sentia sempre pena quando o via a assomar-se a casa
com a enxada na mão.
trazia suor no rosto,
cansaço ao peito - respiração queimada pelo sol.
eu admirava-o do portão da casa
ao vê-lo, assim, robusto,
como uma velha árvore.
mas sentia pena,
daquela
que dá um beliscão no coração.
um velho com uma enxada na mão
a trabalhar duro, debaixo do sol duro.
em pouco tempo, estariam vivos
(estamos vivos)
tomates, alface, cebola, cenoura, batata.
sopa para todos - nunca nos faltou nada.
nunca nos fizeste faltar nada.
nem à mesa, nem ao abrigo dos dias.
pousavas as galochas incriminadas de terra
lavavas as mãos,
as mãos continuavam sujas,
do dia de hoje e do dia de ontem
Bebias água, rebolavas os lábios no gole
que já foi.
Isto passou, como agora passou mais um minuto.
Hoje abafas o corpo
numa cadeira de muitos corpos.
E quando repousas o corpo, fechas os olhos
e engoles ar,
e expeles ar.
e mais uma vez.
parece uma vida inteira
a entrar e a sair,
da tua boca.
um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.
sexta-feira, fevereiro 27, 2015
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
até à essência -
Amar-te até ao fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.
sábado, fevereiro 21, 2015
Estejamos vivos, então!
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
domingo, fevereiro 15, 2015
do jogo de palavras...
Entre o tamanho do corpo e o tamanho do passo
Olhemos
Segredos assim
Para aprender a resistência
do preto gracioso.
O meu quebrar
é uma curva branca
e muito mais pobre do que a vida das espécies.
Um risco da idade azul
Ligeiramente falando
Pode estar uma interessante realidade
Em tentar futuros.
Olhemos
Segredos assim
Para aprender a resistência
do preto gracioso.
O meu quebrar
é uma curva branca
e muito mais pobre do que a vida das espécies.
Um risco da idade azul
Ligeiramente falando
Pode estar uma interessante realidade
Em tentar futuros.
segunda-feira, fevereiro 09, 2015
teorias a entranhar
Stephen Hawking, físico, cientista, cosmólogo. Apanhado pelo corredor da vida, aos 21 anos descobriu que fechada em si existia uma doença - esclerose lateral amiotrófica - que não lhe tirou um segundo de vida. Ainda hoje envergonha a ELA (ainda não foi descoberta a cura).
Hawking casou - duas vezes - tem três filhos e três netos. Ensinou, escreveu, publicou, é um exemplo de superação. A Fé não é dada, é conquistada. Acreditada.
O filme sobre a sua vida, A Teoria de Tudo, é um elogio à vida, à mente, à força de vontade, ao Amor. Como ainda li esta semana no livro O Mundo Novo de Eckhart Tolle, a vida vive-nos. É uma lição que custa a entranhar, mas entranha. Vai entranhando.
Hawking casou - duas vezes - tem três filhos e três netos. Ensinou, escreveu, publicou, é um exemplo de superação. A Fé não é dada, é conquistada. Acreditada.
O filme sobre a sua vida, A Teoria de Tudo, é um elogio à vida, à mente, à força de vontade, ao Amor. Como ainda li esta semana no livro O Mundo Novo de Eckhart Tolle, a vida vive-nos. É uma lição que custa a entranhar, mas entranha. Vai entranhando.
quarta-feira, fevereiro 04, 2015
'o poema me levará no tempo'
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando as notas desaparecerem
Do piano que não existe.
Eu encaixo-me no poema
Como um peixe no meio do oceano.
Um vazio preenchido por um tempo
Que está lá
Onde a vida sobrevive.
Tenho saudades de tudo
No meio de nada.
Penduro-me na árvore
Como um pássaro
À espera de voar.
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando tu fores tu
E nós um soneto por acabar.
Quando eu já não for eu
Quando as notas desaparecerem
Do piano que não existe.
Eu encaixo-me no poema
Como um peixe no meio do oceano.
Um vazio preenchido por um tempo
Que está lá
Onde a vida sobrevive.
Tenho saudades de tudo
No meio de nada.
Penduro-me na árvore
Como um pássaro
À espera de voar.
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
Quando tu fores tu
E nós um soneto por acabar.
sábado, janeiro 31, 2015
persianas apunhaladas
Às sete da manhã
as pérolas batem-me à porta.
Eu sorrio em concha
alargo os sonhos e abro muito os braços em jeito de abraço.
Gosto de lâminas a apunhalarem as persianas.
Sinto o corte feliz do sangue em jacto.
Às sete da manhã o sono pára
o sonho continua o desassossego calmo de quem
espera o amor em visita.
Às sete da manhã as persianas são apunhaladas
o sangue corre como sempre correu
E eu sinto o corte feliz de quem ama persianas apunhaladas.
as pérolas batem-me à porta.
Eu sorrio em concha
alargo os sonhos e abro muito os braços em jeito de abraço.
Gosto de lâminas a apunhalarem as persianas.
Sinto o corte feliz do sangue em jacto.
Às sete da manhã o sono pára
o sonho continua o desassossego calmo de quem
espera o amor em visita.
Às sete da manhã as persianas são apunhaladas
o sangue corre como sempre correu
E eu sinto o corte feliz de quem ama persianas apunhaladas.
sexta-feira, janeiro 30, 2015
Ana Luísa Amaral
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral, poetisa portuguesa, in 'anos 90 e agora'.
Ana Luísa Amaral foi a poeta convidada nas Quintas de Leitura deste mês no Teatro do Campo Alegre. Gostaria de escrever em acta tudo o que lá foi dito, conversado, mostrado, demonstrado, cantado, tocado, documentado. Seria pouco para tantas emoções e aprendizagens. Era preciso um copo gigante para sorver toda a magia de palavras lidas e partilhadas.
É bom ouvir a imagem da poesia.
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral, poetisa portuguesa, in 'anos 90 e agora'.
Ana Luísa Amaral foi a poeta convidada nas Quintas de Leitura deste mês no Teatro do Campo Alegre. Gostaria de escrever em acta tudo o que lá foi dito, conversado, mostrado, demonstrado, cantado, tocado, documentado. Seria pouco para tantas emoções e aprendizagens. Era preciso um copo gigante para sorver toda a magia de palavras lidas e partilhadas.
É bom ouvir a imagem da poesia.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
Palma na CdM
É extraordinário um músico entrar em palco, e uma plateia encher a sala suggia da Casa da Música de aplausos, quando ainda o músico não tocou uma canção. Isto aconteceu ontem com o Jorge Palma.
Só a figura faz o serão. O concerto também foi bom. Pareceu um poema ao relento, abrigado debaixo de um céu de estrelas e de uma lua cheia.
Tocou muitas das muitas músicas que lhe valem a carreira de músico, juntou outras que - pessoalmente - dispensava, e falhou outras quantas que trazem saudade. Bebeu água e portou-se bem, o rapaz de cabelo grisalho acompanhado do filho - o vicente - que ficará sempre na sombra do caminho do pai, e sobretudo, deu-me um brilho a este ano que dá os primeiros passos.
Só a figura faz o serão. O concerto também foi bom. Pareceu um poema ao relento, abrigado debaixo de um céu de estrelas e de uma lua cheia.
Tocou muitas das muitas músicas que lhe valem a carreira de músico, juntou outras que - pessoalmente - dispensava, e falhou outras quantas que trazem saudade. Bebeu água e portou-se bem, o rapaz de cabelo grisalho acompanhado do filho - o vicente - que ficará sempre na sombra do caminho do pai, e sobretudo, deu-me um brilho a este ano que dá os primeiros passos.
domingo, janeiro 25, 2015
uma sombra de Londres
Não é uma fotografia turística. É uma imagem que representa uma fase da minha vida. Londres. Uma cidade que esteve quase um ano nos 32 anos que carrego comigo. Foi cinzenta e soalheira ao mesmo tempo. No meu currículo aparece sob forma de mestrado, mas o verdadeiro significado não tem forma, tem conteúdo. Neste conteúdo cabem amigos que foram o suporte para a solidão de muitas horas e uma evolução enquanto ser humano incompreensível aos olhos de quem tem experiências diferentes.
Na ocasião relatei a experiência de Londres num outro blog que criei para a ocasião - como uma divisão da casa, de arrumos, onde arrumamos a tralha que não é de todos os dias.
Em Londres a solidão pode ser uma companhia. Muitos fins-de-semana visitava com a minha solidão os famosos Tate Museam ou o British Museam. Calcorreava as ruas, onde os pubs se exibiam com as suas Pints sem espuma e neste caminhar a cidade apresentava-se vaidosa. Quem gostar de estar rodeado de amigos, família, Londres pode ser uma cidade perigosa, ela própria escolhe quem quer que lá viva. Nós temos que conquistar a cidade para atrair uma vida sã. Londres tornou-se assim uma sombra de mim. Uma experiência de vida. Onde não ir ao Madame Tussauds é uma opção, e ir a um qualquer café rafeiro de um italiano imigrado é o mais provável. Não, não é uma fotografia turística, é uma parte de mim.
quarta-feira, janeiro 21, 2015
não te abandono, não
não te abandono, não.
como o vento não abandona o mar
que
por sua vez
não é abandonado pelas gaivotas.
não te abandono, não.
como não abandono este corpo de todos os dias.
como o coração dentro do peito.
não te abandono, não.
como o vento não abandona o mar
que
por sua vez
não é abandonado pelas gaivotas.
não te abandono, não.
como não abandono este corpo de todos os dias.
como o coração dentro do peito.
não te abandono, não.
terça-feira, outubro 28, 2014
no limite
não há paletes de cores sufcientes para descrever os sentimentos que moram cá dentro e lá ao longe.
há sempre um entre-cores, entre-linhas, entre-qualquer-coisa. é bom. é bom estar no meio, no meio da balança, no equilíbrio. de um lado uma extremidade, do outro lado, outra extremidade. gosto de abrir os braços e aconchegar os pontos limite de cada lado. abraço apertado ao limite de cada realidade. um pé para cada lado, sempre com a cabeça no meio.
há sempre um entre-cores, entre-linhas, entre-qualquer-coisa. é bom. é bom estar no meio, no meio da balança, no equilíbrio. de um lado uma extremidade, do outro lado, outra extremidade. gosto de abrir os braços e aconchegar os pontos limite de cada lado. abraço apertado ao limite de cada realidade. um pé para cada lado, sempre com a cabeça no meio.
sexta-feira, outubro 24, 2014
'ama como a estrada começa'
há um verso do poeta Mário Cesariny que é um dos meus lemas de vida.
'ama como a estrada começa'
de alguma forma este conjunto de palavras dá-me sorte em todas as estradas que se mostram diante de mim - como linha na agulha para continuar a cozer a minha vida.
de novo o verso pousa à minha frente.
eu recordo o verso. amo-o como um filho. e ele ama-me. porque vem sempre até mim.
'ama como a estrada começa'. é o que vou fazer. permitir-me ser feliz com mais esta estrada para percorrer.
sobretudo, sentir que foi a estrada que me escolheu a mim, e não eu a ela.
sinto-me valorizada, reconhecida, positiva e alegre com esta nova oportunidade. sentir que eu própria sou oportunidade.
estou a amar como uma estrada nova começa. cinto posto, a viagem está prestes a começar.
'ama como a estrada começa'
de alguma forma este conjunto de palavras dá-me sorte em todas as estradas que se mostram diante de mim - como linha na agulha para continuar a cozer a minha vida.
de novo o verso pousa à minha frente.
eu recordo o verso. amo-o como um filho. e ele ama-me. porque vem sempre até mim.
'ama como a estrada começa'. é o que vou fazer. permitir-me ser feliz com mais esta estrada para percorrer.
sobretudo, sentir que foi a estrada que me escolheu a mim, e não eu a ela.
sinto-me valorizada, reconhecida, positiva e alegre com esta nova oportunidade. sentir que eu própria sou oportunidade.
estou a amar como uma estrada nova começa. cinto posto, a viagem está prestes a começar.
quinta-feira, setembro 18, 2014
a liliana que há em nós
há dois ou três dias foi publicada uma estória no jornal Público sobre a grávida que perdeu o trabalho por estar...grávida. por querer fazer crescer a natalidade do país. por querer fazer do país um sítio menos velho. por querer contribuir para futuras pensões. por querer contribuir para a economia e desenvolvimento de um país. por responder que sim, ao fim e ao cabo, aos apelos do governo. a liliana é um exemplo de muitas lilianas por ai. engravidou, foi ameaçada e perdeu o emprego.
na obra de Eça de Queirós, muito na moda, agora, lê-se que Portugal é um 'chiqueiro'. e é. gente que diz uma e faz outra. eu vivi este pesadelo quando estive grávida. a dar tudo por tudo. para que fosse deixada ao acaso. para que fosse para o lixo. é assim mesmo que se sente - um lixo. deixa-se de ser 'ser humano para ser um zero à esquerda, à direita, de frente e de trás. a mim nem se deram ao trabalho de me ameaçar, de me substituir. fecharam a porta, nem um obrigada pelo trabalho, nem um 'está despedida', nem uma palavra. gente 'torpe' [lá diz Eça] que é tão chiqueira quanto o país.
na obra de Eça de Queirós, muito na moda, agora, lê-se que Portugal é um 'chiqueiro'. e é. gente que diz uma e faz outra. eu vivi este pesadelo quando estive grávida. a dar tudo por tudo. para que fosse deixada ao acaso. para que fosse para o lixo. é assim mesmo que se sente - um lixo. deixa-se de ser 'ser humano para ser um zero à esquerda, à direita, de frente e de trás. a mim nem se deram ao trabalho de me ameaçar, de me substituir. fecharam a porta, nem um obrigada pelo trabalho, nem um 'está despedida', nem uma palavra. gente 'torpe' [lá diz Eça] que é tão chiqueira quanto o país.
terça-feira, setembro 09, 2014
Deus dá nozes a quem não tem dentes
Deus dá nozes a quem não tem dentes.
uma mulher de corpo bem feito, bonita de cara, pobre de espírito. um homem, jeitoso por sinal, sorridente, a arrotar amabilidades com a mulher - mulher dele, ele, homem dela. os dois com dois filhos - dos dois, ternuras. filhos bonitos. cena de cinema. todos lindos, de férias, ao sol, longe de todos os defeitos, de todos os males - embrulhados numa película de plástico com uma mensagem: frágil, por favor, não toque.
mulher, espírito pobre, do contra, a ser altamente bajulada, idolatrada, pelo resto da família - marido, filha e filho. a mulher adornada de uma ponta à outra, sorriso maquilhado - falso de uma ponta a outra. mais: relógio de marca, biquini de marca, chinelo sujo de marca. daqueles seres que, assim, ao longe, devem ter tudo - um trabalho onde se ganha dinheiro a sério, uma família rica no banco, imune a qualquer anormalidade da vida. por conseguinte, mulher azeda, tiques de uma educação rude, grosseira - do 'sou centro do mundo'.
quando me deparo com pessoas assim, vejo a outra margem - humanos humildes, que lutam pela dignidade da vida, pela saúde, por todas as anormalidades da vida, que maquilham tudo menos o sorriso - e, ainda assim, apanham porrada por todos os lados.
não entendo. custa entender. por que uns amargos, comem nozes sem dentes, e outros doces, passam as passas do Algarve.
uma mulher de corpo bem feito, bonita de cara, pobre de espírito. um homem, jeitoso por sinal, sorridente, a arrotar amabilidades com a mulher - mulher dele, ele, homem dela. os dois com dois filhos - dos dois, ternuras. filhos bonitos. cena de cinema. todos lindos, de férias, ao sol, longe de todos os defeitos, de todos os males - embrulhados numa película de plástico com uma mensagem: frágil, por favor, não toque.
mulher, espírito pobre, do contra, a ser altamente bajulada, idolatrada, pelo resto da família - marido, filha e filho. a mulher adornada de uma ponta à outra, sorriso maquilhado - falso de uma ponta a outra. mais: relógio de marca, biquini de marca, chinelo sujo de marca. daqueles seres que, assim, ao longe, devem ter tudo - um trabalho onde se ganha dinheiro a sério, uma família rica no banco, imune a qualquer anormalidade da vida. por conseguinte, mulher azeda, tiques de uma educação rude, grosseira - do 'sou centro do mundo'.
quando me deparo com pessoas assim, vejo a outra margem - humanos humildes, que lutam pela dignidade da vida, pela saúde, por todas as anormalidades da vida, que maquilham tudo menos o sorriso - e, ainda assim, apanham porrada por todos os lados.
não entendo. custa entender. por que uns amargos, comem nozes sem dentes, e outros doces, passam as passas do Algarve.
sábado, setembro 06, 2014
da anunciação
anunciação. de coisas boas e más. desde sempre, há uma anunciação para cada momento das nossas vidas.
eu tenho uma amiga que se chama Anunciação. todas as vezes que digo 'Anunciação' há necessidade de repetir/anunciar o nome. eu nunca tive esta incerteza na fonética. gostei mais do nome quando conheci a pessoa. foi há três anos na Acapo - associação dos cegos de portugal. reunião marcada numa manhã amena no porto. juntas começamos um projecto nosso que hoje existe em trejeito infantil e que neste trejeito pequeno já deu um livro, e uma amizade. a poesia cresceu na Anunciação, e a minha admiração pela Anunciação anunciava-se a cada dia que íamos ganhando passado. A Anunciação é amblíope tal como eu vejo mal ao perto e preciso de óculos. a amblíopia é um pormenor, apenas para explicar a ligação da minha amiga à Acapo. lembro de entrar na Acapo, e esperava-me uma Anunciação ansiosa por coisas novas, abria muito os olhos na expectativa de me conhecer melhor. Disse sim à poesia, à minha ideia, sem saber se eu era boa ou má - coisas de corajosos e audazes perante a vida. Com o tempo as nossas conversas e os nossos cafés foram mais do que poesia (será possível algo ser mais que poesia?)mais do que as nossas sessões Um Sentido na Poesia. Sempre que tricotamos conversas, regresso a casa com uma admiração profunda por aquela mulher e amiga. espada na mão, garra na alma, alegria difícil no corpo, sorriso para o que der e vier. assim é-me anunciada a Anunciação. a minha amiga.
eu tenho uma amiga que se chama Anunciação. todas as vezes que digo 'Anunciação' há necessidade de repetir/anunciar o nome. eu nunca tive esta incerteza na fonética. gostei mais do nome quando conheci a pessoa. foi há três anos na Acapo - associação dos cegos de portugal. reunião marcada numa manhã amena no porto. juntas começamos um projecto nosso que hoje existe em trejeito infantil e que neste trejeito pequeno já deu um livro, e uma amizade. a poesia cresceu na Anunciação, e a minha admiração pela Anunciação anunciava-se a cada dia que íamos ganhando passado. A Anunciação é amblíope tal como eu vejo mal ao perto e preciso de óculos. a amblíopia é um pormenor, apenas para explicar a ligação da minha amiga à Acapo. lembro de entrar na Acapo, e esperava-me uma Anunciação ansiosa por coisas novas, abria muito os olhos na expectativa de me conhecer melhor. Disse sim à poesia, à minha ideia, sem saber se eu era boa ou má - coisas de corajosos e audazes perante a vida. Com o tempo as nossas conversas e os nossos cafés foram mais do que poesia (será possível algo ser mais que poesia?)mais do que as nossas sessões Um Sentido na Poesia. Sempre que tricotamos conversas, regresso a casa com uma admiração profunda por aquela mulher e amiga. espada na mão, garra na alma, alegria difícil no corpo, sorriso para o que der e vier. assim é-me anunciada a Anunciação. a minha amiga.
segunda-feira, agosto 25, 2014
estórias de metro a metro - all night long
os dias da semana adormeceram. todos. as noites dormem como sempre, à excepção das noites de sexta-feira e de sábado.
não existe noite. os dias continuam das zero horas às zero horas. de sexta-feira ao acordar de domingo.
dá imenso jeito o move do metro na cidade do porto. a malta pode dar corda aos ponteiros que ainda assim não perde a hora da carruagem na estação. mas atenção: andante na mão, porque os revisores também move.
não existe noite. os dias continuam das zero horas às zero horas. de sexta-feira ao acordar de domingo.
dá imenso jeito o move do metro na cidade do porto. a malta pode dar corda aos ponteiros que ainda assim não perde a hora da carruagem na estação. mas atenção: andante na mão, porque os revisores também move.
quarta-feira, agosto 20, 2014
segredos abertos
há segredos que nos sussuram uma vida inteira. só os ouvimos quando a vida quer.
passei a minha vida com a certeza que todas as minhas características vinham do meu lado materno. até que.
até que a aproximação a uma tia do lado paterno mostrou-me que afinal.
afinal o meu lado paterno corre-me nas veias e no sorriso.
há um retrato da minha avó - que nunca conheci - na parede branca na casa dos meus pais. a mesma que está na morada onde a avó repousa para sempre. a única que conheci. no retrato, a avó já adiantada na idade. com barriga no queixo. um sorriso alegre. a pele morena. os olhos azeitona-preta. o cabelo puxado atrás.
a tia, irmã do meu pai, emigrada em frança durante uma vida que deu vida a filhos - 4 - finalmente regressada da vida para outra vida, me contou muito. tudo. tudo o que o meu pai me ia sussurando a miúde - como peças de puzzle.
depois da tia conheci a prima que até então só conhecia de nome, porque eu sou portugal e ela frança. a prima disse-me palavras banais, e neste vento comum eu revi-me. como de manhã quando me penteio ao espelho.
foi daqui, deste ãngulo adn, genes, o que for, que percebi a minha timidez de alma, e a euforia do meu riso.
percebi todas as vezes que ia ao cemitério visitar os avós sem nunca ter conversado com eles. ficava a olhar as fotografias a preto e branco a saborear um diálogo vazio, a imaginar o 'e se'. e, depois, quando acedi a um retrato da avó - rosa - mais nova, vi o meu queixo, o desenho da minha boca, a segurança do meu olhar.
espreitei na fechadura do meu passado que nunca foi meu.
passei a minha vida com a certeza que todas as minhas características vinham do meu lado materno. até que.
até que a aproximação a uma tia do lado paterno mostrou-me que afinal.
afinal o meu lado paterno corre-me nas veias e no sorriso.
há um retrato da minha avó - que nunca conheci - na parede branca na casa dos meus pais. a mesma que está na morada onde a avó repousa para sempre. a única que conheci. no retrato, a avó já adiantada na idade. com barriga no queixo. um sorriso alegre. a pele morena. os olhos azeitona-preta. o cabelo puxado atrás.
a tia, irmã do meu pai, emigrada em frança durante uma vida que deu vida a filhos - 4 - finalmente regressada da vida para outra vida, me contou muito. tudo. tudo o que o meu pai me ia sussurando a miúde - como peças de puzzle.
depois da tia conheci a prima que até então só conhecia de nome, porque eu sou portugal e ela frança. a prima disse-me palavras banais, e neste vento comum eu revi-me. como de manhã quando me penteio ao espelho.
foi daqui, deste ãngulo adn, genes, o que for, que percebi a minha timidez de alma, e a euforia do meu riso.
percebi todas as vezes que ia ao cemitério visitar os avós sem nunca ter conversado com eles. ficava a olhar as fotografias a preto e branco a saborear um diálogo vazio, a imaginar o 'e se'. e, depois, quando acedi a um retrato da avó - rosa - mais nova, vi o meu queixo, o desenho da minha boca, a segurança do meu olhar.
espreitei na fechadura do meu passado que nunca foi meu.
terça-feira, agosto 12, 2014
oh captain, my captain
a vida é como seguir o rasto de um exemplo. seja dos nossos pais, da família mais próxima, depois de professores e de amigos. a seguir a esta lista vêm os ídolos, por norma artista ligados à música ou ao cinema. é natural que o actor Robin Williams me tenha marcado. muito. o clube dos poemas mortos bem pode estar no meu top 10 dos melhores filmes. e para mim um bom filme é o conjunto de uma sopa de letras: bons actores, bom argumento, bons tempo e espaço, boa banda sonora. sobretudo, os diálogos. sobretudo, a alma com que se veste um diálogo. o Robim Williams fazia isso. era mesmo um captain.
quarta-feira, julho 30, 2014
bochechas vermelhas ao sinal vermelho
carro 1: mãe e filha.
carro 2: senhor idoso.
trânsito pára ao sinal vermelho.
carro 1 pára ao lado do carro 2. paralelos.
calor do dia faz com que os vidros dos dois carros estejam recolhidos.
idoso do carro 2 mostra a língua à filha do carro 1. filha entusiasma-se e riposta a mesma careta.
os dois fincam o olhar e desenham caretas maiores.
mãe do carro 1 fica tão vermelha como o sinal de trânsito. experimenta um 'comporta-te'.
filha e idoso desgraçam-se em gargalhada. sinal muda para verde. mãe arranca em vermelho.
carro 2: senhor idoso.
trânsito pára ao sinal vermelho.
carro 1 pára ao lado do carro 2. paralelos.
calor do dia faz com que os vidros dos dois carros estejam recolhidos.
idoso do carro 2 mostra a língua à filha do carro 1. filha entusiasma-se e riposta a mesma careta.
os dois fincam o olhar e desenham caretas maiores.
mãe do carro 1 fica tão vermelha como o sinal de trânsito. experimenta um 'comporta-te'.
filha e idoso desgraçam-se em gargalhada. sinal muda para verde. mãe arranca em vermelho.
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