços e aconchegar os pontos limite de cada lado. abraço apertado ao limite de cada realidade. um pé para cada lado, sempre com a cabeça no meio.
sexta-feira, outubro 24, 2014
'ama como a estrada começa'
há um verso do poeta Mário Cesariny que é um dos meus lemas de vida.
'ama como a estrada começa'
de alguma forma este conjunto de palavras dá-me sorte em todas as estradas que se mostram diante de mim - como linha na agulha para continuar a cozer a minha vida.
de novo o verso pousa à minha frente.
eu recordo o verso. amo-o como um filho. e ele ama-me. porque vem sempre até mim.
'ama como a estrada começa'. é o que vou fazer. permitir-me ser feliz com mais esta estrada para percorrer.
sobretudo, sentir que foi a estrada que me escolheu a mim, e não eu a ela.
sinto-me valorizada, reconhecida, positiva e alegre com esta nova oportunidade. sentir que eu própria sou oportunidade.
estou a amar como uma estrada nova começa. cinto posto, a viagem está prestes a começar.
'ama como a estrada começa'
de alguma forma este conjunto de palavras dá-me sorte em todas as estradas que se mostram diante de mim - como linha na agulha para continuar a cozer a minha vida.
de novo o verso pousa à minha frente.
eu recordo o verso. amo-o como um filho. e ele ama-me. porque vem sempre até mim.
'ama como a estrada começa'. é o que vou fazer. permitir-me ser feliz com mais esta estrada para percorrer.
sobretudo, sentir que foi a estrada que me escolheu a mim, e não eu a ela.
sinto-me valorizada, reconhecida, positiva e alegre com esta nova oportunidade. sentir que eu própria sou oportunidade.
estou a amar como uma estrada nova começa. cinto posto, a viagem está prestes a começar.
quinta-feira, setembro 18, 2014
a liliana que há em nós
há dois ou três dias foi publicada uma estória no jornal Público sobre a grávida que perdeu o trabalho por estar...grávida. por querer fazer crescer a natalidade do país. por querer fazer do país um sítio menos velho. por querer contribuir para futuras pensões. por querer contribuir para a economia e desenvolvimento de um país. por responder que sim, ao fim e ao cabo, aos apelos do governo. a liliana é um exemplo de muitas lilianas por ai. engravidou, foi ameaçada e perdeu o emprego.
na obra de Eça de Queirós, muito na moda, agora, lê-se que Portugal é um 'chiqueiro'. e é. gente que diz uma e faz outra. eu vivi este pesadelo quando estive grávida. a dar tudo por tudo. para que fosse deixada ao acaso. para que fosse para o lixo. é assim mesmo que se sente - um lixo. deixa-se de ser 'ser humano para ser um zero à esquerda, à direita, de frente e de trás. a mim nem se deram ao trabalho de me ameaçar, de me substituir. fecharam a porta, nem um obrigada pelo trabalho, nem um 'está despedida', nem uma palavra. gente 'torpe' [lá diz Eça] que é tão chiqueira quanto o país.
na obra de Eça de Queirós, muito na moda, agora, lê-se que Portugal é um 'chiqueiro'. e é. gente que diz uma e faz outra. eu vivi este pesadelo quando estive grávida. a dar tudo por tudo. para que fosse deixada ao acaso. para que fosse para o lixo. é assim mesmo que se sente - um lixo. deixa-se de ser 'ser humano para ser um zero à esquerda, à direita, de frente e de trás. a mim nem se deram ao trabalho de me ameaçar, de me substituir. fecharam a porta, nem um obrigada pelo trabalho, nem um 'está despedida', nem uma palavra. gente 'torpe' [lá diz Eça] que é tão chiqueira quanto o país.
terça-feira, setembro 09, 2014
Deus dá nozes a quem não tem dentes
Deus dá nozes a quem não tem dentes.
uma mulher de corpo bem feito, bonita de cara, pobre de espírito. um homem, jeitoso por sinal, sorridente, a arrotar amabilidades com a mulher - mulher dele, ele, homem dela. os dois com dois filhos - dos dois, ternuras. filhos bonitos. cena de cinema. todos lindos, de férias, ao sol, longe de todos os defeitos, de todos os males - embrulhados numa película de plástico com uma mensagem: frágil, por favor, não toque.
mulher, espírito pobre, do contra, a ser altamente bajulada, idolatrada, pelo resto da família - marido, filha e filho. a mulher adornada de uma ponta à outra, sorriso maquilhado - falso de uma ponta a outra. mais: relógio de marca, biquini de marca, chinelo sujo de marca. daqueles seres que, assim, ao longe, devem ter tudo - um trabalho onde se ganha dinheiro a sério, uma família rica no banco, imune a qualquer anormalidade da vida. por conseguinte, mulher azeda, tiques de uma educação rude, grosseira - do 'sou centro do mundo'.
quando me deparo com pessoas assim, vejo a outra margem - humanos humildes, que lutam pela dignidade da vida, pela saúde, por todas as anormalidades da vida, que maquilham tudo menos o sorriso - e, ainda assim, apanham porrada por todos os lados.
não entendo. custa entender. por que uns amargos, comem nozes sem dentes, e outros doces, passam as passas do Algarve.
uma mulher de corpo bem feito, bonita de cara, pobre de espírito. um homem, jeitoso por sinal, sorridente, a arrotar amabilidades com a mulher - mulher dele, ele, homem dela. os dois com dois filhos - dos dois, ternuras. filhos bonitos. cena de cinema. todos lindos, de férias, ao sol, longe de todos os defeitos, de todos os males - embrulhados numa película de plástico com uma mensagem: frágil, por favor, não toque.
mulher, espírito pobre, do contra, a ser altamente bajulada, idolatrada, pelo resto da família - marido, filha e filho. a mulher adornada de uma ponta à outra, sorriso maquilhado - falso de uma ponta a outra. mais: relógio de marca, biquini de marca, chinelo sujo de marca. daqueles seres que, assim, ao longe, devem ter tudo - um trabalho onde se ganha dinheiro a sério, uma família rica no banco, imune a qualquer anormalidade da vida. por conseguinte, mulher azeda, tiques de uma educação rude, grosseira - do 'sou centro do mundo'.
quando me deparo com pessoas assim, vejo a outra margem - humanos humildes, que lutam pela dignidade da vida, pela saúde, por todas as anormalidades da vida, que maquilham tudo menos o sorriso - e, ainda assim, apanham porrada por todos os lados.
não entendo. custa entender. por que uns amargos, comem nozes sem dentes, e outros doces, passam as passas do Algarve.
sábado, setembro 06, 2014
da anunciação
anunciação. de coisas boas e más. desde sempre, há uma anunciação para cada momento das nossas vidas.
eu tenho uma amiga que se chama Anunciação. todas as vezes que digo 'Anunciação' há necessidade de repetir/anunciar o nome. eu nunca tive esta incerteza na fonética. gostei mais do nome quando conheci a pessoa. foi há três anos na Acapo - associação dos cegos de portugal. reunião marcada numa manhã amena no porto. juntas começamos um projecto nosso que hoje existe em trejeito infantil e que neste trejeito pequeno já deu um livro, e uma amizade. a poesia cresceu na Anunciação, e a minha admiração pela Anunciação anunciava-se a cada dia que íamos ganhando passado. A Anunciação é amblíope tal como eu vejo mal ao perto e preciso de óculos. a amblíopia é um pormenor, apenas para explicar a ligação da minha amiga à Acapo. lembro de entrar na Acapo, e esperava-me uma Anunciação ansiosa por coisas novas, abria muito os olhos na expectativa de me conhecer melhor. Disse sim à poesia, à minha ideia, sem saber se eu era boa ou má - coisas de corajosos e audazes perante a vida. Com o tempo as nossas conversas e os nossos cafés foram mais do que poesia (será possível algo ser mais que poesia?)mais do que as nossas sessões Um Sentido na Poesia. Sempre que tricotamos conversas, regresso a casa com uma admiração profunda por aquela mulher e amiga. espada na mão, garra na alma, alegria difícil no corpo, sorriso para o que der e vier. assim é-me anunciada a Anunciação. a minha amiga.
eu tenho uma amiga que se chama Anunciação. todas as vezes que digo 'Anunciação' há necessidade de repetir/anunciar o nome. eu nunca tive esta incerteza na fonética. gostei mais do nome quando conheci a pessoa. foi há três anos na Acapo - associação dos cegos de portugal. reunião marcada numa manhã amena no porto. juntas começamos um projecto nosso que hoje existe em trejeito infantil e que neste trejeito pequeno já deu um livro, e uma amizade. a poesia cresceu na Anunciação, e a minha admiração pela Anunciação anunciava-se a cada dia que íamos ganhando passado. A Anunciação é amblíope tal como eu vejo mal ao perto e preciso de óculos. a amblíopia é um pormenor, apenas para explicar a ligação da minha amiga à Acapo. lembro de entrar na Acapo, e esperava-me uma Anunciação ansiosa por coisas novas, abria muito os olhos na expectativa de me conhecer melhor. Disse sim à poesia, à minha ideia, sem saber se eu era boa ou má - coisas de corajosos e audazes perante a vida. Com o tempo as nossas conversas e os nossos cafés foram mais do que poesia (será possível algo ser mais que poesia?)mais do que as nossas sessões Um Sentido na Poesia. Sempre que tricotamos conversas, regresso a casa com uma admiração profunda por aquela mulher e amiga. espada na mão, garra na alma, alegria difícil no corpo, sorriso para o que der e vier. assim é-me anunciada a Anunciação. a minha amiga.
segunda-feira, agosto 25, 2014
estórias de metro a metro - all night long
os dias da semana adormeceram. todos. as noites dormem como sempre, à excepção das noites de sexta-feira e de sábado.
não existe noite. os dias continuam das zero horas às zero horas. de sexta-feira ao acordar de domingo.
dá imenso jeito o move do metro na cidade do porto. a malta pode dar corda aos ponteiros que ainda assim não perde a hora da carruagem na estação. mas atenção: andante na mão, porque os revisores também move.
não existe noite. os dias continuam das zero horas às zero horas. de sexta-feira ao acordar de domingo.
dá imenso jeito o move do metro na cidade do porto. a malta pode dar corda aos ponteiros que ainda assim não perde a hora da carruagem na estação. mas atenção: andante na mão, porque os revisores também move.
quarta-feira, agosto 20, 2014
segredos abertos
há segredos que nos sussuram uma vida inteira. só os ouvimos quando a vida quer.
passei a minha vida com a certeza que todas as minhas características vinham do meu lado materno. até que.
até que a aproximação a uma tia do lado paterno mostrou-me que afinal.
afinal o meu lado paterno corre-me nas veias e no sorriso.
há um retrato da minha avó - que nunca conheci - na parede branca na casa dos meus pais. a mesma que está na morada onde a avó repousa para sempre. a única que conheci. no retrato, a avó já adiantada na idade. com barriga no queixo. um sorriso alegre. a pele morena. os olhos azeitona-preta. o cabelo puxado atrás.
a tia, irmã do meu pai, emigrada em frança durante uma vida que deu vida a filhos - 4 - finalmente regressada da vida para outra vida, me contou muito. tudo. tudo o que o meu pai me ia sussurando a miúde - como peças de puzzle.
depois da tia conheci a prima que até então só conhecia de nome, porque eu sou portugal e ela frança. a prima disse-me palavras banais, e neste vento comum eu revi-me. como de manhã quando me penteio ao espelho.
foi daqui, deste ãngulo adn, genes, o que for, que percebi a minha timidez de alma, e a euforia do meu riso.
percebi todas as vezes que ia ao cemitério visitar os avós sem nunca ter conversado com eles. ficava a olhar as fotografias a preto e branco a saborear um diálogo vazio, a imaginar o 'e se'. e, depois, quando acedi a um retrato da avó - rosa - mais nova, vi o meu queixo, o desenho da minha boca, a segurança do meu olhar.
espreitei na fechadura do meu passado que nunca foi meu.
passei a minha vida com a certeza que todas as minhas características vinham do meu lado materno. até que.
até que a aproximação a uma tia do lado paterno mostrou-me que afinal.
afinal o meu lado paterno corre-me nas veias e no sorriso.
há um retrato da minha avó - que nunca conheci - na parede branca na casa dos meus pais. a mesma que está na morada onde a avó repousa para sempre. a única que conheci. no retrato, a avó já adiantada na idade. com barriga no queixo. um sorriso alegre. a pele morena. os olhos azeitona-preta. o cabelo puxado atrás.
a tia, irmã do meu pai, emigrada em frança durante uma vida que deu vida a filhos - 4 - finalmente regressada da vida para outra vida, me contou muito. tudo. tudo o que o meu pai me ia sussurando a miúde - como peças de puzzle.
depois da tia conheci a prima que até então só conhecia de nome, porque eu sou portugal e ela frança. a prima disse-me palavras banais, e neste vento comum eu revi-me. como de manhã quando me penteio ao espelho.
foi daqui, deste ãngulo adn, genes, o que for, que percebi a minha timidez de alma, e a euforia do meu riso.
percebi todas as vezes que ia ao cemitério visitar os avós sem nunca ter conversado com eles. ficava a olhar as fotografias a preto e branco a saborear um diálogo vazio, a imaginar o 'e se'. e, depois, quando acedi a um retrato da avó - rosa - mais nova, vi o meu queixo, o desenho da minha boca, a segurança do meu olhar.
espreitei na fechadura do meu passado que nunca foi meu.
terça-feira, agosto 12, 2014
oh captain, my captain
a vida é como seguir o rasto de um exemplo. seja dos nossos pais, da família mais próxima, depois de professores e de amigos. a seguir a esta lista vêm os ídolos, por norma artista ligados à música ou ao cinema. é natural que o actor Robin Williams me tenha marcado. muito. o clube dos poemas mortos bem pode estar no meu top 10 dos melhores filmes. e para mim um bom filme é o conjunto de uma sopa de letras: bons actores, bom argumento, bons tempo e espaço, boa banda sonora. sobretudo, os diálogos. sobretudo, a alma com que se veste um diálogo. o Robim Williams fazia isso. era mesmo um captain.
quarta-feira, julho 30, 2014
bochechas vermelhas ao sinal vermelho
carro 1: mãe e filha.
carro 2: senhor idoso.
trânsito pára ao sinal vermelho.
carro 1 pára ao lado do carro 2. paralelos.
calor do dia faz com que os vidros dos dois carros estejam recolhidos.
idoso do carro 2 mostra a língua à filha do carro 1. filha entusiasma-se e riposta a mesma careta.
os dois fincam o olhar e desenham caretas maiores.
mãe do carro 1 fica tão vermelha como o sinal de trânsito. experimenta um 'comporta-te'.
filha e idoso desgraçam-se em gargalhada. sinal muda para verde. mãe arranca em vermelho.
carro 2: senhor idoso.
trânsito pára ao sinal vermelho.
carro 1 pára ao lado do carro 2. paralelos.
calor do dia faz com que os vidros dos dois carros estejam recolhidos.
idoso do carro 2 mostra a língua à filha do carro 1. filha entusiasma-se e riposta a mesma careta.
os dois fincam o olhar e desenham caretas maiores.
mãe do carro 1 fica tão vermelha como o sinal de trânsito. experimenta um 'comporta-te'.
filha e idoso desgraçam-se em gargalhada. sinal muda para verde. mãe arranca em vermelho.
quarta-feira, julho 23, 2014
estórias de metro a metro - até beiriz pelo estádio do dragão
quarta-feira. olhos piscos da digestão do almoço. corrida de metro até ao estádio do dragão. luta contra os ponteiros do dia. estou a apreciar as linhas de comboio em campanhã, quase-quase a cortar a meta. três miúdas passeiam como se não houvesse amanhã pelos corredores da minha carruagem no metro. conversam com dúvidas em todo o vocabulário. decidem quebrar as suspeitas comigo.
'estamos bem para beiriz?'
(se esta fosse a minha dúvida, não só corria pelos corredores de todas as carruagens do metro, como enfiava as mãos nos cabelos e apertava-apertava-apertava)
'estão precisamente no sentido contrário'.
caras esbugalhadas de pânico.
'calma, não é o fim do mundo'.
(isto de ter ultrapassado a barreira dos 30 dá-me charme às emoções)
'saem no estádio do dragão e vão para a linha oposta'.
desfazem-se em obrigadas. suspiros de quem se livrou da maior desgraça do mundo.
eu rio, elas sorriem. eu corto a meta. elas ainda hão-de cortar.
'estamos bem para beiriz?'
(se esta fosse a minha dúvida, não só corria pelos corredores de todas as carruagens do metro, como enfiava as mãos nos cabelos e apertava-apertava-apertava)
'estão precisamente no sentido contrário'.
caras esbugalhadas de pânico.
'calma, não é o fim do mundo'.
(isto de ter ultrapassado a barreira dos 30 dá-me charme às emoções)
'saem no estádio do dragão e vão para a linha oposta'.
desfazem-se em obrigadas. suspiros de quem se livrou da maior desgraça do mundo.
eu rio, elas sorriem. eu corto a meta. elas ainda hão-de cortar.
segunda-feira, julho 21, 2014
Homem-relâmpago
Homem relâmpago que
lampejas,
Que me mergulhas no
olhar,
Com olhos de folha de
outono
Com a força do inverno,
Que ofereces ouro com
os teus poderes de
alquimia,
Que trazes escondidos
no peito,
Onde está a porta para o
teu incêndio?
Amas-me como as
folhas se amam em
vendaval.
Tocas-me como o mar
na areia.
Andas ébrio de amor
que te escorrega pela
boca,
Vazio como uma
azeitona sem caroço,
Cheio de sono como
um bebé acabado de
amamentar,
Diz-me,
Onde fica o teu norte, e
já agora, o teu sul?
Iluminas-me sem luz.
Diz-me,
Homem relâmpago que
lampejas,
Até onde vai o teu
coração,
Que eu mal vejo o seu
horizonte.
Lampejos de loucura no
teu cabelo que voa,
Que rema além do céu
navegável.
Sorri-me na pele,
E eu conto-te o meu
segredo,
Molha-me com
lampejos, Homem
relâmpago
Que eu desmaio de
temores de ternura.
Deixo a janela aberta
para as tuas fotografias
nocturnas.
Apenas, diz-me,
Homem, sou pérola na
tua concha?
Porque, se for,
Eu sou o raio do teu
lampejo,
O maior verso da
explosão do universo.
lampejas,
Que me mergulhas no
olhar,
Com olhos de folha de
outono
Com a força do inverno,
Que ofereces ouro com
os teus poderes de
alquimia,
Que trazes escondidos
no peito,
Onde está a porta para o
teu incêndio?
Amas-me como as
folhas se amam em
vendaval.
Tocas-me como o mar
na areia.
Andas ébrio de amor
que te escorrega pela
boca,
Vazio como uma
azeitona sem caroço,
Cheio de sono como
um bebé acabado de
amamentar,
Diz-me,
Onde fica o teu norte, e
já agora, o teu sul?
Iluminas-me sem luz.
Diz-me,
Homem relâmpago que
lampejas,
Até onde vai o teu
coração,
Que eu mal vejo o seu
horizonte.
Lampejos de loucura no
teu cabelo que voa,
Que rema além do céu
navegável.
Sorri-me na pele,
E eu conto-te o meu
segredo,
Molha-me com
lampejos, Homem
relâmpago
Que eu desmaio de
temores de ternura.
Deixo a janela aberta
para as tuas fotografias
nocturnas.
Apenas, diz-me,
Homem, sou pérola na
tua concha?
Porque, se for,
Eu sou o raio do teu
lampejo,
O maior verso da
explosão do universo.
sábado, julho 19, 2014
estórias de metro a metro - 'gude laka'
por esta altura invejo os turistas do porto. andam por todo o lado. utilizam o metro para todas as deslocações. e, por norma, sabemos exatamente quando retornam ao país de origem - ar cansado, adormecidos no ombro do companheiro de estadia, malas sujas pelos dias, abundantes em sacos-souvenirs. câmaras como colares, memórias dos clérigos, da ribeira, das galerias, das sardinhas de matosinhos, dos museus, do eléctrico até à foz. e das pessoas genuínas como o mar. os turistas não sabem, mas contactam com o bairrismo sem perceberem.
viagem entre a trindade e francos: uma mulher, deve ter 35 anos mas aparenta mais dez, marcada pelos vícios; lê a Maria como quem decora um texto para um exame - olhos colados às páginas. ao lado, um casal-turista: aspecto de quem engoliu a cidade de uma só vez; falam inglês entre si.
chegada a francos, a mulher com toda a sua alma, simpatia humilde, diz: 'u turists, u sepike ingeles, ai sepike, gude laka, bye bye'.
o casal-turista, sem responder, ficou palerma a olhar mais um aspecto cultural que não vem nos guias: a transparência de uma cultura local sem limites, um bairrismo nobre, que abraça-abraça-abraça.
viagem entre a trindade e francos: uma mulher, deve ter 35 anos mas aparenta mais dez, marcada pelos vícios; lê a Maria como quem decora um texto para um exame - olhos colados às páginas. ao lado, um casal-turista: aspecto de quem engoliu a cidade de uma só vez; falam inglês entre si.
chegada a francos, a mulher com toda a sua alma, simpatia humilde, diz: 'u turists, u sepike ingeles, ai sepike, gude laka, bye bye'.
o casal-turista, sem responder, ficou palerma a olhar mais um aspecto cultural que não vem nos guias: a transparência de uma cultura local sem limites, um bairrismo nobre, que abraça-abraça-abraça.
sexta-feira, julho 18, 2014
nem tudo é bom, mas nem tudo é mau
houve um dia da minha vida em que conheci um astrólogo,e no âmbito de uma reportagem me disse que eu atraia pessoas más, cheias de turbulência, problemas e ímpares em vingança. ele dizia que quem dizia era o meu mapa astral. foi aqui que comecei a duvidar daquela ciência das estrelas. fiquei a pensar no assunto: 'cativo pessoas más'. desacreditei. simplesmente, porque não é verdade. fiz uma lista das pessoas que me rodeavam na ocasião,e ainda hoje me estendem a mão,
pais,
mano,
avós,
tios,
tias,
primos,
primas,
amigos - a família que escolhemos.
pessoas com problemas, sim, aliás, como cada um de nós, porém límpidas de carácter. cristalinas de sentimentos. que gostam de mim.
hoje, tive mais uma prova de que não sou íman de pessoas más. cada vez mais me acho sortuda com as pessoas que conheço e se cruzam no meu caminho.
hoje, precisei de levar o carro ao médico. fui com uma ponta de luz a um novo mecânico para mim. antes do mais apressei-me a dizer que estava desempregada, como quem escreve em entrelinhas. 'o carro tem que ir à inspecção, sei que precisa de lâmpadas e escovas novas, mas não sei se está apto a passar o exame'. 'não se preocupe, eu trato de tudo'.
este tudo preocupou-me. o tudo para mim podia não ser o tudo do senhor de macacão.
não é que o meu novo amigo tratou mesmo de tudo: fez o que tinha a fazer, e ainda me levou o carro à inspecção.
'tem aqui os recibos, está tudo tratado'. quanto custou a eficiência? o senhor de macacão só queria o dinheiro da inspecção.
'nem a mais, nem a menos, eu estou desempregada, o senhor não'.
admira-me cativar tanta gente com o coração no sítio. nem tudo é bom, mas também nem tudo é mau. e as surpresas são soalheiras em dias de chuva.
pais,
mano,
avós,
tios,
tias,
primos,
primas,
amigos - a família que escolhemos.
pessoas com problemas, sim, aliás, como cada um de nós, porém límpidas de carácter. cristalinas de sentimentos. que gostam de mim.
hoje, tive mais uma prova de que não sou íman de pessoas más. cada vez mais me acho sortuda com as pessoas que conheço e se cruzam no meu caminho.
hoje, precisei de levar o carro ao médico. fui com uma ponta de luz a um novo mecânico para mim. antes do mais apressei-me a dizer que estava desempregada, como quem escreve em entrelinhas. 'o carro tem que ir à inspecção, sei que precisa de lâmpadas e escovas novas, mas não sei se está apto a passar o exame'. 'não se preocupe, eu trato de tudo'.
este tudo preocupou-me. o tudo para mim podia não ser o tudo do senhor de macacão.
não é que o meu novo amigo tratou mesmo de tudo: fez o que tinha a fazer, e ainda me levou o carro à inspecção.
'tem aqui os recibos, está tudo tratado'. quanto custou a eficiência? o senhor de macacão só queria o dinheiro da inspecção.
'nem a mais, nem a menos, eu estou desempregada, o senhor não'.
admira-me cativar tanta gente com o coração no sítio. nem tudo é bom, mas também nem tudo é mau. e as surpresas são soalheiras em dias de chuva.
terça-feira, julho 15, 2014
Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço
8h. sim, oito da manhã. consulta externa no hospital de santo antónio. corredores apinhados de conversas bocejadas a café, espirros e gente feia de doença. uma sala de espera e uma secretária para todas as perguntas: onde é este serviço, e aquele, e o outro, e falta muito, e depois, as taxas moderadoras? a sala de espera torna-se, de repente, num aeroporto, uma senhora sorridente, de farda aos quadradinhos branca e vermelha, serve café, bolachas, chá, sobretudo serve consideração por todos os pacientes, uns mais graves do que outros.
na parede uma televisão fala muda para as dezenas de olhares de baixo para cima. diz que se deve lavar as mãos várias vezes ao dia. ensina como lavar. com o quê: água e sabão. em abundância.
Mas,
necessito do w.c.
sigo o conselho
como sempre, aliás
vou lavar as mãos,
aquele w.c.
dentro do hospital
com letreiros que ensinam a lavar as mãos - local de residência de bichinhos que levam a doenças -
não tinha sabão
apenas munido de um fio de água escorregava
a cada dois segundos.
crise?
de...
na parede uma televisão fala muda para as dezenas de olhares de baixo para cima. diz que se deve lavar as mãos várias vezes ao dia. ensina como lavar. com o quê: água e sabão. em abundância.
Mas,
necessito do w.c.
sigo o conselho
como sempre, aliás
vou lavar as mãos,
aquele w.c.
dentro do hospital
com letreiros que ensinam a lavar as mãos - local de residência de bichinhos que levam a doenças -
não tinha sabão
apenas munido de um fio de água escorregava
a cada dois segundos.
crise?
de...
segunda-feira, julho 14, 2014
Não fiques triste e espera na fila
Muitas vezes olhamos as oportunidades como absolutamente únicas e irrepetivéis. Ensinaram-nos assim. Mas, como em tudo na vida, tão imprevisível que é, as oportunidades podem apenas não estar na linha cronológica certa. Talvez...talvez, hoje não seja o momento, e talvez...talvez, amanhã chegará a nossa vez para a oportunidade desejada. Nesse entretanto, vamos educando características, dando personalidade às ferramentas para a oportunidade que procuramos.
Hoje declinaram-me a oportunidade de fazer voluntariado numa associação que eu tanto ambicionava. Eu cá continuo na fila. A fazer outro voluntariado que me anima o tempo e o tempo do meu outro. Espero com paciência, a ganhar maturidade para quando chegar a minha vez na linha cronológica, estar preparada para o sim, e que o sim esteja preparado para mim.
Por isso, nada de desesperar pelas oportunidades que almejamos, a estratégia passa por persistir na fila, a engordar qualidades. Só assim cativamos o sonho.
Hoje declinaram-me a oportunidade de fazer voluntariado numa associação que eu tanto ambicionava. Eu cá continuo na fila. A fazer outro voluntariado que me anima o tempo e o tempo do meu outro. Espero com paciência, a ganhar maturidade para quando chegar a minha vez na linha cronológica, estar preparada para o sim, e que o sim esteja preparado para mim.
Por isso, nada de desesperar pelas oportunidades que almejamos, a estratégia passa por persistir na fila, a engordar qualidades. Só assim cativamos o sonho.
sábado, julho 12, 2014
estórias de metro a metro - 'oh maria, estás aqui?'
De manhã o metro segue sossegado. Qualquer som desperta qualquer olhar. O som daquela manhã fez tremer as carruagens inteiras. Vai cada passageiro na sua vida - as mulheres com as carteiras ao colo como um filho; os homens com o olhar alheio em algum ponto do ar. E, nesta respiração leve de cada um, o metro pica mais uma estação, e nesse momento, ao invés de chegar um passageiro, chegou uma voz. Som feminino esbaforido e sumido. 'Oh Maria, estás aqui?'. Foi mais: 'OH MARIIIA, ESTÁS AQUI?' Penso que todos os passageiros, na sua vida, se perguntaram, se não seriam a Maria; quanto mais não seja para agradar ao empenho, à desvergonha daquela voz assumida e destemida. Ficámos sem saber se a voz era loira ou morena, ou gorda ou magra. Apenas foi validada a voz naquela viagem, sem andante. Uma coisa foi certa: em alguma carruagem naquela manhã do metro do Porto estaria uma Maria, na sua vida, com a carteira ao colo como um filho e uma voz carente no seu rasto.
sexta-feira, julho 11, 2014
Obrigada Maria
A Maria deu-me uma bofetada. Em resposta sorri e agradeci.
A Maria tem idade para ser minha mãe. Não é mãe. A vida não lhe deu essa bênção, mas deu-lhe tantos obstáculos e tantas bofetadas que aprendeu o que poucos aprendem: a ser feliz com o que tem. A dar um abraço a cada alegria que a vida não lhe tirou. Esta alegria branda pode ser uma conversa com uma amiga.
A Maria trabalhou desde que aprendeu a andar, a falar, a cheirar, a ver. A infância da Maria foi de suor e de poucas bonecas. A infância da Maria foi de ausência de pai e de chicotada quando resolvia aparecer. A infância da Maria teve amor-ríspido de mãe. Sopa quente de noite e um cobertor para todas as noites de todos os anos.
A Maria cresceu. Já mulher conheceu um homem. Foi traída pela liberdade do casamento que julgava ser, e conviveu com a maldade humana durante anos. A infância mentida foi prenúncio para uma idade adulta sem flores.
Porém,
Maria cheirava, via, andava, falava. Encontrou a felicidade no trabalho. Todas as noites fazia tomadas para acendermos as lâmpadas das nossas noites nas nossas casas. E nessa fábrica a vida embrulhou só para ela, amigas, momentos que ficam no íntimo de cada um.
Quando regressava a casa com o peso do passado nas costas, encontrava um presente envenenado – o homem que não era digno do nome marido.
Arranjou forças, coragem que só tem quem sofre. Pediu o divórcio. No meio da luta pela própria vida atacou-lhe um esgotamento que a arrastou para pilhas de medicação, para a cama, para a solidão sem tréguas.
Até que,
Alguém que reparou. Alguém soube que a sua mão levantaria o peso da alma desmaiada da Maria. E Maria deixou que o sol entrasse.
E o sol sai do corpo da Maria e o peso do mundo não chega a um grama.
A Maria podia ser escuridão, podia ser rude, podia ser amarga, involuntária.
Mas,
Apesar das rugas cravadas no rosto, escolheu ser uma centelha rara no mundo que ri e olha para o lado. A ver se há alguma vida que necessite ser levantada. Escolheu acolher a velhice da mãe sem mágoa e com amor. Escolheu ir dançar porque gosta. E, apesar de aos 55 anos ter sido dispensada pela empresa, escolheu fazer formações e procurar trabalho. A Maria escolheu levantar o próprio peso.
Obrigada Maria.
A Maria tem idade para ser minha mãe. Não é mãe. A vida não lhe deu essa bênção, mas deu-lhe tantos obstáculos e tantas bofetadas que aprendeu o que poucos aprendem: a ser feliz com o que tem. A dar um abraço a cada alegria que a vida não lhe tirou. Esta alegria branda pode ser uma conversa com uma amiga.
A Maria trabalhou desde que aprendeu a andar, a falar, a cheirar, a ver. A infância da Maria foi de suor e de poucas bonecas. A infância da Maria foi de ausência de pai e de chicotada quando resolvia aparecer. A infância da Maria teve amor-ríspido de mãe. Sopa quente de noite e um cobertor para todas as noites de todos os anos.
A Maria cresceu. Já mulher conheceu um homem. Foi traída pela liberdade do casamento que julgava ser, e conviveu com a maldade humana durante anos. A infância mentida foi prenúncio para uma idade adulta sem flores.
Porém,
Maria cheirava, via, andava, falava. Encontrou a felicidade no trabalho. Todas as noites fazia tomadas para acendermos as lâmpadas das nossas noites nas nossas casas. E nessa fábrica a vida embrulhou só para ela, amigas, momentos que ficam no íntimo de cada um.
Quando regressava a casa com o peso do passado nas costas, encontrava um presente envenenado – o homem que não era digno do nome marido.
Arranjou forças, coragem que só tem quem sofre. Pediu o divórcio. No meio da luta pela própria vida atacou-lhe um esgotamento que a arrastou para pilhas de medicação, para a cama, para a solidão sem tréguas.
Até que,
Alguém que reparou. Alguém soube que a sua mão levantaria o peso da alma desmaiada da Maria. E Maria deixou que o sol entrasse.
E o sol sai do corpo da Maria e o peso do mundo não chega a um grama.
A Maria podia ser escuridão, podia ser rude, podia ser amarga, involuntária.
Mas,
Apesar das rugas cravadas no rosto, escolheu ser uma centelha rara no mundo que ri e olha para o lado. A ver se há alguma vida que necessite ser levantada. Escolheu acolher a velhice da mãe sem mágoa e com amor. Escolheu ir dançar porque gosta. E, apesar de aos 55 anos ter sido dispensada pela empresa, escolheu fazer formações e procurar trabalho. A Maria escolheu levantar o próprio peso.
Obrigada Maria.
quarta-feira, junho 25, 2014
o sentido de mim
cada vez mais tenho tino em mim mesma. sei qual é o sentido de mim mesma. o caminho que quero e o que não quero. cada vez mais gosto mais de mim. a sério, amor de paixão. cada vez mais sei fazer a triagem do que é importante, do que não é. faço caretas ao lixo do dia-a-dia, e sorrio ao que me alegra, e me veste a alma e saúda o coração. os outros não passam disso mesmo - outros. escrevo o sentido de mim mesma. hoje e todos os dias.
sexta-feira, junho 13, 2014
brinde final
presa por um fio de alma,
deixo cair a vida em trapézio.
em sabrinas de bailarina, os pés crescem em escada,
tocam o céu, almejam o céu.
sou iôiô.
acima e abaixo, sempre à espera de ser empurrada para o centro,
para o brinde final.
deixo cair a vida em trapézio.
em sabrinas de bailarina, os pés crescem em escada,
tocam o céu, almejam o céu.
sou iôiô.
acima e abaixo, sempre à espera de ser empurrada para o centro,
para o brinde final.
quarta-feira, junho 11, 2014
estórias de metro a metro - do hamburger
entre um hamburger no meio de duas fatias de pão, borratado de mostarda ou ketchup, ou uma bola de berlim, eu prefiro - sem sombra de dúvida - uma bola de berlim. primeiro porque tem um cheiro, vá lá, fofinho, e depois, o risco é menor de proporcionar nódoas para a prosperidade. se viajamos numa carruagem do metro tripeiro apinhada de gente, e vamos com o nariz quase colado à marmita do vizinho, a tragédia é inevitável. Foi a isto que assisti - um hamburger a saltar para o abismo do decote da senhora nos 50 anos. A senhora agitada pela viagem, segura pelo rabo, com as mãos atrapalhadas em sacas, ficou abananada com o pedaço de carne na sua carne. O jovem, relutante, desculpava-se, entre o remorso de ter perdido um hamburger e a hesitação de lhe chegar um guardanapo. Limpar as nódoas no epicentro de um decote? Apetecível, mas incorrecto. Sacas para um lado, a mulher safa-se como pode, e o jovem amassa tudo para o lixo. Hamburger no metro? Não, obrigada. Fica para a próxima paragem.
quarta-feira, maio 21, 2014
gente do verbo ir
Há gente para todos os feitios e cores. Gente parada e gente em movimento.
Aqui do meu planeta, assisto àqueles que por ordem de um sonho ou de uma mania, apostam a vida numa aventura desassossegada. Gosto de gente assim. Que em nome de uma fisgada no coração, arriscam e descruzam os braços. Que se levantam do conforto do sofá e fazem da vida um extremo. São um alpinista em combate contra uma avalancha. Ou um Salgueiro Maia frente a um regime. Fazem um regime seu, sem medo e com muita crença e persistência. Admiro-os daqui - do conforto do meu sofá.
quinta-feira, abril 24, 2014
o céu é o meu chão
há pingos de chuva que me atingem como balas, a um dia da liberdade.
acordam-me passos pesados, perseguem-me sonhos leves, literatura infantil da dor que amanhece.
amanhã é já hoje. não há tempo para prosa, somente para poesia.
há pingos de chuva que me atingem como balas.
o céu mudou de sítio. está debaixo dos pés. o chão lá em cima e o céu é o meu tapete. juro que amanheceu assim. hoje. a um dia da liberdade. a um passo do sonho leve, da literatura infantil do sorriso que adormece.
segunda-feira, abril 07, 2014
Manuel Forjaz ou aquele que nos ensinou a viver
Todos conhecemos o Manuel Forjaz.
E não é pelo brio profissional para o qual trabalhou. Nem pelas conquistas pessoais que alcançou.
Nos últimos tempos quando se falava em Manuel Forjaz, falava-se de vida e felicidade.
Há pouco mais de um mês punha a roupa a secar quando da sala ele falava comigo ou para mim. Foi das poucas vezes que me senti tão feliz por estar a esticar meias e camisolas e calças. Ouvia-o dizer que a vida é para ser vivida. Que não nos devemos preocupar com as mesquinhices da rotina. Que o que realmente importa são os pequenos e as mais simples traços de vida. Que vida não é respirar, a vida é respirar com amor, com gratidão e um sorriso na cara. Porque há sempre motivos para sorrir - quanto mais não seja porque alguém hoje sorriu para nós.
O Manuel Forjaz é uma das aquelas pessoas que veio ao mundo para lembrar a todos no mundo que a vida não é um mar de rosas, mas certamente, pode ser rosas com muito mar dentro - para navegar, lutar, respirar, brincar, olhar o horizonte, naufragar, e ainda assim, amar e boiar com o céu ao alcance do coração.
segunda-feira, março 03, 2014
fragmento de um romance:
há dias em que custa levantar. depois há dias em que custa sair da cama. quando se apercebe já custa tomar banho, cuidar da aparência. e da aparência da alma. escreve-se uma lista com afazeres. e surge a pergunta: para quê? e depois ouve-se: o sol está atrás das nuvens. tão envergonhado como todos nós. e dentro do coração tricotado a teias de aranhas ouve-se baixo: para o...nde hei-de bombear o sangue? onde está o sangue? mais: onde está a estrada? tenho tanta luz à frente e os meus olhos continuam escuros.
fragmento de um romance:
por minha culpa, minha tão grande culpa. ensinou-me a avó sãozinha.
há gente que simplesmente não consegue pedir ajuda, ensinou-me o PC. somos um bando de egoístas. oferecemos as mãos, porque a sociedade aplaude. os médicos receitam caixas de merdas porque ganham viagens. todos julgam ter razão, ter o mundo nas mãos, só para eles. pimenta no rabo dos outros é refresco para mim, ensinou-me o meu avô.
fragmento de um romance:
primeiro eu. depois quem me interessa. e depois talvez tu. ensinam-me as pessoas que me empurram no passeio como se pagassem aluguer. essas que nada sabem de mim, eu que nada sei delas. na verdade, nem quero saber. amor com amor de paga.
fragmento de um romance:
não tenho que ouvir gente intrometida a responder-me mal. da próxima levam uma chapada na cara. nasci aquário e às vezes esqueço-me disso. tenho a cabeça na lua mas a solidariedade de Deus, e a coragem do vento.
fragmento de um romace:
eu sou Deus. posso esquecer-me disso. podem-me cair sonhos entre os dedos, pesar-me nas costas a frustração de um trabalho que ninguém soube valorizar, a falta da festinha na cara que às vezes sabe bem. mas EU sou Deus.
fragmento de um romace:
posso um dia morrer velha, contar dois ou três desejos que realmente concretizei, mas no momento em que fechar os olhos, apenas espero sentir que fui honesta comigo ao tentar conquistar a minha Lenda Pessoal (poucos sabem o que isto é), e honesta com os outros ao dizer sim com verdade e não com coragem.
fragmento de um romace:
acredito na vida, acredito que sou feliz. sobretudo acredito no que aprendi no Caminho de Santiago: escolhe um caminho, mas escolhe, e que a partir daí que a decisão seja genuína, parta do centro de ti e jamais olhes para trás.
fragmento de um romance:
nasci para me agradar e agardar a quem amo e merece o meu amor.
[fim à simpatia forçada, fim a desculpas porque me esqueci disto ou daquilo, fim à fraqueza]. [que me lembre sempre das palavras de um peregrino de 2004, e só hoje me recordei, tens o céu nos olhos,parace que trazes ai dentro todo o mundo, faz com ele o que quiseres].
fragmento de um romance:
tudo o que resto que se foda.
poema ao desaparecido
esvaziar para voltar a encher. sopraram-me hoje ao coração.
como se faz isso? Pergunta a criança grande desamparada. Cheia.
Cheia de coisas das ruas, das casas, das pessoas, das caixas, do passado.
Sopra. Sopra. Sopra. Sopra. Cá para fora. Deita cá para fora. Vomita.
Custa vomitar. Começar por onde a soprar.
Esvaziar onde, por onde?
Gritos. Gritos. Gritos.
Tenho de ser filtro. Separar o mar como fez moises. Mas eu não sou móises, ou posso ser quem quiser?
Um acorde. Basta um primeiro acorde. Que vem do centro de nós. Para acordar.
Para limpar a nódoa. O que quer que seja que está a mais. A corroer. A bloquear.
‘se vens a mim, vem a rir’. Disse jesus.
Terei de rir com verdade. Terei de rir do centro de mim.
Começarei por arrumar a casa. A minha casa. Aquela onde os convidados já sabem quem são os convidados e são escolhidos a dedo.
Terei de fazer a minha viagem. Contar o meu conto. Encontrar as minhas palavras. Saber ouvir.
Sobretudo saber aceitar.
Sobretudo saber agradecer.
Sobretudo saber qual a minha missão.
Lutar. Palavra pequena e mágica. Pequena e poderosa. Pequena e desafiadora. Pequena e inspiradora. Pequena e árdua. Pequena e necessária.
Perguntam-me:
[todos]
O que queres?
O que queres?
O que queres?
Acho que é a isto que tenho de responder com genuidade. Para mim e para os outros. Traduzir sentimentos em acções. Esperança em ‘seja feita a sua vontade’.
Alinhar-me. Deus dá os desafios próprios a cada um dos seus filhos.
Não se pode ganhar sempre, mas também não se pode perder sempre.
E é nesta dança em que estou.
quinta-feira, fevereiro 13, 2014
ao r.p.r.
Como posso dizer que gosto de ti?
De que forma?
Que gestos manobrar? Que palavras escolher?
Dizer que te gosto é pouco.
Diminuto face à dimensão do amor. Do meu amor.
Não gosto de ti. Não posso reduzir o farol da minha noite a esse verbo pequeno e banal.
Como poderei usar a palavra gostar
Para o tamanho das nossas almas? Para nós?
Eu gosto de esparguete. Mas tu não és esparguete.
És a água em ebulição, o vulcão em erupção, o mar agitado a espalhar correrias.
Gosto de andar no passeio com os olhos postos no céu. Disto gosto.
Também gosto dos cabelos a voar atrás dos ombros.
Estas coisas eu gosto. São coisas. Materiais de vida.
Mas tu és grande de mais para gostar. E gostar pequeno de mais para ti.
Não encontro na minha pátria linguagem que te associe.
Procuro no vento pedaços de voz,
Pergunto ao mar o que te dizer,
Espreito entre os dedos sinais para te dedicar a melhor expressão do meu coração.
Mas o meu coração está desprovido de palco,
Porque não encontra a melhor peça de teatro. Onde tudo vale, nem o gostar vale.
Não gosto de ti.
Amo-te.
terça-feira, fevereiro 04, 2014
o mar dentro de mim
há um mar que se agita e grita
no fundo de mim,
explode ondas de sangue,
atira areia da cabeça aos pés,
é voraz,
como todos os mares,
em cada fundo de mim.
não durmo,
é um mar-desassossego,
deixa-me acordada a cada onda que.
que bate no peito.
que bate no rosto.
que bate r.u.i.d.o.s.a.m.e.n.t.e no fundo de mim.
sou poço sem fundo.
perdi-me no fundo de mim.
só o mar, grande, u.n.i.c.a.m.e.n.t.e enorme,
encontra o fundo de mim,
navega,
como uma gaivota em terra, quando há tempestade no mar.
terça-feira, janeiro 28, 2014
estórias de metro a metro - do sabonete
mal entrei no metro pensei que tinham acabado os sabonetes todos do mundo. no pingo doce, continente e similares, nas casas dos chineses ou perfumarias. pensei mesmo que o mundo tinha ficado desprovido de tudo quanto era cheirinhos. que da noite para o dia alguém tivesse varrido sabonetes, gel de banho. coisas destas que nem um euro custam.
é manhã e há pessoas que cheiram mal.
da boca. dos braços. dos cabelos. cheiram a suor e outras coisas mais e más.
foi preciso entrar na primeira carruagem e sair na última. fugir aos pingos de suor, ao rasto do bad smell.
terça-feira, janeiro 14, 2014
estórias de metro a metro - da chuva
faz chuva.
os guarda-chuvas atrapalham-se em curvas e contracurvas.
o metro a tempo, os passageiros não.
correm contra a chuva,
contra o vento,
sacodem água das capas,
cospem os cachecóis da cara.
abrem a carteira, voam papéis, voa o andante. validam o cartão, validam a viagem até ao resto do dia.
a chuva não pára, o vento também não.
a esperança estanca de uma ponta à outra ponta do dia. os sonhos páram - um instante - entre a respiração da manhã e a respiração da noite. caem pingos de lágrimas ao ritmo da chuva. há um hiato. um espaço de 8 horas que são um segundo. todos jogamos ao macaco chinês. quando abrimos os olhos com mau hálito ao momento em que lavamos os dentes e fechamos os olhos. entre uma coisa e outra somos estátuas, à espera da noiva-esperança, do sonhos. à espera - que alguém diga macaco-chinês.
terça-feira, dezembro 31, 2013
13 vs. 14
quero terminar o ano 13 com o que mais gosto de fazer - escrever. espero começar o 14 com o que de melhor sei fazer - escrever. sempre gostei do número 13 {número de sorte, sobretudo espiritual], mas não gostei deste 13. foi um 13 que me desiludiu. com solavancos, e momentos com o trânsito pára-arranca.
um novo ano é sempre um amanhã e tudo o que isto significa: limpar pó, lágrimas, arrumar, despachar o que não interessa, uma nova oportunidade a espreitar pelo buraco da fechadura. nós a puxar a maçaneta da porta e deixar entrar a esperança - a fé - desafios - objectivos. por esta ordem. prestar-lhes a cortesia da casa. servir-lhes o melhor de nós.
então,
chega,
mais uma ano,
mais um amanhã
para nos iludirmos [ou talvez não]. mais a idade avança, menos força na crença, mais tentativa de força na crença.
todos os anos elaboro uma lista. do que quero e desejo. percebo no final de cada ano que o que concretizo é mais do que depende apenas de mim do que o que não está totalmente no meu controlo.
conclusão:
gosto muito de mim. vou apostar mais em mim.
sábado, dezembro 14, 2013
estórias de metro a metro - manjar ou não manjar
ela, mãe, espetou o teste de inglês da filha na cara do pai. a filha encolhia-se até onde podia no banco ao lado da mãe.
as palavras da mãe eram confetis no ar.
'ela não manja nada de inglês. se se admite, satisfaz'.
a filha de 12 anos num corpo de 14, sorria-se cada vez mais fundo no banco.
todos na carruagem ficámos a saber que o inglês não é o forte da garota. o pai fungava risos no lenço que levava ao nariz cada vez que falava. 'manjas tu, querem 'ber'. 'eu na idade dela manjava'.
a garota intrometia um 'mas'. mas os pais empurravam lá para dentro do corpo de 14 o 'mas'.
e a garota continuava a tentar projetar cá para fora 'mas'. e os pais não manjavam que a filha queria talvez vincar alguma ideia naquele satisfaz de inglês. 'mas', venceu, por fim, a garota, 'tirei excelente a físico-química'.
quis-me parecer que toda a carrugem a quis felicitar, aplaudir, festejar o excelente. porque, há uma leve certeza em mim que são poucos os que 'manjam' de símbolos químicos.
segunda-feira, novembro 18, 2013
estórias de metro a metro - o olhar e a violência do destino
mal escolhi o banco para fazer a viagem de metro até campanhã, cruzei o olhar com o olhar infinito e indefinido da senhora no banco à minha frente. tinha os cabelos brancos na raíz e castanho até aos ombros, onde estava apanhado com fios mal presos. trazia uma roupa gasta e triste, uns sapatos de salto gasto e umas rugas que contavam estórias de vida calejada pelo trabalho, pelos desamores, pela violência do destino. os olhos fatigados e o olhar infinito e indefinido. nas mãos levava um saco de plástico e uma carteira preta, sem brio, sem qualidade.
e uns brincos.
uns brincos presos na cara onde levava um olhar infinito e indefinido. brancos na forma de pérola. foram dados, de certo. herdados, talvez. os brincos não condiziam com o traje gasto, com a pele gasta, com o olhar infinito, indefinido e triste.
nisto.
nisto, nestes meus pensamentos lavados pelo vazio, pelas avaliações vazias.
nisto. a senhora de pele marcada por desamores e violência do destino, olha-me nos olhos, deixa o infinito e o indefinido e escolhe-me a mim para:
- estamos em s.bento?
- não, aqui é o bolhão, para s.bento deveria ter saído na estação anterior, na trindade. mudava para um outro metro.
uma calma invejável. com a serenidade, a maturidade de quem acatou a violência do destino, levanta-se pega no saco sem graça, na carteira podre, arrasta o cabelo para trás, sobressaí a raíz, sobressaem as rugas, sobressaí as unhas mal pintadas que até aqui não tinha notado. diz-me com um olhar definido:
- obrigada, não tinha reparado, não me resta se não sair em 24 de agosto.
não resta se não. não resta nada. a violência do destino. os quilómetros feitos que permitem andar para trás e para a frente. acertar o olhar para a posição de infinito e indefinido. cruzar a indefinição na confusão de passos, de cabelos bem e mal pintados, na correria. da violência do destino.
terça-feira, outubro 29, 2013
estórias de metro a metro - dos gestos mal-criados.
os dois garotos despem-se até à última brecha da porta do metro. a porta fecha-se. ela sai de cena, ele fica.
ele fica e fica também a última imagem que a miúda deixou para ele e para todos os passageiros que estivessem a apreciar o momento. a miúda despede-se com o dedo médio da mão no ar. encolheu os restantes dedos e exibiu o dedo proibido. fez-me lembrar o mister bin. a cena era a mesma. o mesmo dedo. utilizado numa despedida e à descarada. só que.
só que estava a senhora de nariz altivo, roupa altamente engomada, sapatos e carteira exemplarmente brilhantes, e a postura rigorosamente alinhada com o varão do metro.
- o menino não tem vergonha?
o menino teve uma vergonha do tamanho de duas grandes maças vermelhas a crescer-lhe nas bochechas.
tanta vergonha que até me fez crer que mal o metro despachou passageiros na estação seguinte, o menino despachou-se a ele mesmo a fugir das próprias bochechas.
quinta-feira, outubro 24, 2013
estórias de metro a metro - dos tacões
ela entrou no metro aos tropeções.
primeiro tropeçou num tacão. depois o outro falhou. mesmo à entrada do metro. mesmo à mercê da gargalhada alheia.
a miúda com cara pintada de mulher devia ter uns 17 anos. de livros na mão e castigada pela chuva, entrou no metro já corada pelo sucedido - como se ainda estivesse a ensair a personagem para as amigas na escola.
tentava trejeitos de mulher, mas quando levava as unhas à boca denunciava a miudeza dos anos.
começou a baloiçar os longos cabelos, e os outros passageiros trociam a cara pelo vento e pingos de chuva que saiam da cabeça da miúda-que-tentava-ser-mulher.
a vida é muito perspicaz: faz-nos quer ser grandes, quando pequenos, para aguentarmos todas as vezes que os tacões falham, e faz-nos ficar mais meninos, quando velhinhos, para irmos desta, com a sensação de não estarmos cansados por termos levantado tantos tacões.
segunda-feira, outubro 21, 2013
do pão com panado
A senhora rastejava os olhos pelo balcão. Tinha lápis preto nos olhos, parecia já de uma semana. Falava para o marido que estava escondido atrás do balcão, entre pedidos de clientes, com trajes vagabundos cosidos pela própria vida.
Tem algo rápido para comer?
Sim, menina, responde, olhando-me com os olhos borratados de negro a condizer com o casaco que vestia. Apontou para tudo quanto passou pelas mãos do marido que nunca conheci, pois estava para lá das paredes gastas pelo tempo.
‘Rissóis, pão com panado e omelete’, conta pelos dedos das mãos. Um sorriso brilhava no meio de tanto negro.
Pode ser um pão com panado, escolho.
A mulher arrasta-se até à mesa. Com o peso do casaco, com o peso do lápis preto nos olhos, com o peso do pão com o panado, com o peso da vida.
O dia está correr bem?
‘Nem o dia, nem a vida. A minha filha está desempregada, ganha 500 euros numa loja, e na área dela, em psicologia, arranja trabalho se for voluntário. Um filme’.
‘Um’, não, O filme desta sociedade.
Querem mãos, pernas, braços, cabeça, tronco, mais o suor, mais as horas além do dia, o sol e a noite, até a nossa alma. Para quê? Para no fim nem um pão com panado oferecerem em modo de gratidão.
quarta-feira, outubro 09, 2013
estórias de metro a metro - os picas
as mulheres roliças empurraram-se para dentro do metro. traziam sacos, carteiras, mochilas com rodinhas, e sobretudo traziam o próprio peso. suor de um dia inteiro, tatuagens gastas pelo tempo a contar estórias de homens apaixonados de espingarda na mão. falavam como num auditório, muito alto. sobre 'a morcona da mulher do tone que nem um filho da puta de um peixe sabe fritar'. tinham o cabelo manchado de cores. o entusiasmo das duas foi interrompido pela presença dos 'picas'.
tantos sacos, carteiras, mochilas com rodinhas e nada de andante. o 'pica' não pôde picar e por isso multou.
'oh foda-se, oh pica, deixe passar esta, é só uma paragem'. 'oh caralho, onde é que você 'tava que num o 'bi'...olhe, se sabia, ia noutro'.
o 'pica', um senhor bastante simpático para a linguagem que lhe era dirigida, explicou minuciosamente à mulher roliça mais descontrolada que eram 'as regras'. mas a mulher podia até saber fritar melhor peixe do que a mulher do tone, mas regras não era a sua praia. dizia ela que mal abandonasse o metro ia rasgar o papel da multa e esquecê-la. o senhor 'pica' pediu-lhe 'respeito'. será que é respeito no pagamento das facturas que o país nos anda a pedir há muito tempo? mas será que foi esse o metro que apanhámos sem pagar bilhete?
segunda-feira, setembro 30, 2013
das relações interpessoais
foi há uma semana.
o sol ainda existia. estávamos numa piscina. não sabíamos que era a despedida do verão.
sentamo-nos em duas cadeiras 'ao calhas'.
havia um casal ao lado. vizinho desse dia.
não nos encontramos de imediato. havia um guarda-sol entre nós. ficou entre nós o dia inteiro.
como diria uma tia: 'chispámos'.
como diria o poeta: 'primeiro estranha-se, depois entranha-se'.
os miúdos brincaram. aproximaram os pais. reconhecemos os pontos em comum.
as relações são estranhas. os seres humanos também.
mas existe algo mais valioso: o sangue que corre nas veias, a sensibilidade genuída de saber pelos olhos, as almas que valem a pena. nada é ao acaso. nem palavras ríspidas que terminam num abraço.
terça-feira, setembro 24, 2013
estórias de metro a metro - a música
onde há música há alegria. mas não é tanto assim, quando a melodia sai dos ouvidos de qualquer um no metro. seja manhã, tarde ou noite, há gente e gente com phones enfiados nos ouvidos, a tentar ser invisível ao mundo. só que o que acontece é precisamente o oposto. gente no metro com phones colados nos ouvidos atrai tudo e todos. atrai ainda mais gente. gente que não se importa, gente que curte, gente que não suporta, e gente que bufa. é que a música não lhes fica apenas nos ouvidos. sai de lá de dentro e impregna-se em tudo quanto pode. parece uma daquelas roupas que fica trilhada na gaveta do armário , se não a fecharmos com cuidado.
num destes dias no metro, um rapaz ia com a música aos berros nos ouvidos. e dormia. pacientemente. música? o som ia mais ou menos assim: tz, tz, tz, tz. não saia disto. há gostos para tudo. as frases dos avôs fazem cada vez mais sentido.
a vizinha, sentada no banco ao lado bufava por todos os lados. mexia-se no assento. mas o rapaz não acordava e a música não se calava. coube-me a missão de tirar o rapaz do mundo dos sonhos. olhou-me de lado. 'será que podias baixar o som, se faz favor', pedi. 'rgghhhrrrgghh', respondeu. a senhora agradeceu com um sorriso. voltou a realidade com a música de todos os dias.
sexta-feira, setembro 20, 2013
da tatuagem
é um grupo grande. 19, mais precisamente. há uma menina que chama a atenção. porque fala assim, né?
mas a mim o que me intrigou foi a tatuagem no braço. tem três palavras. e durante três dias não descansei enquanto não consegui decifrar as letrinhas pequeninas.
andava em volta feita borboleta. metia conversa. quase me pegava o jeitinho dela falar.
até que numa longa passa que ela dava no cigarro, agarrei a oportunidade, li sem ser vista, tirei sem roubar.
know your rights
agradou-me. até porque se dirigia a mim, e a ti.
pensei: não fosse má ideia gravar aquelas palavras na testa. é ridículo mas necessário nos dias de hoje onde se publicam anúncios do género:
queres ganhar 300 euros, não te importas de trabalhar 10 horas sem receber extraordinárias, apenas com uma folga semanal.
àquela frase eu acrescentaria I DO know MY rights.
tatuagens destas deviam sair nos pacotes de batatas fritas, para utilizar em ocasiões especiais - que já são de mais.
estórias de metro a metro - os livros
na carruagem do metro que eu escolho vão sempre pessoas com livros como se fosse filhos. os livros sentam-se no colo, a pessoa está ali mas não está ali. é aqui que a minha curiosidade extravasa.
seja homem ou mulher, primeiro agarra o livro como se alguém fosse agente de execução e penhorasse o livro. agarram com força o livro nas mãos, encostam-no à cara como se se tivessem esquecido os óculos em casa, e sempre que algum olho alheio tenta perceber o título ou o autor, o livro, na carruagem como troféu, é imediatamente escondido entre os braços. 'tu põe-te fina, tu nem tentes pegar no livro, tu não olhas o meu livro, o livro é só meu'. é um gesto mimado.
escrevia eu que as pessoas que lêem no metro não sabem que estão no metro. navegam. viajam. tornam-se outros. pelos breves minutos que a viagem do metro dura - as mesmas linhas de uma estória qualquer fechada entre duas capas - as pessoas que trazem ao colo um livro não tiraram o andante, mas sim um bilhete além da minha carruagem.
quinta-feira, setembro 19, 2013
estórias de metro a metro - o chinês
8h30. nem isso. olhares de compromisso com a cama - ainda. uns fumam. outros validam à pressa o seu andante para o metro. umas bocas abrem em preguiça, a acordar para a agenda do dia. cada um nos sapatos e fatos seus. cada um na sua vida. umas caras mais felizes do que outras, à espera do metro e do dia. é ali na estação do metro que começa a pressa do dia. é ali que também o relógio boceja pela última vez até alinhar os ponteiros com os olhares dos proprietários. de repente.
de repente um homem, de cara chinesa, agarra no telemóvel e fala. põe todo o cenário que sempre arruma aquela hora do dia em sobressalto. os bocejos descoordenam. os relógios desorientam-se. os olhares focam-se. no chinês. que decide falar alto. e, ainda por cima, em chinês. dong ding dong. dong. ding. dong. dong ding dong. aquilo foi um despertador. um motivo. basta um motivo para o dia começar com interesse, com magia, enfim, com uma estória para contar no local de trabalho na hora da pausa. 'sabes hoje ouvi chinês', 'não percebi nada', 'mas o meu dia começou assim', 'da china de ramalde com amor'.
domingo, setembro 15, 2013
estórias de metro a metro - línguas e cores
há um grupo de pessoas que se apodera do quadro com as informações sobre horários e zonas no metro. falam alto. ainda não os tinha visto da escada rolante e já imaginava o cenário: espanhóis, histéricos. aproximei-me do quadro, porque queria saber uma informação. mas esses espanhóis, desde há três séculos que nos querem à força - seja terra, mar, ou o quadro com as informações sobre as linhas do metro. de rompante olham para trás. deparam-se com o meu olhar intrometido, à espera de uma oportunidade de me inflitrar naquela tertúlia sobre para onde vai este e aquele metro.
fui presa fácil. apontaram-me os canhões das perguntas: quero ir para aqui, como faço? [sempre em espanhol, claro!] e eu, em português [sempre, claro, por patriotismo, apenas]: é assim, assim, assim. uma verdadeira professora, apontar para o esquema do metro, a explicar tudinho. os ' muchachos' na casa dos 50 anos foram embora e nem um 'gracias'. bem posso viver sem 'gracias'. não o fazia na terra deles, e ainda bem que houve um 1º de Dezembro e o grupo dos Quarenta Conjurados.
da debandada
acordar pela miúda num susto. preparar leite, café, pão, manteiga. comer. arrumar.
'vamos ao parque. vamos ao parque. vamos ao parque.'
'vamos, sim. deixa apenas isto. deixa só aquilo'.
'vamos, vamos, vamos, vamos'.
os ouvidos hipnotizam, cansam-se naquele v-a-m-os. é imperativo. é agora.
'ok, eu deixo o vamos para depois, para lá dos ponteiros'.
parque.
regresso a casa. avental. tachos. lume. miúda a puxar o avental, a fazer um comboio.dançamos todos. eu com o fogão. a miúda comigo. e os tachos ao lume.
comemos. arruma cozinha.
vamos brincar. vamos brincar. vamos brincar.
já percebi que são necessárias três vezes para a informação passar à acção.
'não, agora, descansas, enquanto eu isto e aquilo'.
dorme. finalmente,
acorda. lava cara. veste.
de debandada para o porto. para ver um amigo. o novo livro do amigo que já não via há muito. que falarei adiante aqui no fb. merece um espaço só dele.
vemos o livro, o amigo, e outros amigos. pessoas em debandada.
em debandada de jantares e concertos.
a minha debandada encaminhou-se para casa. sopas. 'bonecos, bonecos, bonecos'. e passar a ferros. terminei a debandada com o novo livro do velho amigo adormecido no meu colo e eu adormecida na almofada. foi a minha debandada do porto. e foi muito cool.
quarta-feira, setembro 11, 2013
Estórias de metro a metro – no Metro
As meninas sentadas atrás de mim falavam muito.
Havia, no entanto, uma palavra que sobressaía mais do que as outras. Diziam ‘caralho’. Tantas vezes quantas as que falavam. ‘caralho’ o almoço que fiz correu mal. ‘caralho’ tive de me despachar. ‘caralho’ ele não largava do meu pé. Até que: ‘caralho’ olha aquela ali tem um rabo de cavalo mesmo giro. Tive um igual mas perdi-o.
Pensei por ela: ‘caralho’. Por compaixão. Ter-se algo bonito e perder-se. É mesmo fodido. Principalmente para uma gaja que se prese.
Continuou a miúda atrás de mim que nunca conheci, a não ser a voz através do ‘caralho’: ‘tem estilo’. E tinha. Esta outra miúda, nos seus 20, entra vitoriosa no metro de vestido cor-de-rosa, de rabo de cavalo. Exibicionista. Parecia saber que alguém, ali, tinha um i-g-u-a-z-i-n-h-o. Mas naquele momento ela era a única.
‘caralho parece a Cleópatra’, comparava a tipa atrás de mim. E parecia. Mesmo. Eu confirmo. Senta-se mesmo à minha frente. Podia ver-me a mim, às outras que nunca vi.
Silêncio.
Devemos ter todas pensado: que grande ‘caralho’.
terça-feira, setembro 10, 2013
malas, nova iorque e acasos: palmira
os dois miúdos vão agarrados a quatro malas.
duas para cada um. o rapaz leva na cabeça um boné que diz new york, a rapariga tem umas unhas enormes e vermelhas de sangue com diamantes colados na ponta da unha. Um decote que dá para imaginar o que lá vai dentro. são miúdos. terão 15? 17? vao aos solavancos, eles e as malas. no metro: sentido/direction, aeroporto. irão sozinhos? para nova iorque (tendo em conta o boné do rapaz?
não sei. cochicham um com o outro. nos olhos trazem sono. mas já são 16h. ainda assim sono. viajo para dentro da cabeça daqueles miúdos. percebo que vão para nova iorque, que às tantas conhecem a minha prima. palmira. eu sei disto. eles não. separados por um banco no metro, mas com algo em comum. a palmira. tenho a certeza. tenho tanta certeza nisto. como nos acasos. se os miúdos não tivessem tomado o meu metro, sentado à minha frente, com o boné a dizer new york, nunca poderiam conhecer a palmira. mas eu acredito em acasos. a minha prima que está em nova iorque conhece estes miúdos. são, talvez, vizinhos, já lhes preparou refeições no restaurante onde trabalha. ou melhor, são vizinhos. eles não sabem, mas entre o meu banco e o deles existe um nome. palmira. porquê? porque os acasos existem, porque o mundo é pequeno, porque acredito mais na minha imaginação do que no meu país.
quinta-feira, agosto 22, 2013
s.t.
há um tiroteio de palavras, imagens, personalidade nas veias do sangue. daquela pessoa. desta pessoa.
eu luto contigo. tu lutas comigo. todos lutam com todos.
cansamo-nos. das regras. do passado. do que foi e do que não foi. apetece-me alvejar-te. e alvejá-lo. e alvejar-me. e, depois, fugir. como um assassino que limpou as provas do crime e vai jogar joguinhos com polícias, e saber que sairá impune. porque nunca tropeçou no destino.
estou indisposta com as regras do jogo. estou-me nas tintas para o destino. não concordo com nada. nada concorda comigo. estou com a corda pendurada eo pescoço. incomunicável.
sexta-feira, maio 24, 2013
Fizemos o caminho até Santiago e felizmente ficámos “quilhadas”
Quando me levantei da cama só queria voltar a deitar-me. Sentia-me enjoada, doía-me a cabeça e o cheiro das meias mal lavadas provocava-me vómitos. Na casa de banho, no primeiro xixi do dia, sangrava-me um pensamento
Hoje não vou ser capazDo lado de lá da porta da casa de banho, a Lila vestia uma t-shirt e uns calções e apertava o dedo mindinho do pé numas sapatilhas recentes, próprias para enfrentar guerras montanhosas. Ainda sentada na sanita, a ouvir a agitação organizada da Lila, ocorria-me um verso
Ama como a estrada começa.Eu vou conseguir,dizia eu dentro de mim. Mas o meu corpo traía-me. Na altura de puxar o autoclismo, a guerra entre corpo e mente era insuportável. Saí da casa de banho. A Lila deu-me bons dias. Disse que eu era forte e que não tinha dúvidas que iria conseguir. Enfiei a roupa. E com cada movimento fiquei mais convicta que, daí a instantes, o meu corpo diria à mente quem é que mandava. A Lila insistia que o pequeno-almoço iria reforçar o meu estado de alma. O meu estado de alma estava incrédulo. Às 7h30, uma miúda espanhola mal-humorada atirou um café com leite e torradas com compotas para a mesa. Queríamos comer antes de sair do hotel. Hotel? Eu estava no Caminho de Santiago. Eu não queria andar de carro e muito menos ficar num hotel. Comi metade. Fui sentir o hálito da manhã. Aliviei. O senhor que ia deixar-nos no albergue chegou, traído pela tatuagem da almofada na cara. Também mal-humorado. No dia anterior andámos 30 quilómetros de Tui a Redondela. Quando f-i-n-a-m-e-n-t-e chegámos, o albergue estava ‘lleno’. Cansadas, de estômago vazio, tomámos a decisão de ficar numa espécie de pousada: o senhor traído-pela-tatuagem-da-almofada-na-cara veio buscar-nos e, no dia seguinte, deixou-nos exactamente no sítio onde nos tinha encontrado. No carro, o homem-traído-pela-tatuagem-da-almofada-na-cara parecia um motor de arranque a falar: “El calor, el calor, mucho calor, 40 grados.” Eu com 40 graus de nervos e a primeira contracção de vómito. Começámos a caminhada. “Ok, eu sou capaz, eu amo como a estrada começa. Eu vou conseguir.” A Lila: “Tu és capaz, tu vais conseguir.” Eu: “Já sei! Preciso de sumo de laranja.” Já de mochila às costa a inaugurar o segundo dia de caminhada, tropeçámos no Máscara, um café com sumo de laranja natural. Melhor. Aliviei a cabeça. O estômago relaxou e eu assinalei o Caminho de Santiago com o meu vomitado. Deselegante. O meu dia só começou aí. Sentia a natureza pelo nariz. O bosque abraçava-me, quebrado pelo murmurinho de passes gigantes e barulhentos. O senhor sem nome aproximava-se de mim e da Lila, arrastando a mulher atrás que, por sua vez, tentava enganar o cansaço.
— Hola! Que tal? — (Ok, mais portuñol hoje.) — Bien! Que tal? — Bien! Tienes algo mal? — Ah, bien… o dedo mindinho [da Lila] está pisado (no meu melhor português). — Ah, portuguesas! Nós também! Já vimos desde Porriño… mas começámos em Ponte de Lima, de onde somos. — E vocês? — Nós começámos em Valença! — Estamos com a minha irmã e o meu cunhado… Vêm aí atrás… quilhados! Adeus!Eu e a Lila rimo-nos com o corpo inteiro. Soltei uma gargalhada do fundo de mim. A partir desse momento a palavra quilhado encriptou as nossas conversas.
7.8.12 – começa a viagem dos pés até SantiagoNo comboio antigo, eu e a Lila sentámo-nos na quinta fila viradas para o sentido da viagem. Apertadas com as banhas das mochilas. Falámos dos trilhos das nossas vidas. Dos poemas que almejávamos construir no futuro e o quanto precisávamos do caminho para seguirmos em frente. Do lado de lá do comboio a paisagem estava pintada com tons bucólicos e cheirava a maresia. Fazíamos a berma de Caminha, Vila Nova de Cerveira, a berma onde acaba a terra e continua o mundo no segredo do oceano. Tive fome. Saquei de uma maçã. Primeira dentada e yyeeccc… toda podre. Uma enorme risada. A viagem demorou mais de duas horas, mas passou rápido. Quando pinchei para a plataforma eram 18h20. Senti uma ou outra borboleta na barriga. Afinal, é assim que se estreia uma aventura. Começámos ali – na estação de Valença - o Caminho de Santiago com a mochila às costas. A segunda vez para as duas. A primeira vez, juntas. Atravessámos a ponte de Valença para Tui e surgiu a primeira aparição de uma paisagem bela. E o primeiro peregrino, o qual nunca soubemos o nome – no caminho conversa-se e conhecem-se as pessoas não os nomes -, mas que viríamos a tirar uma fotografia com ele e a dar um dedo de conversa. O primeiro albergue foi o de Tui. E dos poucos em que conseguimos uma cama. Dão-nos um género de forro para o colchão e para a almofada e depois o saco-cama faz o resto. Comunidade. A palavra que melhor descreve o ambiente e a vida dentro dos albergues dos peregrinos. E dos ginásios. Quando não há cama nos albergues, há colchões e duche nos ginásios. Em Pontevedra – terceiro dia de caminhada, eu e a Lila fomos encaminhadas por cinco euros para o ginásio mais próximo (um quilómetro). Lotado. O Caminho de Santiago está efectivamente internacionalizado. É bom e mau. De facto, o Caminho é de todos. Mas depois existe todo um comércio à volta que poucos sabem manter genuíno. Um dos poucos que sabe fazê-lo é o José do café em Padrón – última etapa da caminhada. Recebeu-nos de braços abertos, com um beijo na testa e uma fotografia de recordação — e tivemos de carimbar o caderno preto das suas memórias dos peregrinos. É quase como que uma caderneta com todos os cromos aventureiros que por ali passam. É um registo de gente feliz que quer viver a vida. Senti-me especial quando o José beijou-me a testa e desejou-me que os desejos da vida fossem sempre desejados, para assim serem concretizados. Esta foi a última noite antes da chegada a Santiago.
Último dia de CaminhadaPartimos ainda nem 7h30 o relógio marcava. Estávamos verdadeiramente felizes, tão felizes, que foi o único dia que choveu como que lágrimas da nossa felicidade, bênção da nossa peregrinação interior. Não sei se foi da neblina, do cansaço ou do facto de ter deixado de haver setas amarelas. Perdemo-nos. E aí percebemos que o nosso sentido de orientação é nulo. Subimos a montanha. Subimos. Subimos. Subimos. Para depois descermos. Descermos. Descermos. Graças a uma senhora muito engraçada que tinha dois cãezinhos como companhia, conseguimos retomar o caminho. Disse-nos que não estávamos no Caminho de Santiago. E levou-nos com uma bengala na mão até ao local onde tomámos a decisão errada ao virar à direita e não à esquerda.
Finally Santiago!Chegar. Foi quase como virmo-nos. Ter um orgasmo. Depois de suar, rir, chorar e trespassar todas as etapas do Caminho, alcançar Santiago, foi uma verdadeira ejaculação. Primeiro, andámos aos solavancos, ombros contra ombros. Rodeadas por demasiados turistas. Apertos. À medida que caminhava sentia-me num palco. Agarrei a Lila pela mão e fiz como se estivéssemos a dançar. Porque estávamos em festa. E quando se está feliz e em festa, dança-se. Os nossos corpos rebolaram dançantes até ficarem caídos diante da catedral de Santiago. Silêncio. Cá dentro. O sabor da vitória levantava pó dentro de mim. Eu e a Lila enfiámo-nos, cada uma, no seu caderno. A sós com os nossos segredos. Santiago é assim: um segredo a céu aberto.
quinta-feira, maio 23, 2013
do medo
às vezes alguém acorda de manhã e não tem nada na cabeça.
é um vazio. acontece muito por esta altura em que todas as cabeças estão ocupadas com muita coisa que nada tem a ver com aquela cabeça vazia.
então os bons-dias são rápidos, fugazes, muitas vezes fugidios.
deixa ver se ela não me vê para não perder tempo com cumprimentosé verdade o tempo corre, e cansamo-nos tanto a correr também atrás dele. também acontece acordarmos de manhã e termos a cabeça cheia. cheia de merda. títulos gordos dos jornais. insónias que nos lembram que o copo está, ao mesmo tempo, meio cheio e meio vazio. eu tenho a cabeça como o copo, ora cheia, ora vazia. e entre uma coisa e outra um medo. um pequeno medo em ponto cruz com a pequena dor.
aquela da cançãomedo de amanhã não poder fazer o que gosto. o que faz acordar todos os dias. não ser como aquelas meninas bem vestidas das capas das revistas que são privilegiadas porque a flecha do cupido lhes acertou. oiço tantas estórias. acredito em algumas linhas. não quero ser capa de revista, e quero vestidos à minha medida e ao meu gosto. sobretudo, quero acordar de manhã e ter a certeza que vou continuar a fazer o que gosto. mas há sempre 'ses'. e há um se que me distrai. um será que me desorienta. e as mãos levantam-se vazias. a tentar agarrar o futuro. que anda por ai algures. não sei se me a fintar. um medo que nao me larga.
quem tem cu tem medotenho vida à minha frente. o medo de não ser a pegar nas rédas do cavalo para ir de cabelos longos à solta, a fazer o que quero. alguém disse
o cavalo passa desmontado uma vez por nós, se passar a segunda já vai montadoa luta. de todos os dias. de acordar e levantar. a luta da coragem. a luta com o divino. a luta do medo.
quarta-feira, maio 22, 2013
da vida
quatro beijos. dois nele. dois nela. e depois tudo o que quisesse era meu. a casa, as favas, as batatas, o presunto, o sumo, e até um quarto.
a menina vem para cá e eu trato-lhe de tudoum mimo. aos 81 anos alguém dizer-me que me tratava de tudo [quando era agora a vez de alguém lhe tratar de tudo]. porque nunca pode tratar de ninguém. convidava-me assim a ser a filha que nunca teve. aquilo que nunca tratou. o desgosto que a vida lhe deu. viu-me pela primeira vez. não me conheceu defeitos nem qualidades. mas queria tratar de mim. e no fundo, por vezes, bem precisamos de um colo inesperado para desabafar sem falar, olhar sem dizer, contar sem falar. eu bem quis deitar-me naqueles 81 anos, ser tratada sem perguntas, esquecer-me das pessoas más, e agarrar-me aquele sorriso que me diz que há pessoas boas.
quarta-feira, maio 15, 2013
de manhã há um nevoeiro que persiste. e impede-me de visualizar os quilómetros que os meus pés já percorreram. trilhos sinuosos, altos e baixos, com sol intenso e chuva dura. e eu continuei a caminhar. a favor do vento. contra o vento. mas ...nunca parei. nem mesmo quando salpicos de sangue rompiam a roupa. mas, por vezes, há um nevoeiro que se acomoda e não me deixa ver tudo o que sou. mas sei, do fundo de mim, tudo o que preciso fazer é inspirar e expirar. porque quando o ar sair, sacode a bruma do nevoeiro. e nesse momento, entre um sopro e outro, eu vou ver, quem sou. o meu passado, presente e futuro. o que quero e o que não quero. as minhas cores, formas, o meu chão e o meu céu.
terça-feira, maio 07, 2013
falta um dente no sorriso do pastor.
estende a mão num cumprimento alegre e apertado como a simpatia.
"a menina...menina, porque para mim, todas as mulheres são meninas desde o dia em que nascem até ao dia em que morrem...a menina tem antepassados judaicos. tem olhos claros".
atrás de agostinho monteiro, cabras e ovelhas, centenas, saltam agitadas de um lado para o outro na lama de palha. no meio da exploração há uma banheira cheia de água da chuva, onde o porto bebe com a língua de fora - como os cães saciam a sede.
"dou nome de cidades aos cães, porque fui emigrante".
coça a testa, recua no passado e continua:
"andei pela frança com passaporte de coelho. sabe o que é um passaporte de coelho? antes do 25 de abril íamos pela noite para fora do país, trabalhei lá na citroen. regressei, felizmente, e para me lembrar do nosso portugal pus nomes do nosso porto, da nossa lisboa, do nosso mondego aos cães" - guardadores do rebanho.
bem, senhor agostinho, agora os pastores são obrigados a cumprir obrigações fiscais. o que pensa sobre isto? tem rendimentos que justifiquem esta nova medida?
"tenho 80 anos, uma reforma de 250 euros, centenas de cabras que vão parir no monte, eu tragos as crias às costas, fodo as costas. só se lembram dos pastores com o cabrito na mesa. quando os pastores deixarem de existir, deixa de haver comer na mesa. e depois perguntam: onde há pastores? há muitos a desistir disto por causa deste país pobre e porco, que trata com miséria quem lhe dá tudo".
os olhos do pastor agostinho são claros o que me leva a pensar que também ele tem origem judaica.
"jesus foi o primeiro comunista na terra. queria plantar o bem. dar educação e saúde a todos".
por momentos penso que eu e aquele pastor partilhamos a mesma árvore genealógica.
quarta-feira, abril 24, 2013
[s.t.]
Hoje pus o amor fora de portas
a dormir
Como se faz com um gato intrometido.
Hoje não me apetece regar o amor.
Pu-lo a dormir lá fora, ao relento
no tapete de entrada
à porta de casa .
Apontei-lhe o indicador
e repreendi-o.
Hoje não lavei o amor.
Mandei-o embora.
Mandei-o aquela parte.
Para mim o amor asfixiou-se no céu preto e brilhante da noite.
O amor hoje perdeu
rebolou pela rua
caiu da ponte.
Hoje virei a cara ao beijo do amor.
Bati com a porta.
Bati com as costas.
Bati com a vida na cara do amor.
Escrevi ‘a’ em letra pequena.
Ergue-se a manhã,
com luz
com sol.
Estendem-se ingratamente no novo dia,
o céu grande, azul.
Abri a porta.
E no tapete, a rastejar
estava o amor.
Fiel como um cão
a pedir, clemência.
sábado, março 02, 2013
Conversas de Tricot
o contrato
Ela era enfermeira e o marido também. Aos 42 anos o marido teve um avc e entrou em coma.
Os olhos dela abrem-se e a luz do dia entra toda. Pára de recortar o papel para recordar o que já lá vai para lá de 20 anos.
Toda a gente me dizia, prepara o funeral. A urna estava comprada. As missas encomendadas. As lágrimas entravam em cena. Mas eu não me acreditava. Um filho de 16 anos. Eu já não tinha mãe. Tinha 40 anos. Não podia ficar sem marido. Tão nova, tão desamparada. Na flor da idade, no auge das nossas vidas.
Um suspiro. Uma pausa para acertar com a tesoura.
Ai que estória de amor a nossa. Conhecemo-nos no hospital. Eu tinha acabado de receber uma carta de angola do namorado a quem estava prometida. Ele acabara de acabar comigo. Por carta de angola. Do ultramar. Eram traumas, percebe? Eu triste. A minha mãe morreu de desgosto.
Dois suspiros. Pausa para acertar com a tesoura no papel.
O meu marido entrou ao serviço. Disse-lhe logo, não tenho tempo para brincadeiras. Ou é sério, casamento. Ou então, não, fico sozinha. Ele disse que é sério, casamento. Seis meses, casamento. Tudo seguido. Para não perder tempo.
A tesoura foge. Alinha papel. Corta novamente.
Ai filha, o que passei. Quatro meses em coma. Tudo a dizer-me, vai morrer. Eu enfermeira. Eu a saber. Eu religiosa. Fiz um contracto.
Isto está ficar mal. Acerta papel. Acerta tesoura. Começa de novo.
Com a nossa senhora. Ou morre de uma vez ou um sinal para saber se vai viver. O homem, 42 anos, enfermeiro, pai e marido. Avc. Abre um olho, caí uma lágrima. O sinal. Que mais queria eu de sinal. Nossa senhora cumpriu. Cancela urna. Médicos balançam no sinal. Lágrimas entram em cena. Desta vez emoção de alegria.
Está a ficar bem este desenho recortado. Pode ficar melhor. Troca tesoura.
Sai do coma. Mãe e filho saem da agonia. Nossa senhora. A fé. Os médicos confusos com a fé e a ciência. Homem, 42 anos, avc, coma. Vive. Sem fala. É o menos. Tenho marido, tenho filho.
Já está, ficou bem. O papel recortado. A tesoura pequena serviu.
Viajamos. O filho casou. Há netos. A vida é-me muito boa. Nossa senhora.
Sequelas. O meu marido fala do túnel, de experiências de quase morte. Esteve morto. Afinal. Mas o contracto. A nossa senhora.
“Nossa”.
sexta-feira, janeiro 04, 2013
quinta-feira, dezembro 06, 2012
os corações efeitos-borboleta
é miserável pensares que os corações (sobre)vivem isoladamente. é mentira. uma verdade comprada. não há ditado mais mentiroso do que aquele que prega 'longe da vista,longe do coração'. o mundo é mudo em palavras, mas recheado de imagens, conta a estória verdadeira desta vida - os corações não andam sós. são ímans, são efeitos-borboleta. batem de um lado e causam intempéries do outro lado do peito.
o coração da dona maria é um vendaval. o coração da filha da dona maria é um lago com cisnes a boiar.
mãe e filha, separadas por anos de muitos relógios, doenças daquelas tão feias que não deviam existir. alguém disse, 'até um relógio parado, está certo duas vezes por dia'. ponto de encontro. acertaram os ponteiros e (re)encontraram-se. um abraço constrangido por lágrimas. uma teia só desenvencilhada por Deus. somos barcos à deriva. e os corações. esses apesar de sós, nunca andam sós. bate de um lado, vendaval do outro. é esta a verdade deste mundo.
quinta-feira, outubro 11, 2012
o jornalismo
ando com as palavras anoitecidas.
preciso de páginas em branco para perceber o que tem acontecido.
para madrugar os pensamentos.
estou com os sonhos de criança tingidos. sinto-me só na minha profissão. sinto que a minha profissão está à deriva.
dizem que os jornalistas são colaboradores.
que a tinta está cara.
e que o melhor é atirar tiros às pessoas que escolheram o jornalismo, que escolheram ser felizes.
as crianças no meu tempo de criança queriam ser tudo o que não são hoje. porque naquela época não imaginavam o futuro. nem davam importância ao que queriam ser.
eu sabia. eu quis desde que me conheço ser jornalista. e é um grande privilégio sê-lo.
para dar voz a quem não consegue gritar.
para espelhar uma sociedade no trapézio da vida.
de repente.
cresço. e há uma sensação preocupante e séria em torno do jornalismo.
há uma tendência para algemá-lo. calá-lo.
há aqui uma tentativa de homícidio.
não foi por isto que me apaixonei.
o jornalismo ensina a liberdade.
evoca a liberdade.
grita o grito.
eugénio de andrade disse num verso que é urgente o amor.
é urgente insurgirmo-nos.
é urgente desamarrar.
é urgente lembrar de onde vem o jornalismo para sabermos quem é ele.
é urgente respeitar o jornalismo.
não pode ser isto, o jornalismo.
não pode ser despedimento. nem colaboradores.
é urgente recordar a paixão do jornalismo. os seu valores.
é urgente fazer jornalismo.
segunda-feira, setembro 24, 2012
começou o outono.
apercebi-me pelo cheiro que emana das árvores.nem tanto pelo calendário. os meus cabelos voaram esta manhã como já não voavam há muito.
eu gosto do verão. mas também gosto de ficar do lado dos mais pobres e dos mais fracos. ou seja, do outono.
o outono perde nas estações do ano. até mesmo para o inverno.
o outono vive precisamente entre a alegria do verão e a tristeza do inverno. muitos pensam que a tristeza do inverno começa no outono.
mas estão todos enganados.
o outono tem charme e é meigo.
serve de psicólogo - começa uma sessão de preparação para tempos menos bons.
eu gosto do outono, e eu sei, eu sei, que ele gosta de mim.
sábado, julho 14, 2012
T. queria espetar uma faca na alma. mas isso não mataria o arrependimento. T. queria ser uma serial killer de corações despedaçados. só para poupar a dor prolongada de uma doença sem cura. Saíu de casa, louca, com os cabelos a fintar o vento, e correu. correu relógio fora. apenas para esquecer os desarranjos da alma. na esperança de alcançar o inesperado. que tal como a alma, é imperfurável. o arrependimento é imperfurável.
sexta-feira, julho 06, 2012
adeus
quando conheci a sãozinha não sabia que seria minha avó para sempre.
nasceu já velha para mim. eu no início da vida. ela com cabelos brancos e pele enrugada que teimava com todos os tempos.
uma mulher do campo, forte, resmungava por tudo e por nada, e por tudo e por nada dava gargalhadas - muito altas.
só me apercebi destas características quando ganhei consciência.
os meus avós moravam na rua do casal e a sãozinha também. muito conveniente para me deixarem de manhã antes do trabalho. eu era o trabalho de sãozinha. todos os dias pelas 07h30 a porta da casa mais velha da rua, da senhora mais velha da rua, rangia. e eu também, porque via a minha mãe e a minha avó irem para o trabalho. amar custa. o tempo foi passando, o meu tempo também, e certo dia em que dei folga à sãozinha, apercebi-me que a amava. e ela a mim.
a partir daí, sãozinha mudou a semântica e semiótica da palavra e imagem sãozinha. passou a ser a avó, e o marido avô.
os outros netos primos, os filhos tios.
mais do que família, sãozinha para mim reflecte uma boa parte do meu ser, e do meu lugar do mundo.
gosto de feijões pela teimosia da avó sãozinha. não tenho medo de cães nem de gatos, porque corria o campo todo em liberdade. aprendi que o vinagre faz milagres. aprendi a rezar e a dar graças - ou não fosse a avó sãozinha a mais antiga catequista de Rio Tinto. sobretudo, deixava-me brincar com martelos a fingir que eram microfones, e punha-se a rir das minhas figuras.
um dia sãozinha perdeu a memória. ficava admirada de me ver dizer que eu era a joana, a joaninha, a neta de nenhum filho. depois arregalava os olhos e dizia: espera lá, a joana é pequena com uns grandes olhos azuis. "tu és ela?" a minha avó sãozinha parou as memórias no tempo delas. e fez bem.
a palavra adeus é longa. tem 30 anos de existência.
quinta-feira, março 29, 2012
andar de autocarro é maravilhoso. vê-se a cultura na sua forma humana. a poeira de palavras e conversas atravessam todos os ouvidos. mesmo os mais distraídos.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
um vislumbre.
um vislumbre.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
sexta-feira, janeiro 20, 2012
terça-feira, setembro 20, 2011
hoje vi uma menina de saia rodada, camisola do ano passado, de chinelas coloridas e unhas já gastas do dia, tropeçar num buraco da rua. a mãe chamou-lhe atenção. não ao buraco. à menina. presumo que o buraco não seria tão grande quanto aquele em que todos estamos agora metidos - por isso, o dói-dói não foi muito.
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?
sábado, agosto 27, 2011
está cientificamente provado que com a perda de um dos cinco sentidos, os restantes (sentidos) intensificam-se na sua própria função.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.
sexta-feira, julho 22, 2011
há um cemitério de palavras dentro do corpo de M.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.
sexta-feira, abril 29, 2011
quinta-feira, abril 21, 2011
sonhando-sempre-com o do lado.
a vida sente-se do vidro da janela para fora.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.
quarta-feira, janeiro 12, 2011
o mundo das gaivotas está em estado de alerta. vem ai uma gaivota que grita mais do que as outras. que ri mais do que as outras. que come mais do que as outras. que chora mais do que as outras. que sorri mais do que as outras. que ama mais do que as outras. que sofre mais que as outras. que teme mais do que as outras. que corre mais riscos. que é mais feliz. que é mais bonita. e mais feia. e mais louca. e mais simpática. e mais bela. e mais inteligente. e melhor. mais. e mais. mais do que as outras. uma única gaivota é mais em tudo do que todo o mundo das gaivotas.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.
domingo, dezembro 26, 2010
apetece-me fugir de mim para mim.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.
quinta-feira, novembro 11, 2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
ali
ficava ali o tempo todo. se o mesmo tempo me permitisse.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.
quinta-feira, agosto 19, 2010
sábado, junho 19, 2010
a passarola voadora morreu
José Saramago, prémio nobel da literatura em 1998, morreu.
Poeta e escritor português.
A morte do escritor apanhou-me de surpresa. Toda a morte apanha de surpresa, ainda que seja inevitável. Não existe imortalidade a não ser para a obra que fica da pessoa, neste caso de Saramago.
José Saramago parafraseou Ricardo Reis quando este escreveu: "Nada fica de nada". Para o escritor português "nem ficam as obras".
Mas ficam! Quanto mais não seja na prateleira lá de casa. Na memória. No facto de ter feito a minha vida de estudante à volta de testes e exames que incluiam as ideias e palavras de Saramago. E isso fica.
Não tenho feito grandes coisas nesta vida, mas pelo menos consegui uma: assistir a uma palestra formidável de José Saramago aqui há 6 anos, em Braga.
Eu quero lá saber das divergências com Deus, o País, ou o comunismo. Sei que gostava das palavras, das estórias, e esse legado fica para sempre. Para lermos aos filhos, netos e a quem mais queira aprender o mágico mundo de juntar letras a fim de dar ao mundo uma mensagem...sobre a blimunda sete-luas e o bastasar sete-sóis. Não é lindo?
Poeta e escritor português.
A morte do escritor apanhou-me de surpresa. Toda a morte apanha de surpresa, ainda que seja inevitável. Não existe imortalidade a não ser para a obra que fica da pessoa, neste caso de Saramago.
José Saramago parafraseou Ricardo Reis quando este escreveu: "Nada fica de nada". Para o escritor português "nem ficam as obras".
Mas ficam! Quanto mais não seja na prateleira lá de casa. Na memória. No facto de ter feito a minha vida de estudante à volta de testes e exames que incluiam as ideias e palavras de Saramago. E isso fica.
Não tenho feito grandes coisas nesta vida, mas pelo menos consegui uma: assistir a uma palestra formidável de José Saramago aqui há 6 anos, em Braga.
Eu quero lá saber das divergências com Deus, o País, ou o comunismo. Sei que gostava das palavras, das estórias, e esse legado fica para sempre. Para lermos aos filhos, netos e a quem mais queira aprender o mágico mundo de juntar letras a fim de dar ao mundo uma mensagem...sobre a blimunda sete-luas e o bastasar sete-sóis. Não é lindo?
quinta-feira, maio 20, 2010
por vezes o sol que varre as estradas é injusto.
porque parece chuva, para alguns.
uma chuva intensa, amarga, que queima as lágrimas
que querem sair. para limpar - dizem. para desabafar - relatam. para expelir - confirmam outros.
o sino não pára de tocar.
toca sem parar.
toca. toca. toca.
o padre fala para ouvidos moucos. porque a dor é surda.
a dor é um casaco impermeável.
é fechar as portas do nosso mundo ao mundo.
os abraços e beijos são vazios.
corridos a pó, a vento.
um choro com pauta
arranca um coro de soluços.
acordes num anfiteatro branco,
de mármore.
um anfiteatro que nos espera. a todos. sem excepção.
o amor enterra-se, mas não morre.
cai terra, caem flores.
mas o amor...
como está escrito na bíblia...
esse...
tudo pode, tudo crê, tudo sofre, tudo espera.
porque parece chuva, para alguns.
uma chuva intensa, amarga, que queima as lágrimas
que querem sair. para limpar - dizem. para desabafar - relatam. para expelir - confirmam outros.
o sino não pára de tocar.
toca sem parar.
toca. toca. toca.
o padre fala para ouvidos moucos. porque a dor é surda.
a dor é um casaco impermeável.
é fechar as portas do nosso mundo ao mundo.
os abraços e beijos são vazios.
corridos a pó, a vento.
um choro com pauta
arranca um coro de soluços.
acordes num anfiteatro branco,
de mármore.
um anfiteatro que nos espera. a todos. sem excepção.
o amor enterra-se, mas não morre.
cai terra, caem flores.
mas o amor...
como está escrito na bíblia...
esse...
tudo pode, tudo crê, tudo sofre, tudo espera.
segunda-feira, abril 26, 2010
Trechos de uma alma desalmada.
ela olhava-o de soslaio. acomodava a cabeça no colo e pintava-lhe o céu no rosto.
bebia-lhe da frescura de um olhar deserto.
borrava-lhe a cara de beijos tão soltos quanto o vento. e a isto chamava amor.
porque o amor é o que o Homem quiser.
bebia-lhe da frescura de um olhar deserto.
borrava-lhe a cara de beijos tão soltos quanto o vento. e a isto chamava amor.
porque o amor é o que o Homem quiser.
sábado, abril 24, 2010
terça-feira, abril 13, 2010
domingo, abril 11, 2010
aldeia com gente
o caminho não é estreito. é muito estreito.
curva atrás de curva. não passam dois carros. mas faz-se por isso.
entalados entre duas montanhas, subimos a estrada até à Ermida de Ponte da Barca.
o carro só consegue chegar em primeira.
passa verde. passa pedra. passa vento. e passa muito sol.
chegámos à Ermida. acima de nós o céu. abaixo o mundo.
em frente aos olhos uma aldeia com gente: a Ermida de Ponte da Barca.
um homem com chapéu, um olhar gasto e feliz apresenta-nos as casinhas em pedra, o museu da aldeia, o único café, a Igreja dos seis santos a senhora mais velha da Ermida e a criança mais nova - das que restam.
Apresenta. Não se queixa.
Passa uma vaca e ouve-se o mugir de umas tantas outras. Cheira a merda.
"Cuidado". Não vá, às vezes, pisar. "Que se foda", dizem.
Quando a natureza é maior que o Homem. Que se foda mesmo.
Gente genuína. Gente com aldeia. Aldeia com gente.
A ver, a partir do dia 13 Abril, em www.localvisao.tv, no distrito de Viana. [entre muitas outras coisas]
curva atrás de curva. não passam dois carros. mas faz-se por isso.
entalados entre duas montanhas, subimos a estrada até à Ermida de Ponte da Barca.
o carro só consegue chegar em primeira.
passa verde. passa pedra. passa vento. e passa muito sol.
chegámos à Ermida. acima de nós o céu. abaixo o mundo.
em frente aos olhos uma aldeia com gente: a Ermida de Ponte da Barca.
um homem com chapéu, um olhar gasto e feliz apresenta-nos as casinhas em pedra, o museu da aldeia, o único café, a Igreja dos seis santos a senhora mais velha da Ermida e a criança mais nova - das que restam.
Apresenta. Não se queixa.
Passa uma vaca e ouve-se o mugir de umas tantas outras. Cheira a merda.
"Cuidado". Não vá, às vezes, pisar. "Que se foda", dizem.
Quando a natureza é maior que o Homem. Que se foda mesmo.
Gente genuína. Gente com aldeia. Aldeia com gente.
A ver, a partir do dia 13 Abril, em www.localvisao.tv, no distrito de Viana. [entre muitas outras coisas]
sexta-feira, abril 02, 2010
a playlist da joana
"If God has a master plan. He only understands. I hope is from your eyes, He is seeing through."
quinta-feira, março 25, 2010
As mãos de Júlia Ramalho II
Baptista-Bastos escreveu o título número um. Prosseguia em lua-de-mel por este Portugal fora quando conheceu Júlia Ramalho - e toca a registar as mãos de Júlia na imprensa portuguesa. Eu decidi escrever o II (que me perdoe o outro jornalista).
Para lá de Barcelos, existe um sítio que se chama Galegos S. Martinho. E aqui existe uma senhora com mãos de condão. É com pessoas como Júlia Ramalho que me entusiasmo na profissão. São estas que valem a pena e que conseguem arrancar um sorriso nos dias a fio que se leva com alguma ingratidão.
Eu gosto do que faço porque conheço pessoas especiais. Pessoas que não ouviria falar se não fosse pelas reportagens locais. Nestas pessoas, não há azáfama, nem correria, nem bocejos de preguiça. Existe uma alma. Um empenho.
Júlia Ramalho trabalha figuras do imaginário, de Barcelos, do que as pessoas lhe encomendam. A avó, Rosa Ramalho, já tinha jeito para o artesanato na época do antigo regime - não teve oportunidade de mostrar essa graça. A neta nasceu com o dom e soube-o aplicar. Em casa tem uma oficina onde estraga as próprias mãos a dar mimos ao barro; tem também uma espécie de museu onde guarda as peças mais bonitas e com muita estória. Daquelas que são sussurradas no ouvido - nunca diante de um microfone. Portanto, se quiserem ouvir estas estórias, preencher um pouco mais de alguns dos dias vazios, Galegos S. Martinho, onde está Júlia Ramalho (devidamente sinalizada) é uma personagem e tanto, com a vantagem de ser verdadeira...ainda que pareça saída de um livro.
Para lá de Barcelos, existe um sítio que se chama Galegos S. Martinho. E aqui existe uma senhora com mãos de condão. É com pessoas como Júlia Ramalho que me entusiasmo na profissão. São estas que valem a pena e que conseguem arrancar um sorriso nos dias a fio que se leva com alguma ingratidão.
Eu gosto do que faço porque conheço pessoas especiais. Pessoas que não ouviria falar se não fosse pelas reportagens locais. Nestas pessoas, não há azáfama, nem correria, nem bocejos de preguiça. Existe uma alma. Um empenho.
Júlia Ramalho trabalha figuras do imaginário, de Barcelos, do que as pessoas lhe encomendam. A avó, Rosa Ramalho, já tinha jeito para o artesanato na época do antigo regime - não teve oportunidade de mostrar essa graça. A neta nasceu com o dom e soube-o aplicar. Em casa tem uma oficina onde estraga as próprias mãos a dar mimos ao barro; tem também uma espécie de museu onde guarda as peças mais bonitas e com muita estória. Daquelas que são sussurradas no ouvido - nunca diante de um microfone. Portanto, se quiserem ouvir estas estórias, preencher um pouco mais de alguns dos dias vazios, Galegos S. Martinho, onde está Júlia Ramalho (devidamente sinalizada) é uma personagem e tanto, com a vantagem de ser verdadeira...ainda que pareça saída de um livro.
domingo, março 14, 2010
Recado aos Amigos Distantes
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles, in Poemas (1951)
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
Cecília Meireles, in Poemas (1951)
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