um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.

quarta-feira, junho 03, 2009

Melros

A P. disse-me: "se vires melros de bico amarelo significa boa-nova".
E eu digo: Há males que vêm por bem. Ou assim quero crer [já que vi três melros de bico amarelo, e duas das 'novas' não foram boas].

segunda-feira, junho 01, 2009

De facto,
quem é pequenino é pequenino
e quem é grande é grande
mesmo que não seja Grande.

sexta-feira, maio 29, 2009

Algo me escapa

A campanha portuguesa na corrida para um lugar no Parlamento Europeu, está um tanto ao quanto desfocada. Se é uma campanha para um lugar europeu, não é lógico que se fale de um imposto europeu, e de medidas europeias, e de assuntos europeus com ponte para os assuntos nacionais? Ou estarei enganada?
É que o definhar de discursos políticos por parte dos candidatos considerados 'maiores', não passam de guerrinhas de bastidores, e de um cuspir de bocas foleiras de quem está mais preocupado em afirmar a própria imagem, do que afirmar o País na Europa.

quarta-feira, maio 20, 2009

Cenário pidesco

Um professora de uma escola EB 2,3 de Espinho em vez de se cingir aos assuntos inerentes à sua disciplina, abordou temas da vida sexual, de uma forma, ao que parece pela gravação pública, imprópria para meninos entre os 12 e os 13 anos.
A "senhora doutora", como gosta de ser anunciada, incorre agora numa pena que pode ir à própria demissão.
Só que a estória não se fica por aqui: não é que a aluna que não gostou dos termos grosseiros da linguagem utilizada pela "senhora doutora", também arrisca-se a ser punida. Porquê? Porque gravou o palavreado sem nível, a autoridade pidesca e as ameaças da professora. E aparelhos electrónicos não são autorizados nas salas de aula.

Ou seja, se a aluna não tivesse gravado, a turma continuaria a ter que suportar uma professora que desvaloriza a própria profissão. A professora não seria castigada, mas a aluna também não.

Esta mensagem não é um bocadinho a querer dizer: meninos não dêem que fazer nem à DREN, nem ao Ministério, e continuem na boa. Somos um país à beira mar plantado. E este é o espírito.

segunda-feira, maio 18, 2009

Dia Internacional do Museu e Serralves

Segunda-feira. Metereologia indica sol. O principezinho sem aulas. Dia Internacional do Museu.

Foi só seguir estes sinais do mapa de hoje, para me lembrar da Fundação de Serralves. Do seu Museu, e de que hoje a entrada não tinha barreiras.

Vai daí, pude apreciar as boas fotografias de Guy Tillim, fotógrafo sul-africano, quem registou os conflitos que perseguem os países africanos do período pós-colonial, a exemplo disso, Congo, Angola e Moçambique.

Mas quem lá está a dar nas vistas é a galesa Bethan Huws. Esta artista fez-me entrar na máquina do tempo, e recordar os bons velhos tempos que passei na Tate Modern. Bethan tem por base a corrente artística conceptual, cujo pai é Marcel Duchamp. O mesmo é dizer que a sua arte tanto pode ser liberta por aguarelas feitas a partir da sua memória infantil, como de objectos da nossa rotina diária [garrafas de vidro, por exemplo] que têm subjacente um outro significado que não o primeiro por nós atribuído.

Mas o curioso, para além de palavras com mensagens tatuadas em vitrines, é um falso chão colocado acima do chão real de Serralves. A artista quis representar o chão como o alicerce da nossa presença no mundo.

A minha parte preferida foi mesmo a arte do meu irmão a rebolar na relva dos jardins do Museu. A cada cambalhota, o meu coração dava outra.

[Isto é só para não dizerem que escrevo apenas tótózadas surrealistas, sem significado aparente. Este texto é real]

sexta-feira, maio 15, 2009

Só.
Gosto da companhia de estar só. De ao meu lado ter um lugar vazio, cheio de mim.
Gosto de antíteses, e de ser diferente. De pensarem que nasci com trissomia 21. 2+1=3. A conta de Deus.
Gosto de viver em prelúdios constantes e prolepses defeituosas. Gosto de no armário encontrar dependurada numa cruzeta velha e partida, a minha alma.
Só.
Gosto da valsa amarga de uma rua vazia. Gosto de caminhar mil vezes na mesma rua, até que esta me diga "olá". Gosto da palavra 'adeus'. Gosto da música pimba do vizinho. De obras. De despertadores. De acordar cedo. De viajar no tempo. De ter um dia meu. E de o empacotar numa mala de sonhos vazios e sós.
Só.
Gosto do que o outro não gosta. Venero o que o mundo afasta. Gosto.
Gosto de pontos finais e de parágrafos. Gosto que não me entendam e me chamem chata. Gosto do mistério de não saber os que as pessoas pensam de mim. E de, no fundo de mim, fazer delas personagens, atribuir-lhes nomes, que elas não sabem. De lhes desenhar uma estória. Oferecer-lhes um destino, à minha escolha.
Só.
Gritar e ouvir o meu eco. Vê-lo. Senti-lo. Ser o meu eco.
Gosto de ter olhos cor de azeitona.
De me enfiar em caixas para cair em asfixia.
Só.
Gosto de ler dicionários como se fossem literatura. Gosto de figuras de estilo.
Gosto de matemática. De fazer contas por cabeça, até perder todos os meus cabelos.
Só.
Gosto da palavra só. Enfiá-la no bolso como uma arma. E apontá-la quando cães invadirem o meu espaço, e me ladrarem alto. Para os afugentar. Para os acalmar. Para que percam todos os dentes. Para que empurrem a palavra 'só' para um qualquer gueto. Para que nela, nasçam versos de um poema constante de quem gosta de estar só. E nisso, não ver nenhum mal.

sábado, maio 02, 2009

O relógio relatava que o dia ia longo, quando B. atravessou a larga avenida de Liverpool St., em Londres. Cansado, percorreu a custo a estação de metro da também cansada Liverpool Station. Era dia de semana. Muitos corpos percorriam aquele corredor cinzento da estação. B. encontrava-se esgotado e embrulhado em malas pesadas e cheias de nada. O único pensamento que lhe ocorria era qual o estado de cada um dos corações guardado em cada um daqueles corpos que lhe derrubavam o equilíbrio. Foi quando venceu o último degrau das escadas que o guiavam até à sua plataforma que B. se deu conta de quem iria estar à sua espera no quarto, ainda desconhecido, quando lá chegasse: a solidão. E, não saberia, como lhe cumprimentar. B. chegou ao quarto, à solidão.

- Boa tarde, senhora Solidão.
-
- Boa tarde. Mais uma tentativa.
-

A solidão abraçou-o, mas B. só queria um aperto de mão.
Chorou. Chorou porque tinha saudades da Mãe.
Foi quando viu a Mãe na mala. Estava lá. Em forma de bilhete. O mais bonito bilhete.
Para B. mostrar ao mundo que tinha o Mundo. Porque tinha a Mãe.

Feliz dia da Mãe, Mãe.

quinta-feira, abril 30, 2009

...

Em certos dias, nem sabemos porquê sentimo-nos estranhamente perto daquelas coisas que buscamos muito e continuam,no entanto, perdidas dentro da nossa casa.

José Tolentino Mendonça

Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós, e estranhamente nos vêm ter às mãos. Assim, sem aviso prévio. Encontram-nos desarmados, carentes. É, por isso, que gosto tanto da poesia. A poesia é Deus. Deus apenas. Sem religião. A sua beleza consiste na certeza dela ser Deus, sem ninguém o saber, e todos o sentirem.
Frases há, que são socos. Badaladas no estômago. Imagens beatificadas. Encurraladas numa caixa de Pandora. E de lá saem, em forma gasosa para nos dar cabo de mais uma manhã. Mais uma. Em que lutamos. O mundo aberto e nós fechados. Contra o vento, num quarto circunscrito de quatro paredes. Não, oito.
Em certos dias, lemos coisas que foram estranhamente escritas para nós. Antes de nascermos. De forma a cumprir o destino. Aquele que ninguém crê, e todos o seguem. Sem grandes interrogações. Na luta de cada manhã. Mais uma para nos lembrar: que talvez será naquela manhã que o mundo virará do avesso, para assim ficar composto.justo.direito.sonhado.arrumado.

sexta-feira, abril 24, 2009

há socos de vários tipos.
de paixão.
de amor.
de ódio.
de compaixão.
de solidariedade.
há socos de prazer e outros de dor.

B. queria sentir um soco. qualquer um que fosse. só para se sentir vivo.

quarta-feira, abril 08, 2009

Gosto de fotografia. Percebo pouco. Mas gosto. Muito.

Não páras quieta

Esta era a frase predilecta da Mãe quando ralhava comigo em pequena.

Não páro quieta mesmo:

http://www.flickr.com/photos/planetab612/

terça-feira, abril 07, 2009

O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse hoje que não gostava de desempenhar tal cargo num País em dificuldades[como é o caso de Portugal]. Contudo, dadas as circunstâncias, devemos dar o nosso melhor - ainda desabafou.

E eu concordo e subscrevo aquelas palavras: eu, por meu turno, também não me apraz lá muito ser cidadã deste País. Podia-me ter calhado na roda da sorte outro bem melhor, mas também podia ser pior. Portanto, dadas as circunstâncias, tento fazer o meu melhor.

É este um pouco o espírito português: ninguém gosta, todos lamentam, faz-se o melhor.

quinta-feira, abril 02, 2009

terça-feira, março 31, 2009

je ne regret rien

Vejo-me sentada numa cadeira de uma mesa de uma das salas de uma determinada empresa de recursos humanos. Pedem-me para fazer testes. Psicotécnicos. Aqueles cheios de figuras geométricas. De palavras. Tudo desordenado. Para ordenar. Vejo-me e revejo-me. E ao colocar ordem nas figuras e palavras catalogadas abaixo dos meus olhos, rasgo tudo em pensamento. Assassino aqueles papéis mentirosos e insultuosos. Deixo-os morrer a conta-gotas. Entregues à dor.

Depois de tanta tinta borrada num currículo elaborado a custo [quer por mim, quer por aqueles que incondicionalmente tratam de mim]. a á r d u o custo. pedem-me para fazer uns testes. Como se fossem estes testes que traduzissem a minha sanidade intelectual.

[o título quer transparecer que tudo o que consta na minha vida foi por puro divertimento, prazer e emoção. feito a custo, mas também muito sonhado, por isso sou feliz, ainda assim, ainda vivendo e convivendo no País torpe de Eça]

sábado, março 21, 2009

...a gente aceita as coisas sem as pensar, deve ser a defesa instintiva da espécie e da paz social. mesmo as coisas mais superficiais. a gente leva tempo a aprender as regras de trânsito num certo bairro e um dia mudam as regras e nunca ninguém pergunta porquê. a gente aceita tudo como aceita as pedras e as moscas, o mais que pode é sacudi-las mas não as discute...

Vergílio Ferreira, em nome da terra

domingo, março 08, 2009

insólito caso

quatro da manhã...
faltam uns escassos segundos para passar a película dos sonhos - - -

os pesadelos têm sessão marcada para as seis horas. a fotografia quer expandir-se até ao horizonte de uma madrugada azul.

alguém me diz, uma voz à solta e desprendida: rumo ao norte dos passos gélidos, das pegadas mórbidas.

relutante, a fotografia conta um barco a navegar horizonte fora...conta, também, um corpo coberto por cores vivas, apertado pelo desejo de tocar na linha horizontal da madrugada azul.

calma.
o horizonte não gosta de ser acordado de rompante. precisa de um dedo de cada vez. enfim, de um mimo...para a aguarela da madrugada azul não mudar de cor.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

o coração com mais um ano



Daqui a pouco [são 23h40] vou estar um ano mais velha. E como todos os 'daqui a pouco' de anos anteriores, o giradiscos propõe a mesma música. Build up dos King of Convenience. Às vezes, pergunto-me se as pessoas ouvem o giradiscos que toca dentro de mim. É que ouço tão alto. E se vêem os video clip. É que também vejo os cenários.

Eu sei. Patologia grave, esta. A de envelhecer.

domingo, fevereiro 08, 2009



o pássaro refugia-se do lado de fora da janela. observo-o. invejo-o. tem as penas molhadas. é todo preto. e olha-me nos olhos. sem medo. ou eu não vejo o medo. está ali, apenas. a olhar. não é por mim, é pela música. fica ali parado. molhado pela liberdade, e sem medo. os seus olhos tornam-se espadas. afugenta-me. morde-me com o olhar. percebo que me quer dali para fora. empurra-me, e puxa a música para ele - só para ele. escondo-me por detrás da porta. a música pára. e ele voa vagabundo como a liberdade.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

"a ciência pesa tanto e a vida é tão breve"



dias há que se parecem com o som de um violino. ele tão pesado nestas mãos tão leves. as notas penduram-se hirtas neste corpo tão desinteressado. o violino escolhe acomodar-se no ombro discreto - pouco robusto. dias há em que a chuva que caí no chão não é chuva. é música. são notas de um violino desfeitas. são partituras amarrotadas. são gotas transparentes, deitadas ao chão sem pudor - sem misericórdia. é água que caí do céu e ninguém quer.

há dias, em que o destino decide enfiar uma música na cabeça, com um fim único: arrasar.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

o nevoeiro que vestiu o dia, fez-me lembrar o ensaio sobre a cegueira, e de como nos escondemos debaixo do berço do coração. de como o camuflamos. de como vemos o que nos dão a ver, e não vemos o que deveriamos ver.

porque

'o essencial é invísivel aos olhos'.

meeting in the middle II



o I que se acuse=)