um weblog sobre literatura, viagens, momentos, poesia, sobretudo, sobre a vida. enfim, um weblog com histórias dentro.

quinta-feira, outubro 11, 2012

o jornalismo

ando com as palavras anoitecidas. preciso de páginas em branco para perceber o que tem acontecido. para madrugar os pensamentos. estou com os sonhos de criança tingidos. sinto-me só na minha profissão. sinto que a minha profissão está à deriva. dizem que os jornalistas são colaboradores. que a tinta está cara. e que o melhor é atirar tiros às pessoas que escolheram o jornalismo, que escolheram ser felizes. as crianças no meu tempo de criança queriam ser tudo o que não são hoje. porque naquela época não imaginavam o futuro. nem davam importância ao que queriam ser. eu sabia. eu quis desde que me conheço ser jornalista. e é um grande privilégio sê-lo. para dar voz a quem não consegue gritar. para espelhar uma sociedade no trapézio da vida. de repente. cresço. e há uma sensação preocupante e séria em torno do jornalismo. há uma tendência para algemá-lo. calá-lo. há aqui uma tentativa de homícidio. não foi por isto que me apaixonei. o jornalismo ensina a liberdade. evoca a liberdade. grita o grito. eugénio de andrade disse num verso que é urgente o amor. é urgente insurgirmo-nos. é urgente desamarrar. é urgente lembrar de onde vem o jornalismo para sabermos quem é ele. é urgente respeitar o jornalismo. não pode ser isto, o jornalismo. não pode ser despedimento. nem colaboradores. é urgente recordar a paixão do jornalismo. os seu valores. é urgente fazer jornalismo.

segunda-feira, outubro 08, 2012

os sonhos de criança chegam tingidos à idade adulta.

segunda-feira, setembro 24, 2012

começou o outono. apercebi-me pelo cheiro que emana das árvores.nem tanto pelo calendário. os meus cabelos voaram esta manhã como já não voavam há muito. eu gosto do verão. mas também gosto de ficar do lado dos mais pobres e dos mais fracos. ou seja, do outono. o outono perde nas estações do ano. até mesmo para o inverno. o outono vive precisamente entre a alegria do verão e a tristeza do inverno. muitos pensam que a tristeza do inverno começa no outono. mas estão todos enganados. o outono tem charme e é meigo. serve de psicólogo - começa uma sessão de preparação para tempos menos bons. eu gosto do outono, e eu sei, eu sei, que ele gosta de mim.

sábado, julho 14, 2012

T. queria espetar uma faca na alma. mas isso não mataria o arrependimento. T. queria ser uma serial killer de corações despedaçados. só para poupar a dor prolongada de uma doença sem cura. Saíu de casa, louca, com os cabelos a fintar o vento, e correu. correu relógio fora. apenas para esquecer os desarranjos da alma. na esperança de alcançar o inesperado. que tal como a alma, é imperfurável. o arrependimento é imperfurável.

sexta-feira, julho 06, 2012

adeus

quando conheci a sãozinha não sabia que seria minha avó para sempre. nasceu já velha para mim. eu no início da vida. ela com cabelos brancos e pele enrugada que teimava com todos os tempos. uma mulher do campo, forte, resmungava por tudo e por nada, e por tudo e por nada dava gargalhadas - muito altas. só me apercebi destas características quando ganhei consciência. os meus avós moravam na rua do casal e a sãozinha também. muito conveniente para me deixarem de manhã antes do trabalho. eu era o trabalho de sãozinha. todos os dias pelas 07h30 a porta da casa mais velha da rua, da senhora mais velha da rua, rangia. e eu também, porque via a minha mãe e a minha avó irem para o trabalho. amar custa. o tempo foi passando, o meu tempo também, e certo dia em que dei folga à sãozinha, apercebi-me que a amava. e ela a mim. a partir daí, sãozinha mudou a semântica e semiótica da palavra e imagem sãozinha. passou a ser a avó, e o marido avô. os outros netos primos, os filhos tios. mais do que família, sãozinha para mim reflecte uma boa parte do meu ser, e do meu lugar do mundo. gosto de feijões pela teimosia da avó sãozinha. não tenho medo de cães nem de gatos, porque corria o campo todo em liberdade. aprendi que o vinagre faz milagres. aprendi a rezar e a dar graças - ou não fosse a avó sãozinha a mais antiga catequista de Rio Tinto. sobretudo, deixava-me brincar com martelos a fingir que eram microfones, e punha-se a rir das minhas figuras. um dia sãozinha perdeu a memória. ficava admirada de me ver dizer que eu era a joana, a joaninha, a neta de nenhum filho. depois arregalava os olhos e dizia: espera lá, a joana é pequena com uns grandes olhos azuis. "tu és ela?" a minha avó sãozinha parou as memórias no tempo delas. e fez bem. a palavra adeus é longa. tem 30 anos de existência.

quinta-feira, março 29, 2012

andar de autocarro é maravilhoso. vê-se a cultura na sua forma humana. a poeira de palavras e conversas atravessam todos os ouvidos. mesmo os mais distraídos.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

um vislumbre.

um vislumbre.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

F. está a viver a vida a preto e branco.
com muitos pontos finais.
poucos parágrafos.
muitas vírgulas.
muitos pontos de interrogação.
no espelho um reflexo: zombie.
tudo a preto e branco.
mais sombra que luz.
à noite lê crime. de manhã romances.
não há intervalo.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

há manhãs que não deviam acordar.
há dias que não deviam existir.

"desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela"
AL BERTO

terça-feira, setembro 20, 2011

hoje vi uma menina de saia rodada, camisola do ano passado, de chinelas coloridas e unhas já gastas do dia, tropeçar num buraco da rua. a mãe chamou-lhe atenção. não ao buraco. à menina. presumo que o buraco não seria tão grande quanto aquele em que todos estamos agora metidos - por isso, o dói-dói não foi muito.
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?

sábado, agosto 27, 2011

está cientificamente provado que com a perda de um dos cinco sentidos, os restantes (sentidos) intensificam-se na sua própria função.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.

sexta-feira, julho 22, 2011

há um cemitério de palavras dentro do corpo de M.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.

sexta-feira, abril 29, 2011

a manhã está de nevoeiro.
mas não há sebastião.
há um barco pintado no horizonte. e muito cinzento borratado no mar.
mas o mar não tem cor.
por isso,
o barco deriva.
desaparece na transparência do ar.
ou seja,
esconde-se nas paredes claras do ar.

quinta-feira, abril 21, 2011

sonhando-sempre-com o do lado.

a vida sente-se do vidro da janela para fora.
um mero espectador avalia as gotas da chuva do lado de dentro do (seu) mundo.
do lado de fora do (seu) mundo, a vida passa nos pés das pessoas, nos sacos das compras, nos pneus barulhentos, nos animais preguiçosos espalmados nas entradas das portas, ou nas saídas das mesmas portas.
uma janela separa o espectador do mundo.
o espectador fica parado, empoleirado na janela, a tentar agarrar o mundo, como um ladrão numa mota.
depois, o espectador fica abismado com a quantidade de janelas que separam mais espectadores de mais mundos.
são muitos e tantos. de vários tamanhos, pesos e cores.
o espectador aprecia o (seu) mundo, sonhando - sempre - com o do lado.

sexta-feira, março 11, 2011

anda metade do mundo a comer a outra metade. e vice-versa. claro.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

o mundo das gaivotas está em estado de alerta. vem ai uma gaivota que grita mais do que as outras. que ri mais do que as outras. que come mais do que as outras. que chora mais do que as outras. que sorri mais do que as outras. que ama mais do que as outras. que sofre mais que as outras. que teme mais do que as outras. que corre mais riscos. que é mais feliz. que é mais bonita. e mais feia. e mais louca. e mais simpática. e mais bela. e mais inteligente. e melhor. mais. e mais. mais do que as outras. uma única gaivota é mais em tudo do que todo o mundo das gaivotas.
porquê?
porque é minha. simplesmente por isso.

domingo, dezembro 26, 2010

apetece-me fugir de mim para mim.
descubro coisas que não quero, vejo paisagens duras, dificéis para caminhar.
caminhos altos e longos.
sou trecho de uma história que não escrevo sozinha.
vejo enganos e desenganos. vejo um muro trair uma parede.
leve, transparente, subtil.
ainda assim magoa. de morte.
apetece-me caminhar no corpo. partir os vidros. limar as pontas.
para não magoar, para fazer de conta, para amar sempre. para sempre.

quinta-feira, novembro 11, 2010

existe a poesia para fazer o trabalho de manter viva a memória. nela não há alzeimer. muitos riem disto. mas é verdade. a sério.

segunda-feira, outubro 25, 2010

ali

ficava ali o tempo todo. se o mesmo tempo me permitisse.
as folhas repousadas no lago preto da terra e uma cara pousada na água suja - a fazer reflexo. e eu. eu a olhar as árvores, as folhas, a água, a cara artificial.
eu ali. com um lago dentro. acompanhada das minhas árvores, das minhas folhas, das minhas águas. da minha cara não artificial. ambas a ouvir os pássaros, as folhas em abanico, numa orquestra sem mestre.
eu não ando sozinha. aquele era um bom lugar para crescer em mim. ficava ali. até rebentar a terra, soltarem-se as folhas sopradas pelo vento, rebentar a água e a cara pousada em mim - a fazer reflexo.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Não é do lugar que sentimos saudade. É do que fomos nesse lugar.